Saiu malandro, malandrinho, o novo gesto dos Ão, essa banda para nós ainda misteriosa que, mesmo sediada na Bélgica, escreve e canta como se sempre tivesse habitado entre nós. São os mistérios da circulação e das heranças recriadas, provavelmente — mas também a consciência de que uma verdadeira entrega emocional às canções prescinde de qualquer entreposto fronteiriço. Quando a verdade se sente no som, na voz e na intenção, todas as geografias se confundem, como é o caso do novo trabalho assinado por Brenda Corijn, Siebe Chau, Jolan Decaestecker e Bert Peyffers.
De início ao fim, Malandra, o novo álbum que sucede a Ao Mar (2023), propõe um mergulho sonoro e poético sobre o que significa estar vivo e sentir num tempo que, para lembrar um verso de Natália Correia, parece crescentemente povoado de personagens do assombro. Se há algo poderoso neste disco é a sua capacidade de fazer as canções falarem com verdade, num constante jogo de espelhos emocionais onde se decide partilhar o que fascina tanto quanto aquilo que assusta. E é dessa exposição que nascem as brechas de luz que permitem continuar o caminho.
“Me Condena”, logo a abrir, entrega-nos limpidez e dramatismo: percussões firmes, arranjo eletrónico depurado, a voz colocada ao centro da cena. Percebe-se desde cedo que o assunto é sério e que este não será mais um disco para consumo plástico no infindável supermercado dos signos. “Aproveita a hora de falar”, canta Brenda Corijn — como quem se oferece à escuta e ao julgamento. Confissão por confissão, que se invertam depois os papéis.
Se no começo há confissão, logo depois há orgulho, o primeiro ponto de redenção. Em “Orgulho”, uma melancolia estranhamente esperançosa — originalmente nascida numa gravação voice de Brenda — cola-se a uma gravação anterior de guitarra de Siebe Chau. O encaixe, não previsto, alimenta um ritmo balançado onde, então, emerge o mundo: uma mãe que não sente ciúme, mas orgulho no caminho livre da filha; um convite à comunhão de “casa cheia / sempre a música a tocar”; uma proposta de suspensão do tempo: “entra/ a mesa tá pronta, entra lá / não deixe a quentura escapar / família, amizades, todos juntos a contar estórias do passado / oxalá continua”. Tempo onde a força do vínculo, que fixa a presença a partir da qual se lembram memórias, convive com a consciência da finitude — “tá vindo o tempo, a morte vem / atrás de todos” — que não paralisa, antes fortalece o orgulho nas existências partilhadas.
É a fragilidade do tempo vivo, no que ele tem de finito, e por isso de poderoso, que os Ão sabem captar com uma sensibilidade comovente. Há neste disco uma consciência aguda de tudo o que passa — os vínculos, os corpos, as estações, as casas e memórias onde regressamos — e é precisamente essa condição transitória que intensifica cada gesto. Não se trata, por isso, de uma melancolia paralisante, mas de uma ética da atenção: sentir porque acaba; amar porque pode falhar; cantar porque se vive.
Em “Talvez”, entra em cena um verão quase tropical, onde a guitarra — próxima do ronroco andino? — pulsa como se sorrisse perante a ideia da fuga, ainda que o escapismo arraste também as suas próprias sombras. Há aqui algo que os liga aos jogos cénico-emocionais de Stromae e que se pode colocar em diálogo com a forma como Branko constrói o beat como um mapa de deslocações, escalas e reencontros. Mas há neste quarteto um protagonismo poético próprio que nem é só multitude, nem apenas uma soma. Em “Cinza” percebemo-lo em contraste: a relativa leveza cede lugar a uma tonalidade noturna e a manipulação vocal reforça o dramatismo de um poema tão confessional quanto confrontacional: “e nós / onde / onde está a nossa voz?” Como continuar a conversa perante o “barulho incrível” de um “montão de passarinhos voando na cinza”? Como falar entre “ruínas”, perante “os gritos / a briga / a luta / a ajuda / a força”? Num mundo de escuridão, como existir quando as cinzas se tornam “ondas do céu”?
A voz de Brenda é o veículo dessa viagem de dentro para fora, e de fora para dentro, transportando metáforas, sinestesias e deslocações de sentido que ampliam a paisagem emocional das canções. Em “Are You Tired”, vincula-nos a uma dança dramática que enfrenta o cansaço sem o negar. Será que, voltando a Stromae ou trazendo Batida à colação, perante os becos sem saída o mais urgente é continuar a dançar? Parece ser também essa a interrogação dos Ão, no modo como a música vai cedendo no ritmo ao mesmo tempo que joga com a sua desconstrução, interrogando-nos. Em “Acorda”, essa ideia radicaliza-se ao propor uma dança contra “esta maneira de viver”; uma proposta de acordar para estar vivo, e não continuar a viver adormecido.
Romper o adormecimento é talvez também a proposta de “Sorte”, onde a serenidade da voz de Brenda oferece as condições para imaginar essa mulher que existe apesar do mundo que parece esquecê-la, e que ainda murmura, quase em segredo, a hipótese de virar o destino: “eu viro a sorte, estou quase”. Já em “Malandra”, a faixa-título, explora-se o jogo de auto e heteroidentificações: “a Brenda não brinca bem”, é “má influência”, “batoteira”, “não lhe confia”. Mas quem se diverte mais neste jogo de espelhos? A malandra brilha, afinal, “tão intensa, sem remorso”, fora da sombra do ambiente, completamente alinhada, vibrante, entregue aos abismos do coração. O rótulo devolve-se como afirmação. Em Malandra, há muito mais do que melancolia.
As múltiplas paisagens emocionais do disco só são possíveis pela intenção vocal de Brenda — celestial e profunda em alguns momentos, à flor da pele e simultaneamente irónica noutros — mas também pela força dos textos, que falam de emoções sem cair na literariedade desapaixonada de certa pop contemporânea. O português de Brenda não é o da norma escolar, mas o da fala vivida, com a sua musicalidade própria, marcada por deslocações, viagens e encontros. É uma língua cheia de vida dentro.
E depois há a banda. Uma banda capaz de trabalhar orquestrações que tanto fazem da canção uma peça depurada como a expandem em múltiplas camadas. Construção e desconstrução surgem sempre ao serviço da intenção poética, num jogo constante entre forma e conteúdo. O universo sonoro de Malandra funde géneros, imagens e histórias, mantendo sempre a coerência estética. Há pop e milonga, canto de ressonância fadista e desconstrução eletrónica, harmonia melancólica e confronto sintético. Usam-se instrumentos tradicionais e manipulação eletrónica, objetos transformados em percussão — um molho de chaves, uma caixa de chupa-chupas convertida em bombo. O charango e o bandoneón convivem com sintetizadores futuristas; cordas tradicionais cruzam-se com texturas digitais de vanguarda.
O hibridismo que daqui nasce não é, contudo, um ornamento exótico, mas uma necessidade expressiva num disco que procura equilibrar a confissão e a redenção, assombro e ternura, vontade de fuga e confronto com o regresso, cansaço e hedonismo, consciência da finitude e celebração romântica da efemeridade da vida, as memórias e o porvir. “Para onde vou?”, pergunta a canção com o mesmo nome. Não sabemos o destino desta Malandra. Mas sabemos que há discos que nos lembram que sentir continua a ser um gesto radical. E este é um deles. Que alguém os traga a Portugal – urgentemente.