Baby Rose // To Myself

[TEXTO] Beatriz Negreiros

É o conto que dá início a um milhão de discos: foi um desaire amoroso que levou Baby Rose, jovem cantora e produtora americana, a pegar na caneta e a exorcizar a dor nos 10 temas que compõem To Myself, o álbum de estreia lançado há duas semanas pela Human Re Resources.

A voz. É a voz de Baby Rose que, à primeira escuta, nos assalta os sentidos, nos paralisa numa surpresa que demora a esgotar-se. A mesma voz que já tinha virado cabeças em “Self Love” (tema com que entrou no ringue ao lado da Dreamville e com Ari Lennox no seu canto para marcar presença em Revenge of the Dreamers III, ambiciosa compilação imaginada por J. Cole) arrepia de imediato, e o seu vigor, grave e líquido, tão claro como emotivo, justifica comparações improváveis quando falamos de uma jovem de vinte e quatro anos: Nina Simone, Billie Holiday ou Donnie Hathaway são hipóteses… 



Mas seria difícil uma boa, ou até excelente voz, erguer sozinha um disco ao ponto de nos obrigar a ele regressar; é, sim, a aliança entre o inacreditável timbre de Baby Rose e 10 composições cuidadas e sinceras que nos permite ter a certeza de estar diante de uma promissora e excitante nova presença na cena soul.

É o som de um carro a arrancar — e já conseguimos imaginar na noite, na chuva, na fúria cega e na tristeza profunda de uma discussão mal acabada — que dá início a To Myself, na tocante faixa de abertura, “Sold Out”. De imediato somos apresentados ao monumento maciço que é a voz de Baby Rose, que se entrega desde o primeiro minuto a cada palavra que lhe desliza da boca, fazendo-nos sentir cada emoção que canta como se tivesse uma espiga no coração, enquanto chora encostada a uma linha de guitarra afogada numa instrumentação de luxo, completada com uma secção de cordas morosa. Logo sabemos que vamos ouvir a banda sonora de um coração que se quebra. Mas, uma leitura possível do título, To Myself (aparentemente uma lamúria…), pode apontar para a resiliência necessária para sobreviver à difícil guerra do amor e da vida. Como a cantora comentou em entrevista para publicação DJBooth: “eu queria que este álbum fosse uma recordação de como quase desisti (…) e que não vou encontrar gratificação em ninguém nem em nada que não seja o meu propósito ou que não esteja alinhado com o que Deus quer para mim”. 



A multidimensionalidade de To Myself está patente em temas de destaque como a desafiadora “Ragrets”, com uma bateria seca e um coro de fundo qie sublinham a fúria palpável na voz de Baby Rose quando cospe linhas como “Regret’s my favorite candy/ You’re sweet now/ You’re just poison in my veins/ And I don’t deserve it”. É uma canção que nos recorda outra referência, esta bem mais recente: Amy Winehouse, em toda a sua mestria em escrever o perfeito “vai-te lixar por me teres feito chorar”. “Mortal” desvenda a possibilidade de gospel, mas é com o tema que inspira o título do álbum que Baby Rose nos leva à missa: um apropriado e melancólico órgão serve como pano de fundo para uma das mais destrutivas passagens do álbum, em que a lírica afiada de Baby Rose cintila por cima da sua voz torturada — o detalhe de versos como “I made it seem like I was fine/ When I saw you that last time/ So I bet you think I’m having fun/ But i’m at home looking at you on my phone/ Might have drank a little too much” — é complicado de digerir, mas impossível de ignorar. 

Se “All To Myself” seria uma escolha óbvia, apesar de deprimente, para fechar o álbum, “Show You” vence pelo esplendoroso e muito necessário hino de perseverança que merecemos ao fim de 35 minutos de poderosa agonia e, pela primeira vez, sentimos um sorriso que viaja através da gravação da voz aveludada de Baby Rose, que se confunde com as cordas e coros magnânimos. 

Baby Rose quase desistiu, mas damos graças a Deus por ter abandonado essa tão estúpida ideia. Porque, caso tivesse deixado o desespero triunfar, ao invés de o transformar nas 10 canções que escutamos em To Myself, teríamos de continuar a nossa vida habitual sem saber desta emergente promessa do r&b americano, que devolve ao género referências clássicas sem por isso abandonar uma imagem única, distinta e completamente da sua era. Isso seria inaceitável. 


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