Aphex Twin, o enfant terrible da música electrónica

[TEXTO] Diogo Pereira [FOTO] Martyn Goodacre/Getty Images

É impossível falar em música electrónica contemporânea sem falar em Aphex Twin, dono de uma reputação incontestável e autor de uma obra invejável, aclamada e profundamente influente que abrange sensações e géneros e atinge públicos de um espectro amplíssimo.

Tudo começou em Cornwall, uma região erma do extremo sudoeste de Inglaterra, onde Richard David James começou a desmontar sintetizadores para seu puro entretenimento, com apenas 12 anos, altura em que alegadamente começou a compor o seu primeiro álbum, Selected Ambient Works 85-92, disco que foi não apenas uma estreia auspiciosa mas que se veio a tornar um clássico da electrónica, descrito como “a watershed of ambient music”, “the birthplace and the benchmark of modern electronic music”.

No seu livro Energy Flash, Simon Reynolds diz-nos:

“James’s avant-garde impulses emerged almost as soon as he was potty-trained. As a small child he messed about on the family piano, exploring different tuning scales and hitting the strings inside instead of the keyboard.”

Pelo caminho fundou a Rephlex, deu à Warp alguns dos seus maiores sucessos, juntando-se à vaga de produtores de IDM britânicos dos anos noventa, como u-Ziq (seu companheiro de armas, com quem faria Expert Knob Twiddlers em 1996), Squarepusher, The Black Dog e Luke Vibert, e cunhou termos como IDM ou braindance, especialmente criados para definir a sua música.

E tornou-se uma das mais únicas, fascinantes e incontornáveis referências da música electrónica contemporânea.

 


aphex-twin-1


Richard cresceu em Lanner, uma pequeníssima aldeia no fim do mundo. Talvez esse isolamento geográfico explique porque a sua música é tão idiossincrática e tão remota como o sítio onde cresceu.

Afinal foi ele que disse que o seu isolamento o impediu de ouvir a música que se fazia lá fora, por isso decidiu compor a sua própria.

E essa singularidade ouviu-se logo no seu primeiro álbum. Depois de ter granjeado um culto underground à volta dos seus DJ sets enquanto adolescente, Richard estreou-se com uma obra prima. Selected Ambient Works 85-92, de 1992, é uma colecção intemporal de faixas instantaneamente memoráveis, que ainda hoje soa a clássico.

A sua sonoridade marcadamente lo-fi, ouvida particularmente na faixa de abertura, “Xtal” (parte do álbum foi originalmente masterizado a partir de cassetes que Richard costumava tocar para amigos em passeios de automóvel pelas estradas da sua cidade natal) não retira beleza nem qualidade à música, uma mistura onírica das batidas de dança e baixos voluptuosos do acid techno em voga no início dos 90s com as texturas etéreas e melodias inocentes e frágeis do ambient de Eno, que deu origem ao termo ambient techno e o ajudou a pôr no mapa da electrónica britânica e da música mundial.

 


https://youtu.be/H5eRyZPNj1w



Seguiu-se Selected Ambient Works Volume II, em 1994, uma obra radicalmente diferente da estreia, e não tão bem recebida. Completamente desprovida de batidas (e parca em melodias), é feita exclusivamente de texturas e sensações (segundo o próprio, influenciadas por sonhos lúcidos e sinestesia), que alternam entre a beleza bucólica e tranquila de Eno e o gélido e sinistro dark ambient de Lustmord. Já aqui se começava a adivinhar o desejo de Richard desafiar os seus ouvintes, exigindo-lhes paciência, atenção e mente aberta à sua visão musical. Estávamos na presença de um vanguardista. No entanto, ofereceu-nos dois monumentos da música ambiente: “Stone in Focus” e “Rhubarb”, que poderiam perfeitamente pertencer a Apollo: Atmospheres and Soundtracks.

