Ângela Polícia sobre “Flex!”: “Representa a vida de sacrifício, de correria e de stress”

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTO] Direitos Reservados

Acaba de ser disponibilizado “Flex!”, o primeiro single do segundo trabalho de originais de Ângela Polícia. A faixa conta com a produção de Pesca e o videoclipe foi realizado pela Outros Ângulos em colaboração com o artista minhoto.

2017 foi um ano importante para Fernando Fernandes, que viu o seu projecto musical a solo ser apadrinhado por Razat, pilar da cena bass em Portugal, na altura ao leme da Crate Records. Com uma atitude que tem tanto de punk quanto de hip hop, Pruridades foi uma entrada em cena que deixou marcas, um daqueles discos meticulosamente limados e preparados para resistir ao avançar dos tempos. E esteve em destaque no Rimas e Batidas na altura dos balanços finais, sagrando-se um dos trabalhos mais importantes desse mesmo ano.

Depois de revisitar o seu álbum de estreia nos meses que se seguiram com a edição de alguns videoclipes, o multifacetado músico de Braga dedicou-se a outros projectos. Fernando Fernandes é também vocalista das bandas Bed Legs e OSSO e despe-se de preconceitos em outra iniciativa a solo enquanto O Amante Negro. Na pele de Ângela Polícia foi através de colaborações com Gabe ou Beiro que continuámos a ouvir as suas rimas.

Apùtece-me! é o título do álbum que Ângela Polícia irá lançar no mês de Junho — e “Flex!” é o primeiro avanço. O Rimas e Batidas falou com Fernando Fernandes sobre esta inédita colaboração com Pesca, amigo e ex-colega de turma, e daquilo que podemos esperar do seu segundo LP a solo.



O que representa para ti este “Flex!” em plena Babilónia?

Este “Flex!” representa a vida de sacrifício, de correria e de stress que um indivíduo tem de aguentar para garantir um estilo de vida estável na cidade. Por outras palavras, dar o litro. Neste caso, a nossa Babilónia é a grande Lisa. É aqui que se concentra a maior fatia da população. Sempre que vou a Lisboa a intensidade aumenta, as pupilas dilatam, o ritmo acelera, as línguas são diferentes, as cores, estilos e cheiros são variados, há um espectro cultural mais alargado do que em qualquer outra parte do país. O que posso observar é que aqui as oportunidades são maiores, ganhas mais dinheiro do que em qualquer outro local do país, existe mais oferta a todos os níveis, está tudo concentrado e centrado aqui mas, ao mesmo tempo, é o mesmo local onde muitos tentam e não conseguem singrar, existe muita pobreza escondida, muitas famílias em necessidade, muito indivíduo em crise. Para aguentar na Babilónia é preciso um músculo extra que, na maior parte das vezes, não é físico mas sim psicológico e motivacional. Escrevi este tema para nos lembrarmos que, no meio desta correria e delírio, temos escolha, temos poder para mudar as coisas, vê-las de outras perspectivas, enxergar o estado actual da nossa vida e ver se realmente encaixa com o que projectámos para nós e para os nossos. Mas para a mudança também é preciso dar o litro, o mesmo que damos na Babilónia ou mais. É preciso “Flex!”.

Tu e o Pesca eram dois dos protegidos do Razat na Crate Records. O que vos levou a unirem esforços neste primeiro avanço do teu próximo disco?

Conheci o Pesca nas Caldas da Rainha, fomos colegas de turma na ESAD.CR. Entrámos no mesmo ano e ele foi das primeiras pessoas interessantes que conheci na universidade. Fomos raptados por estudantes de outros anos em oposição aos leilões que fazem com os caloiros para arrecadar dinheiro para a associação de estudantes. Nesse dia, apanhámos uma grande “buba”, falámos muito e ficámos grandes amigos, mesmo antes de eu conhecer o Razat, penso. A nossa relação uniu-se muito pela nossa paixão pela música. Depois conhecemos o Razat, descobrimos que ele produzia beats e música electrónica e começámos a parar na casa dele. Ele instalou-nos o programa que utilizava e desde aí não parámos de fazer beats. O Pesca teve uma evolução muito rápida, estava sempre a fazer beats em casa. Eu dividia-me entre bandas, fazer beats em casa, escrever letras e cantar, mas não parei. Eu, o Pesca e o Razat ainda chegámos a ter um projecto de dub progressivo, os I’n’High Soundsystem, e isso uniu-nos mais na produção e na amizade. Somos eternos amantes de bass music e isso reflecte-se nesta colaboração. Depois de sairmos da universidade, mantivemos a amizade e a partilha de trabalho. O Razat formou a Crate, o Pesca continuou a produzir beats para si e para outra malta, como o L-ALI, e eu aprofundei-me mais na produção musical. À distância, enviámos temas um ao outro e o resultado estará presente no meu segundo álbum.

Que detalhes nos podes revelar sobre o novo trabalho de Ângela Polícia? Já escolheste um título e uma data para o lançamento? Com quem tens colaborado para dar vida aos teus novos temas?

O álbum sairá no próximo mês e vai chamar-se Apùtece-me!. Neste novo trabalho existem colaborações de vários artistas e músicos. Entre eles estão: Razat, Pesca, Cachupa Psicadélica, MOCA, Beiro, Thiago Arit, Rui Rodrigues, André Pepe, Emanuel Fernandes, Jorge de Carvalho, Sara Maui, Suzanne Zwaap e Leonor Coutinho. Decidi subir um patamar em termos de produção e quis experimentar os meus sons com banda, torná-lo um híbrido. Para isso tive de chamar um grande amigo e produtor, o Lucas Palmeira, para me ajudar a nível de captação, acústica e, posteriormente, mistura e masterização. Chamei os meus amigos ao meu estúdio e gravei-os a todos. Foi exigente mas gratificante. Com o Thiago Arit, trabalhámos à distância, mas foi muito fluído, sem grandes mudanças. Ele escreveu a letra no mesmo dia ou no dia a seguir e eu adorei imediatamente o que ele fez e vice-versa.

Sei que já tens levado o projecto para cima de alguns palcos. Como tem sido a recepção do disco ao vivo com banda?

Sim, tenho tocado o álbum novo ao vivo sem o público ter qualquer referência destes temas e tem sido espectacular. Toquei no Festival Impulso, neste fim-de-semana que passou, e a malta pediu-me para tocar mais — só tinha tocado um tema antigo, o “Quarto pt.1”. Parto do princípio que gostaram da vibe e das letras dos temas novos, mas sou suspeito.


Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
Gonçalo Oliveira