O que aprendemos com a entrevista de Aphex Twin à Crack Magazine?

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTO] Direitos Reservados

Aphex Twin esteve em destaque no final da semana passada graças à raríssima entrevista que concedeu à Crack Magazine, que lhe dá honras de capa na sua edição de Novembro.

O momento não podia ser o melhor, já que Richard D. James editou um novo EP pela Warp Records em Setembro. Collapse foi antecipado por várias investidas que fizeram soar os alarmes das publicações mais atentas — desde os logótipos que surgiram em Nova Iorque, Tóquio ou Turim às mensagens criptografadas que chegavam ao correio digital das redacções. Musicalmente, o curta-duração veio demonstrar que continua a existir margem de manobra criativa para um dos maiores veteranos, ainda em actividade, da cena electrónica — longe da confusão dos grandes centros urbanos, o produtor irlandês continua a guiar a sua aeronave pelas órbitas mais distantes dos planetas dubstep, garage e 2-step, cujas atmosferas se encontram cada vez mais acidificadas.

À conversa com Andrew Nosnitsky, da Crack Magazine, Richard D. James abriu o jogo e mostrou o brilho que lhe é característico e que se estende para lá da música. Apesar de dar início à troca de ideias com um quase aborrecido “estou a ser um bom rapaz, estou a fazer o que me foi pedido”, o músico deu a conhecer um lado mais humano — e até romântico — que o ajuda a traçar planos de distribuição artística bastante peculiares, como são os casos em que disponibilizou gratuitamente vários temas numa conta anónima no SoundCloud, ou quando arriscou levar o público aos seus concertos de forma (teoricamente) gratuita. O Rimas e Batidas destaca cinco passagens obrigatórias da entrevista.

 



[O “super-poder” de ouvir toda a sua obra]

“Basicamente, eu tinha-me esquecido que aquelas faixas existiam. O que é lindo como o caraças, para mim! É a melhor prenda que eu podia ter dado a mim mesmo, ter a possibilidade de ouvir aquelas faixas, das quais eu me tinha esquecido completamente. Essa é a derradeira cena para mim. Se alguém me dissesse que eu podia ter qualquer coisa no universo — que eu pudesse teletransportar-me, ser invisível, viajar no tempo, qualquer coisa — o meu primeiro desejo seria ouvir as minhas próprias músicas. Tanto aquelas das quais me esqueci, ou até mesmo coisas do futuro que eu não tenha feito ainda. Por isso, ter descoberto aquelas cassetes é melhor do que teletransporte, para mim.”

 

[Negócios peculiares…]

“Eu estava a tentar trazer as pessoas aos concertos de borla. Estou a ser muito bem pago por estas actuações e o preço dos bilhetes aumenta. Senti-me um bocado culpado por isso. Então pensei que se as pessoas estão preocupadas podem vir cedo e apanhar algum material limitado que tenho nos concertos, e depois fazerem dinheiro com isso [ao vender o material]. É uma filosofia frágil mas faz sentido até um certo ponto.”

 

[…e o exemplo pessoal]

“Eu aprendi a lição quando era miúdo. Quando tinha à volta de 16 anos, o meu melhor amigo tinha o Tracks That Move Ya, do Mike Dunn, uma cena ácida de oito faixas. Estávamos em Cornwall e ele tinha estado em Londres e comprado duas cópias. Não tinha como comprar aquele disco pois tinha de ir até Londres, não existia Internet na altura, e ele disse-me que o vendia por 30 libras. Naquela altura, 30 libras eram como 100 mil para mim. Lembro-me de lhos ter dado e ele me ter passado o disco, enquanto olhava para mim tipo ‘tu és tão idiota’ por ter pago tanto. Eu estava tipo ‘ya, mas eu tenho este disco espantoso e tu tens apenas pedaços de papel na mão.’”

 

[Amigos e colaboradores]

“Não tenho assim tantos amigos. Requerem demasiado tempo. O meu tempo é muito precioso e eu tento não falar assim com tantas pessoas, para te ser honesto. O sítio onde vivo, na Escócia, é muito pequeno. Se vives num local pequeno as coisas podem tornar-se intensas e nunca consegues ter nada feito. Conheces toda a gente e páras para falar às pessoas a toda a hora.

Mantenho o contacto com algumas pessoas mas, de uma forma geral, não me dou a conhecer a gente nova. É mais à base de e-mails. Tenho gente que vem ficar aqui comigo. Recentemente tive cá uma DJ, a Nina Kraviz, e foi fixe, ela é um doce. Foi a última pessoa que tive por perto. Antes dela, sei lá… Oh, há uma miúda local que é cantora. Era suposto fazer algumas faixas com ela. Mas isso foi tudo no mês passado, duas pessoas. [Risos] Por isso não estou assim com tantas pessoas.”

 

[A música como forma de expressão total]

“Esta manhã, estava mesmo a pensar acerca do motivo pelo qual ainda faço música. Não sei se foi porque tinha a entrevista ou assim. Acho que quando estás à conversa e a interagir com as pessoas ficas limitado à tua língua, ao teu vocabulário. Tu pensas na tua língua e, por isso, a tua linguagem é que dita como é que tu pensas. Quando estás a fazer música isso não acontece. É por isso que amo tanto fazer música. Não ficas limitado a vocabulário e palavras. Cais em padrões e tendências mas podes aceder a tudo o que quiseres. Não podes fazer isso com a linguagem. É verdade que podes procurar mais palavras mas suponho que se torna infinito na arte, na música.”

 


Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
Gonçalo Oliveira