 




Classics, lançado no mesmo ano – compilação dos seus EPs de início de carreira Xylem Tube e Digeridoo – é sem dúvida a sua obra mais difícil de escutar – longe das melodias agradáveis de SAW 85-92. É o trabalho mais ácido, mais industrial, mais hardcore, mais violento, mais áspero. Esta é música que transcende a pista de dança. “Digeridoo”, composta para afugentar o público no final de uma rave, começa com um drone cavernoso (curiosamente, não é um sample) ao qual se junta uma batida violentíssima e incessante. Juntamente com “Isoprophlex”, ocupam o seu lugar ao lado de “Ventolin” como clássicos do acid house e do hardcore techno. E “Polynomial-C” é puro trance.

 




Acerca desta compilação, Louis Pattison, nas liner notes, diz-nos:

“Such aural obscenities are a necessary evil. ‘Classics’ demonstrates that when you’re dealing with someone as contrary as Aphex Twin, there’s proof in the adage that genius is pain.”

…I Care Because You Do, de 1995, é uma obra ecléctica e surpreendente, que nos deu dois momentos memoráveis da electrónica contemporânea: “Icct Hedral”, um duelo de loops sinistros de violino e flauta sintetizados, que mais tarde viria a ser expandido por Philip Glass (!) numa versão orquestral primorosa, e “Ventolin”, dos sons mais abrasivos que já se ouviram em IDM. Esta é provavelmente, a par de “Digeridoo”, a batida mais áspera que já compôs, assemelhando-se ao som de um tremor de terra acompanhado de metal a ranger. E até namora com o hip hop em “Cow Cud Is A Twin” e o chill-out em “Alberto Balsam”. E começa uma relação de amor com a música clássica, em músicas como “The Waxen Pith” e “Next Heap With” (com os seus violinos e sopros orquestrais quase wagnerianos), elo que se viria a cimentar e reforçar no seu álbum seguinte e em Drukqs.

 



Richard D. James Album, de 1996, o mais experimental de todos os seus álbuns de estúdio, e bem mais luminoso e agradável que o seu sombrio antecessor, continua o seu fascínio pelas melodias ambient mais delicadas e infantis (como as que colorem “4” e “Fingerbib”) que marcaram a sua estreia e mistura-os com os ritmos velozes do jungle e do drum’n’bass, inspirado pelos seus colegas Luke Vibert e Squarepusher. Também é aqui que se começam a ouvir as famosas samples de vozes alteradas que usaria mais tarde em Come to Daddy ou Syro, como em “To Cure A Weakling Child” ou “Milkman” (neste caso é mesmo Richard que ouvimos). O seu amor às cordas (para este álbum comprou um violino numa venda de garagem) e à música clássica continua presente em “Girl/Boy Song”, o mais próximo de uma canção de amor que já esteve.

 


https://youtu.be/TMD3nUd_CtE


O sucesso mainstream chegou depois, com Come to Daddy (1997) e Windowlicker (1999), dois EPs que o fizeram chegar às massas graças às suas duas faixas homónimas e os seus respectivos vídeos, fruto de uma colaboração com Chris Cunningham, artista visual vanguardista com uma mente tão distorcida quanto a dele.

A primeira, uma das músicas mais violentas que já compôs (e também uma das suas mais conhecidas), foi concebida como uma mera sátira ao death metal em tom de brincadeira que acabou por lhe fugir das mãos e adquirir uma popularidade avassaladora: um tremor de terra de ásperos ritmos industriais em velocidade agressiva drill’n’bass, com gritos demoníacos que nos fazem temer pela vida (“I want your soul, I will eat your soul”).

O vídeo, no mesmo tom de sátira obscena e desmedida, inclui imagens de uma idosa a passear, numa zona industrial abandonada, o seu cão, que urina em cima de um televisor, acordando um gang de crianças demoníacas possuídas pelo rosto deformado de Aphex Twin, que as incita a uma orgia de terror e vandalismo.

 



No mesmo EP, logo a seguir, vem “Flim”, uma combinação dos seus polirritmos mais complexos com uma melodia alegre, bonita, inocente e infantil, prova do seu omnipresente ecletismo.

 



O segundo, uma extensão do seu homólogo satírico, entra desta vez no território kitsch do lounge, com batidas melosas e gemidos manipulados, naquele que é o único momento flagrantemente pornográfico da sua discografia.

