Alfa Mist no Theatro Circo: novo jazz, novos ritmos e novos rostos no Respira!

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTOS] Paulo Nogueira

Sem pompa, mas com justificada circunstância, Alfa Mist apresentou-se ontem à noite no Theatro Circo, em Braga, no concerto que marcou o arranque do ciclo Respira! que esta noite prosseguirá com Rami Khalife e Lonnie Holley antes de terminar, amanhã, com as prestações de Kathryn Joseph e Lubomyr Melnyk.

Em mais de duas horas de concerto, o pianista londrino ofereceu uma explicação clara e prática, ainda que não explícita ou vocal, da razão para a crescente atenção que tem sido devotada ao novo jazz britânico: esta música é emocionalmente rica, tecnicamente avançada, ritmicamente complexa, servida por ideias melódicas de profunda beleza, mas ainda assim aparentemente desprovida de uma dimensão mais, digamos, escolástica ou académica, o que a posiciona em terrenos mais livres e francamente humanos (no sentido em que alguns dos caminhos percorridos por gigantes como Coltrane ou Monk possam ter sido sobre-humanos…).

Ainda é de jazz que falamos. Mist, que cita Robert Glasper como uma das suas maiores influências, representa, de certa forma, a segunda fase de um ciclo de décadas de relações entre dois universos co-existentes numa muito particular cultura: pode pensar-se numa geração de produtores de hip hop que nos anos 90 do século passado reclamou um pouco do jazz para dentro da sua esfera, sobretudo por via do sampling. Produtores como DJ Premier e Pete Rock e, claro, J Dilla, colectivos como Gang Starr, De La Soul, A Tribe Called Quest ou Digable Planets ou, um pouco mais tarde, os Roots, souberam aplicar na sua arte uma vida de escuta atenta e maravilhada do jazz que existia nas colecções dos seus pais e que orbitava à sua volta, na rádio e nas ruas, nos cafés e nos bares. Para o hip hop desse tempo, reclamar o jazz como parte do seu ADN foi uma questão cultural.

Imagine-se agora a Londres do arranque deste milénio onde cresceram Alfa Mist e todos os outros correntes protagonistas da cena jazz. A situação é quase perfeitamente inversa: estes músicos, vindos de escolas públicas, moldados por instituições paralelas de ensino mais ou menos informais como os Tomorrow’s Warriors, frutos de uma rede complexa de espaços de concertos, estúdios, pequenas editoras, cresceram a absorver os omnipresentes sons do hip hop e do grime, do drum’n’bass e do UK Garage, sons inescapáveis e que por isso mesmo foram incluindo na sua própria música.

Se há 25 anos, o hip hop abraçou o jazz, hoje é o jazz que não tem pejo algum em acolher o hip hop no seu seio. E Alfa Mist é um caso notório nessa “contaminação inversa” de que aqui se fala. O seu incrível baterista, Jamie Houghton, soava ontem como uma MPC que, como Dilla nos ensinou, pode também debitar ritmos não quantizados: preciso, mas livre, sincopado, mas pouco interessado na repetição, Houghton foi o pilar que garantiu o pulso à incrível música com que Mist nos presenteou, resgatada directamente a Antiphon, o seu revelador álbum de estreia, e também a Structuralism, o novíssimo álbum a que acabámos de dar atenção aqui no Rimas e Batidas e que o pianista apresentou sem qualquer espécie de alarido — “acabou de sair, está aí disponível nas redes”. Está sim senhor, pena não ter estado igualmente disponível em formato físico para venda ontem, após o concerto…



Além de Houghton, na bateria, Alfa teve ontem ao seu lado a maravilhosa e ultra discreta Kaya Thomas Dyke no baixo eléctrico, e (e agora terão que ter alguma paciência para a profusão de adjectivos, mas foi mesmo para isto que eles foram inventados…), o espantoso Jamie Leeming na guitarra eléctrica e Johnny Woodham no trompete e fliscorne, músicos que participam igualmente nos dois álbuns já lançados por Alfa Mist. Todos tecnicamente sólidos, inventivos nas abordagens aos respectivos instrumentos, sobretudo Leeming, que parece ancorar o seu guitarrismo numa tensão entre a liberdade de formas e as vénias à tradição, quase parecendo tocar como Pollock pintava, em abstractos e expressivos gestos amplos, nunca cedendo à tentação de construir um “discurso narrativo” melódico e harmónico que pudesse soar mais, digamos, “figurativo”; e Woodham, músico obviamente marcado por Miles (o que é inevitável para quem tente hoje deixar uma impressão no jazz abraçando o trompete), mas que modula o seu som com um expressivo conjunto de efeitos, quase nos fazendo crer por vezes que é um sintetizador e não um convencional instrumento de sopro, o que estamos a ouvir.

