Aphex Twin no NOS Primavera Sound: Uma rave do século XXI

[TEXTO] Diogo Pereira [FOTO] Pedro Mkk

Noite de lua cheia para receber Aphex Twin no concerto de fecho do NOS Primavera Sound, um set esquizofrénico, alucinado, intenso e delirante, que pareceu actualizar o conceito de rave para o público pós-moderno do século XXI.

O concerto assemelhou-se a actuações mais recentes, como a de Texas, Londres ou Barcelona. Além do estrondoso sistema sonoro que fez tremer a terra e se fez ouvir a quilómetros de distância, a performance contou ainda com uma forte componente visual: a projecção de gráficos coloridos em vários ecrãs gigantes em cima e ao lado do palco.

Referindo-se ao seu concerto no festival Field Day, em Londres, na semana passada, a Mixmag descreveu-nos assim o evento:

Completely unpredictable, utterly insane at points and a whole lot of fun, every Aphex Twin fan’s dream was realised. We’d got to see one of the greatest electronic musicians of all time, perform in a way we knew he would. He fucked with us, we wanted him to fuck with us and we’re glad he fucked with us.

Não diríamos melhor. Ao tentar descrever o que se passou ontem, dou por mim a citar-me a mim próprio, no ensaio de retrospectiva que escrevi sobre ele há dois dias, em antecipação do evento.

O que assistimos foi ao bramido de um monstro gigantesco, extasiante e intoxicante de acid, jungle, trance e hardcore techno feito de ritmos infrenes e agrestes a martelar os nossos ouvidos, ruídos abstractos e estridentes, strobes incandescentes, jogos de laser verde, e a habitual projecção megalómana do seu logótipo e do seu icónico rosto deformado e grotesco em inúmeros ecrãs (bem como nos rostos do próprio público), cuja única intenção parecia ser a de agredir o espectador. Mas Aphex trouxe surpresas para o público português.

O set começou timidamente, com aquilo que pareceu um dos logotones analógicos retro típicos de álbuns da Ghost Box, e rabiscos de criança que gradualmente deram forma ao famoso símbolo do músico inglês.

Poucos minutos depois, a batida entrou, e a partir daí, o ambiente manteve-se intenso, sem nunca mostrar sinais de abrandamento.

O set teve os seus momentos violentos de rave, com strobes em brasa a ferir os nossos olhos e thrash techno a agredir os nossos ouvidos.

Mas também teve os seus momentos inconfundivelmente pós-modernos, como a projecção de poliedros coloridos a três dimensões e rabiscos estilo Jackson Pollock em monitores que pareciam estar em permanente glitch.

E inconfundivelmente Aphex, como o de sobrepor o seu rosto deformado, grotesco e quase demoníaco nas caras de membros do público da primeira fila e transmitir o resultado nos ecrãs. O rosto assumiu várias formas que deleitaram os fãs de longa data que os reconheceram, desde os famosos dentes podres de “Windowlicker” ao espectrograma no final da sua equação.

Musicalmente, o set não se desviou muito do hardcore techno e drill’n’bass a que nos habituou: ritmos abrasivos e pulsantes, ruídos metálicos e, muito raramente, melodias e texturas ambient. Mas o foco esteve sempre na batida, e de aí não saiu até ao fim.

O concerto pareceu abrandar a meio, evocando Richard D. James Album e o seu jungle frenético, mas depressa entrámos em território Ken Ishii, com um techno feito de batidas violentíssimas só para os ouvidos mais afoitos.

 



E no meio de tamanha violência sonora, foi quase impossível discernir que músicas ele estava a tocar. No entanto, perto do final, houve uma recompensa para quem aguentou: daquela névoa ofuscante e opressiva de ritmos emergiu a melodia infantil de “PAPAT4 [155][pinealmix]”, de Syro, aqui tocada em versão especial e mutante. Uma mui bem-vinda lufada de ar fresco, que pôs um sorriso na cara deste repórter.

Outra feliz surpresa ocorreu a meio do concerto, quando os ritmos abrandaram para ouvirmos o ambient techno familiar da sua obra prima de estreia, e por momentos pareceu-nos ouvir “Ptolemy”, naquele que foi indubitavelmente o momento mais agradável da noite.

Visualmente, o momento mais bonito e onírico foi sem dúvida o dos jogos de luz: lasers verdes projectados no céu como uma teia de aranha de paus Mikado, que depois se fundiram numa névoa mística que se dissolveu no ar da noite como absinto em pó. Lindo. Nem a Lua ficou indiferente. E o momento mais bizarro foi quando projectou o seu rosto em cima de retratos antigos de crianças, ao som de percussão tribal.

Logo a seguir, veio o momento mais humorístico (e kitsch), em que os seus alvos passaram a figuras públicas portuguesas, desde Salvador Sobral a Álvaro Cunhal, Marcelo Rebelo de Sousa e até (meu deus) o Emplastro, mostrando que para Aphex Twin, iconoclasta assumido, nada nem ninguém é sagrado, nenhuma imagem é demasiado sacrossanta para não ser profanada.

No fim, no meio do silêncio, o nome dele ainda brilhava na torre adjacente ao palco, fazendo prever um set extenso que se prolongaria pela noite inteira, mas a verdade é que contrariamente às expectativas, Richard ofereceu-nos um concerto de duração fixa e planeada, que acabou abruptamente, não excedeu as duas horas e não teve direito a encore. Não obstante, saiu ao som de aplauso, gesto que num concerto de Aphex Twin é tão útil como despejar um cântaro de água nas Cataratas do Niagara.

Após o concerto, e o habitual anúncio “Obrigado a todos. Voltamos para o ano”, que esvaziou o recinto, alguns resistentes permaneceram junto à vedação que separa o público do artista em estóica dedicação, a princípio sem grandes esperanças de ver ou falar com o músico.

No entanto, quando o cenário parecia além de salvação, eis que Richard regressa ao palco para ajudar a enrolar cabos, e alguém grita: “Thank you Richard!”, ao que ele responde acenando com um sorriso tímido. Esse alguém foi Chris, fã religioso de Indiana que anda a perseguir o músico desde Texas e cuja quimera o levou de seguida até à Europa, primeiro em Londres, depois em Barcelona e ontem no Porto.

O único a dar manifesto vocal ao seu afecto, a sua bravura foi recompensada: vinte minutos volvidos, e após muitos passeios até ao palco para arrumar cabos e equipamento, Richard desceu até à vedação para falar connosco, tirar selfies, assinar folhas de papel amarrotadas e mapas de Portugal, pedir-nos um isqueiro para acender o seu charro e desvendar o mistério do enigmático relógio no seu site, tudo com grande humildade e à vontade, mostrando que é, afinal de contas, um ser humano como nós (bom, talvez não exactamente como nós).

A noite concluiu com Chris, que conseguiu falar com Richard pela primeira vez na vida, depois de anos atrás dele, a confessar-me num estado quase lacrimejante, entre vários momentos de contacto com o chão e a terra, em genuflexão compungida: “This is the greatest day of my life. I don’t know what to say“. Nem nós.

 


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