O vídeo, uma sátira ao gangsta rap americano comercial, mostra-nos um par de thugs a abordar duas mulheres à beira de uma estrada em Los Angeles antes de serem atropelados por uma limousine gigantesca de onde sai um galã que as encanta e deforma com o seu rosto grotesco.

 



E tal como o seu antecessor, contém um momento diferente, “Nannou”, de melodias pueris de caixa de música, dedicado à sua namorada.

 



Sempre avesso a rótulos, como o de Intelligent Dance Music (“it’s basically saying, this is intelligent and everything else is stupid, it’s really nasty to everyone else’s music“), desde cedo navegou entre os mundos díspares do ambient e do drum’n’bass.

Em nenhuma obra essa dicotomia, esse ecletismo, foram mais patentes que em Drukqs, de 2001, uma combinação experimental de delicadíssimas melodias de piano preparado e caixa de música (que evocavam mais Satie que Eno) misturadas no meio de faixas hardcore de drill’n’bass, sobre a qual John Bush do AllMusic Guide disse “sounds less like a major new statement from electronica’s best producer than the results of a Sunday afternoon’s trawl through his hard drive for files he hasn’t released before”.

A seguir a isso editou Analord, série de EPs cujo nome cumpriu a dupla função de homenagear a célebre Roland, fabricante de muito do equipamento analógico que usou para produzir estas faixas de acid techno gravadas entre 2003 e 2005, e mais tarde compiladas em Chosen Lords, incluindo a famosa 808, bem como a de o apelidar de “lord do analógico”.

 




Syro, de 2014, foi um feliz regresso à forma, após um hiato de 13 anos (durante o qual se mudou para a Escócia rural onde construiu o seu próprio estúdio), numa amálgama considerada pelo próprio como tendo a sua sonoridade mais pop e menos experimental: tem os mesmos polirritmos frenéticos e saltitantes de sempre (desde o disco ao drum’n’bass), as mesmas melodias dançáveis e viciantes de sintetizador, que parecem uma continuação da série Analord, e as vozes alteradas em tom jocoso. E acaba num retorno a Druqks, com uma lindíssima peça de piano preparado à Satie com sons ambiente de pássaros em fundo bucólico (“aisatsana [102])”.

 




Regresso que lhe valeu o Grammy de melhor álbum de electrónica, num dos momentos mais bizarros da história da cerimónia: depois de ouvirmos o seu nome mal pronunciado por uma apresentadora sem a mais pequena ideia de quem ele era, somos confrontados com a ausência do artista, que escolheu não aceitar o prémio em pessoa, enviando antes uma voz sintetizada para o efeito, que se fez ouvir entre aplausos confusos de uma multidão que provavelmente nunca tinha ouvido falar nele.

A isto seguiu-se, em 2015, o experimentalismo de Computer Controlled Acoustic Instruments Pt.2, o seu penúltimo EP, irmão siamês de Drukqs, embora mais breve e acessível: uma série de esboços e peças curtas misturando breakbeats metálicos de sabor a hip hop com notas dissonantes de cordas ligeiramente desafinadas de piano preparado e sons de relógios de cuco.

 



O seu último lançamento, o EP de sete faixas Cheetah, do ano passado, mostra-nos um curioso regresso ao lado mais simples da sua música, que evoca mais Expert Knob Twiddlers ou as suas contribuições à série Artificial Intelligence que o seu drill’n’bass de outrora. Batidas electro mais lentas e dançáveis, melodias suaves e doces que nos derretem os ouvidos e efeitos espaciais, numa sonoridade decididamente retro, que aponta ao disco dos 80s. O vídeo do single “CIRKLON3 [ Колхозная mix ]”, realizado por um jovem autista irlandês de 12 anos, que nos mostra crianças a dançar ao som da sua música envergando a sua roupa e o seu rosto sobreposto em cima delas, mostra-nos que Richard ainda mantém o mesmo sentido de humor e sensibilidade visual dos tempos de “Donkey Rhubarb” e “Come To Daddy“.

 



Além disto tudo, lançou uma miríade de discos sob uma pletora de pseudónimos, desde o disco-funk humorístico e kitsch de Expert Knob Twiddlers ou o techno espacial de Surfing on Sine Waves enquanto Polygon Window.

