As duas abordagens únicas de Gold Panda e Egbo no Jameson Urban Routes

[TEXTO E FOTOS] Amorim Abiassi Ferreira 

 

No dia 26 de Outubro, Gold Panda e Egbo foram os convidados do festival de ritmos urbanos e cada um deles trouxe consigo diferentes abordagens de música composta com ajuda do mesmo instrumento. Na sessão 3 do Jameson Urban Routes, não foi coincidência ambos os convidados virem munidos de MPCs, pequenas consolas que permitem disparar samples e percussões e que estão intrinsecamente ligadas à história do hip hop e de alguma electrónica. Com sistema de som reforçado no Musicbox e técnico de luzes a mostrar empenho redobrado, não houve um pormenor fora do lugar para assistir a estas actuações.

 


egbo+solipso


Conheci o projecto de Egbo no EP xyz, mas comecei a colaborar na escrita dos seus textos promocionais com o novo Yesterday you said tomorrow. É também a terceira vez que vejo este concerto ao vivo, mas o que é surpreendente é que nenhuma delas tem sido igual à anterior. Normalmente acompanhado de outros músicos em sintetizadores, ontem, pela primeira vez, Iuri tocou sozinho naquilo que resultou ser a versão mais fidedigna do seu novo álbum.

 



As luzes azuis projectadas sobre o palco arrefeciam a sala enquanto o produtor nos arrastava lentamente para dentro do mundo de beats progressivos e espaciais. Ao fim de um par de músicas, Egbo esfregou as mãos e chamou Solipso ao palco, que tão rápido apareceu como desapareceu. Atrás dele, apenas ficou uma performance de voz que captou a atenção de quem se deixava levar no transe. Com um set de crescente intensidade até atingir músicas como “mun shrm”, Egbo adicionava manualmente percussões às suas músicas que frequentemente recorriam ao silêncio, sendo sempre imprevisível distinguir o fim de uma música de mais uma respiração.

 


gold panda


Descobri Gold Panda algures em 2011, provavelmente na rádio online Pandora, que na altura ainda funcionava em Portugal. Embora tenha ficado de imediato colado, dei sempre pelas minhas opiniões sobre a discografia dele a flutuarem com cada projecto. Tendo ele sido um dos responsáveis por tornar 2011 num dos meus anos favoritos de lançamentos, estava na altura de ir espreitar ao vivo o que este mito da minha cabeça tinha para me oferecer em formato live.

 



A sala estava cheia mas comportava espaço para a bolha pessoal de cada um. Um meio-termo raramente atingido neste tipo de concertos, mas que viria a ser útil, já que, quando Gold Panda entrou em palco, ele não perdeu tempo em disparar um dos seus mais recentes singles: “In My Car”. Também ele foi adicionando os seus toques de percussão sobre a base breakbeat desta música e não foi preciso mais nada para deixar o público a dançar. Todos agradecidos pelo espaço adicional para se poderem balançar.

O breakbeat ficaria reservado para apenas esta introdução e uma ou outra música do set. O resto da actuação dedicou-se ao techno, com uma percussão clássica de máquinas aliada a samples nipónicos. Na actuação de Derwin Schlecker, uma música de três minutos rapidamente passa ao triplo do tamanho, enquanto ele manipula a sua composição, adicionando e subtraindo. Mesmo que a batida seja quadrada, o tempo que cada coisa vai durar nele não o é, obrigando quem assiste a deixar-se levar pela sonoridade do que ouve e não pelo que espera dela. Assim, cada música tornou-se num pequeno mundo para o qual éramos absorvidos, sempre com tempo para observar cada elemento que o compõe.

 



Gold Panda viria a dedicar bastante tempo ao primeiro (Lucky Shiner) e último LP (Good Luck and Do Your Best) e obviamente músicas como “You” ou “Marriage” provocaram a reacção mais audível do público. Se este itinerário foi cansativo a alguns, acredito que tenha conseguido embalar muitos mais. A verdade é que as composições do artista, pelo lado redondo do techno, nos fazem sentir com um pé em Berlim e, pelo lado dos samples orgânicos, com o outro algures num jardim budista. Com o final do concerto ficou em mim a satisfação de finalmente ter tirado a limpo o mito da minha cabeça e ter ficado contente com a memória que me deixou. Uma banda sonora totalmente perfeita para o Outono e que me provou que há interacções verdadeiramente amorosas de música de dança.

Amorim Abiassi Ferreira

Amorim Abiassi Ferreira

Copywriter comprometido com a descoberta e partilha de música. Gosta mais deste propósito do que de café e quem o conhece sabe que isso é uma declaração séria de amor.
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