Anderson .Paak // Ventura

[TEXTO] Miguel Santos 

A distância que separa Oxnard de Ventura é maior do que parece, pelo menos assim o demonstra Anderson .Paak. Apesar de ser curto o trajecto entre estas duas cidades californianas — à semelhança do tempo que o artista norte-americano deixou os fãs à espera da sequela do seu estrepitoso projecto lançado o ano passado — não é isso que o artista nascido Brandon Paak Anderson mostra com o seu novo álbum Ventura. Pelo meio do percurso solarengo que separa a cidade nativa de .Paak dessa vizinha próxima, o produtor, rapper e cantor faz uma viagem no espaço e no tempo ao som de músicas inspiradas pela golden era da música Motown, da soul e sem esquecer a ginga do funk, cruzando-as com o seu som já conhecido.

Em Ventura vemos um lado de .Paak mais relaxado e descontraído que veste as peles e as histórias de um Romeu agridoce e adapta-o à sua realidade e às suas vivências. “Come Home” é uma excelente abertura para o disco. O coro magnânimo que se faz ouvir antes dos versos de imploração cantados com vontade por .Paak são fielmente complementados pelas barras resolutas de Andre 3000, com pérolas literárias e fonéticas debitadas a velocidades estonteantes e que imbuem este tema nostálgico do espírito fresco e actual do hip hop. Por outro lado, “Make It Better” mantém-se vintage e apela à intemporalidade da voz do nativo de Oxnard, auxiliado pela discreta participação de Smokey Robinson, um dos grandes da era que .Paak procura emular.

O baixo é o instrumento rei neste projecto. Ao longo do álbum surge de formas distintas mas sempre a imprimir um groove inescapável nas músicas. Em “Winners Circle” ouve-se arrancado, confrontador, um companheiro adequado para o caso amoroso que .Paak descreve nas letras, uma mulher diferente de outras conquistas supérfluas, enquanto que em “Yada Yada” o instrumento diz-se presente de uma forma mais electrónica, marcando a narrativa que despreza perder tempo com coisas inúteis, palavras que relembram o percurso modesto de .Paak até ao estrelato em que brilha nos dias de hoje. Mas em “King James” — uma homenagem ao gigante do basquetebol Lebron James — a melodia que ouvimos é especialmente protagonista. Sob palavras de união cantadas com a resolução de um general, a linha de baixo roliça soa como o complemento ideal à atmosfera leve e convidativa criada pelos restantes instrumentos.



Em “Chosen One”, o baixo também se destaca mas o mérito desta música vai para a mudança de batidas que ouvimos a certa altura. Depois de ouvirmos uma sample de “On the Level” de Mac DeMarco e um primeiro verso muito sensual, .Paak muda a sua cadência para algo mais desafiante, menos formoso mas mais assertivo, acompanhado por uma guitarra aguda meio escondida na mistura e uma bateria mais digital, mostrando uma música com duas partes bem orquestradas. Esta conjunção entre partes diferentes é algo característico da música de .Paak mas em Ventura nem sempre é executado com mestria: “Reachin’ 2 Much” começa com uma bateria muito frenética a brilhar no meio dos sopros e cordas, mas depois da mudança de batida a música acaba por ficar estagnada. É o tema mais longo do projecto sem o justificar.

Há canções que se perdem neste projecto e beneficiariam de mais tempo de maturação e escrita musical, como “Jet Black”, símbolo de noites de Verão infinitas com um baixo de festa e uma batida simples, mas eficaz a elevar o espírito dançarino ou “Twilight” com a produção reconhecível de Pharrell Williams e uns sopros diletantes. São faixas que se ouvem bem mas que são bastante inofensivas, deixando o ouvinte sem grandes recordações a partir do momento em que deixam de soar. Já “Good Heels” faria mais sentido incluído na música que a precede, um outro do que aconteceria depois de um caso voraz e curto com a mulher que .Paak descreve em “Winners Circle”.

O álbum termina com a alegre “What Can We Do?”, onde ouvimos .Paak e Nate Dogg cantar com grande carisma, um final forte e que arranca um sorriso e algumas lágrimas de saudade daquele que foi um dos ícones do hip hop dos anos 90 e da primeira década do século XXI. É um tributo sentido e pesado num projecto predominantemente ligeiro. De Oxnard a Ventura, há um longa-duração que se ouve bem no curto percurso soalheiro que separa as duas cidades. Mas no ponto de partida ficou uma parte considerável da complexidade sonora de .Paak: Ventura é mais uniforme do que o seu antecessor, mas também menos surpreendente.


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