De resto, a sua obra é uma conjunto de dicotomias, como a de qualquer grande artista, na qual o belo e o feio, o sublime e o foleiro, o terror e a comédia, o assustador e o irrisório, o rebuscado e o imediato, convivem lado a lado.

Ouvir a música de Aphex Twin é ser levado numa viagem pelos vários planetas da música electrónica, desde o electro e o house mais dançáveis ao drill’n’bass mais violento e experimental e até ao ambient mais onírico, ou até mesmo ao mundo colorido dos videojogos de antanho.

Numa discografia vasta que entrou nos campos do house, acid, industrial, jungle, techno, ambient, trance, experimental e neo-clássico, não houve um género que Richard não tivesse experimentado, e talvez por isso tenha sido apelidado de “versão electrónica de Jimi Hendrix” por Renaat Vandepapeliere, co-fundador da R&S.

De facto, esse ecletismo assume contornos tão extremos que por vezes as músicas são feitas quase exclusivamente à base de ritmos (que podem ser baixos e cavernosos ou metálicos e estridentes, velozes e infrenes ou lentos e suaves), como em “Bucephalus Bouncing Ball” ou “Ventolin”, ou apenas texturas ambientais, como “I” ou “Rhubarb”.

A verdade é que Richard é tão conhecido por “Flim” ou “Avril 14th” como por “Come to Daddy” e “Windowlicker”. Acima de tudo, Richard parece empenhado em brincar com sons, e enquanto o faz, brincar com os nossos ouvidos. Como se se estivesse a agarrar ao sentimento tão humano e adulto de nunca querer deixar de ser criança.

Figura mais ou menos envolta em secretismo, ou pelo menos reservada, sempre esteve mais preocupado com a sua música do que aquilo que se disse ou escreveu sobre ela. Afinal foi ele que disse “electronic music was made to be listened to, not talked about”.

E se a música de Richard é idiossincrática (e abstracta, o que é manifesto nos nomes das suas músicas, que parecem ter sido aleatoriamente inventados por máquinas), o mesmo sucede com a imagética que a acompanha: bizarra, sinistra e quase a raiar o demoníaco, é conhecido por sobrepor o seu rosto deformado e sorriso rasgado em todos os que são vistos nos seus vídeos, desde as mulheres de “Windowlicker” às crianças de “Come To Daddy“, e recentemente incorporou esta estética nos seus espectáculos ao vivo.

O que podemos esperar dos próximos tempos? Depois do seu último EP e da torrente de faixas que lançou via SoundCloud, temos agora, a partir do passado dia 5, no seu site oficial, um misterioso e minimalista relógio digital em contagem decrescente para as 17 horas do dia 6 de Julho. Para quê? Um novo álbum, um novo evento ao vivo?

E o que podemos esperar do concerto de amanhã, que vai fechar o Primavera Sound deste ano? Será mais ou menos dançável? Não interessa. A julgar pelo que vimos no seu último set em Londres, no Field Day, um monstro gigantesco, extasiante e intoxicante de acid, jungle e techno feito de ritmos infrenes e agrestes a martelar os nossos ouvidos, ruídos abstractos, strobes incandescentes, lasers verdes, e a habitual projecção megalómana do seu logótipo e do seu icónico rosto deformado e grotesco em inúmeros ecrãs (bem como nos rostos do próprio público). Será, certamente, um evento para contar aos nossos filhos, que terá tanto de memorável e belo como de intenso e assustador, e tanto de imediato e acessível como estranho e experimental, pronto para nos tirar das nossas zonas de conforto, sacudir-nos vigorosamente, e devolver-nos à paz dos nossos dias visivelmente alterados. Como só a música de Aphex Twin nos pode oferecer.

A Mixmag descreveu-nos assim o evento:

Completely unpredictable, utterly insane at points and a whole lot of fun, every Aphex Twin fan’s dream was realised. We’d got to see one of the greatest electronic musicians of all time, perform in a way we knew he would. He fucked with us, we wanted him to fuck with us and we’re glad he fucked with us.

Que podemos pedir mais?

 


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