Uma palavra especial para Kaya, a quem Alfa Mist também dedicou algumas palavras sentidas, ressalvando o seu generoso talento, não apenas no baixo, mas também no microfone e nas telas, pincéis e tintas: “as capas dos meus discos foram pintadas por ela”, fez questão de sublinhar o pianista. Kaya é uma baixista discreta, mas seguríssima, que no único solo que assinou deixou claro que tem uma técnica avançada, muito melódica e complexa, mas capaz igualmente de soar esparsa e contida, embora sempre assertiva. E nos dois temas a que deu voz — “Breathe” de Antiphon e o belíssimo “Falling” do novo Structuralism —, Kaya demonstrou que é igualmente uma vocalista competente que, sem quaisquer tipos de adornos “over the top”, se serve inteligentemente de uma voz de timbre singular, ultra-expressiva.

Finalmente Alfa Mist: o pianista autodidacta aprendeu de facto a tocar o seu instrumento ao mesmo tempo que muito provavelmente vivia rodeado dos sons debitados sobre a zona de Newham, onde nasceu e onde ainda vive, pelas antenas das piratas montadas nas torres do Sul e do Leste de Londres. O seu pianismo não é expansivo, mas nas melancólicas frases que debita tanto no teclado acústico como no eléctrico há muito lirismo, muita expressividade, muitas ideias e “mensagens” até. Mist é, claramente, alguém que escolheu falar ao mundo sobretudo através da música e as suas composições são retratos da sua vida. Como “Jjajja’s Screen”, tema que, explicou, “tem uma palavra muito estranha, com quatro jotas, que significa avó. A minha avó veio do Uganda e quando eu era pequeno eu não sabia uma palavra da língua que ela falava e ela não falava inglês e por isso nunca chegámos a conhecer-nos, algo de estranho já que éramos tão chegados. Escrevi esta canção para ela”. E a “canção”, sem palavras algumas, começou com uma longa e abstracta exposição na guitarra de Leeming, maravilhoso ainda que difuso retrato a que depois o baterista acrescentou uma síncope hip hop que ancorou o tema numa memória específica: essa era, provavelmente, a música que servia de banda sonora ao fosso que Mist sentiria existir entre si e a sua avó quando estava a crescer. Um fosso linguístico, cultural, geracional. Um fosso que, naturalmente, muitos destes músicos hão-de sentir entre si e a ideia de jazz tradicional.

E por falar em hip hop e em Dilla: Jamie Houghton assinou dois ou três memoráveis solos e num deles soou como alguém que pudesse estar a demonstrar os sons contidos na memória de um sampler, quase mostrando num par de minutos a história da pulsação rítmica da cidade de Londres nos últimos 20 ou 30 anos, com laivos de house, drum n’bass, hip hop e grime a guiarem-lhe braços e pés, nunca chegando no entanto a deter-se o suficiente em cada ritmo para que pudéssemos abanar a cabeça em sintonia. Impressionante, sem dúvida.

Temas como “.44” ou “Retainer”, igualmente do mais recente álbum, marcaram também o alinhamento do brilhante concerto de Alfa Mist, que regressou para dois encores ao palco após uma ovação de pé de uma sala muito bem composta de um público heterogéneo. Encaixando-se na “tradição jazz”, parte deste público fez ainda questão de aplaudir cada solo, quase surpreendendo os músicos que no circuito a que estão habituados — em Londres tocam frequentemente em pequenos clubes para gente em pé que só faz barulho no final… — não são saudados dessa maneira. Extraordinária no entanto a imagem daquela formação ontem em palco, que aponta muito mais ao futuro do que a essa tradição jazz passada: muito jovens — alguns dos rostos, como o do guitarrista ou baterista, aparentam ter acabado de sair da adolescência… — aqueles músicos são brancos e negros, homens e mulheres e simbolizam uma nova realidade. Um novo som. Escusamos de os aplaudir como antigamente… ainda que, importante mesmo, seja aplaudi-los de qualquer maneira. E a isso, ontem no Theatro Circo, ninguém se negou.


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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