LP / CD / Digital

Arca

KiCk i

XL Recordings / 2020

Texto de Gonçalo Tavares

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KiCk i é, como indica a primeira música do registo e como se assume Arca, “Nonbinary”: a principal característica da sua música é a sua multiplicidade de formas e de personalidades, num fluxo agitado de canto, sintetizadores ásperos e elementos club. E a voz tanto se agrava com contornos mais associado ao masculino (como em “Calor”) como se agudiza e é doce (e ouvimos em “Time”), procurando sempre diluir as pré-concepções que possam existir no ouvinte e criando, conscientemente, um objecto genderless que entra em confronto directo com quem tenha dificuldades em assimilar a palavra “fluído”.

Enquadrado este novo álbum na sua discografia, ouvimos as mesmas técnicas que nos foram apresentadas em Xen, Mutant e Arca (trabalho homónimo). A cada lançamento, o domínio técnico da produtora é empreendido para trabalhar uma linguagem própria, que já identificamos aos primeiros segundos de audição de cada música que faz.

A electrónica de Alejandra Ghersi é, em igual medida, industrial e alienígena, mas, com o passar do tempo, foi ganhando uma maior costela humana. Esta humanização faz-se com o uso de certos sintetizadores e da voz, recursos cada vez mais preponderantes. Em peças como “No Quedo Nada” ou “Afterwards”, à semelhança da fabulosa “Piel” do seu terceiro álbum, esta transformação é evidente. “Afterwards” conta com uma colaboração deleitosa de Björk, uma das suas mentoras, a cantar um poema de Antonio Machado. O espanhol e o inglês cruzam-se no registo sem se sobreporem um ao outro.

Para além de Björk e Shygirl, KiCk i apresenta colaborações com Rosalía e SOPHIE em dois momentos fortes do disco: “KLK” explora um apetite dançante dentro de uma atmosfera conturbada, com a catalã a servir eficazmente de lead; por outro lado, “La Chíqui” aproxima-se da experimentação sonora que associamos ao projecto, usando a voz e produção de SOPHIE para tornar a faixa mais rica nessa exploração de territórios . Em todos estes casos, Arca compreendeu e aproveitou as potencialidades das suas convidadas.

KiCk i não é tão inovador como alguns dos seus registos anteriores, mas não precisa. É um trabalho de continuação para a linguagem musical de Arca, que se encontra em avançado processo de maturação. Não é novo, mas não deixa de ser cativante.


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