Alfa Mist // Structuralism

[TEXTO] Rui Miguel Abreu 

Correndo o risco de ler no título do novo álbum de Alfa Mist, Structuralism, uma ideia que pode não corresponder à verdadeira intenção do jovem pianista britânico, parece difícil compreender este registo sem o enquadrar numa mais ampla estrutura musical ancorada no presente, com ligações à história, certamente, mas sem dúvida apoiada num específico zeitgeist que emana de Londres, sobretudo, e se vai tranquilamente espalhando pelo mundo.

Esta renovada vontade do jazz comunicar com o espírito e com o corpo (importante esta última parte…) de uma geração muito mais interessada em navegar entre géneros do que em observar linguagens envoltas em redomas protectoras tem-se traduzido numa muito particular vibração que se adivinha numa cena que se estende de músicos como Shabaka Hutchings e Theon Cross a colectivos como Ezra Collective ou Ill Considered, de editoras como a Jazz Re:Freshed e 22a ou Brownswood Recordings a espaços como o Total Refreshment Centre. Num evento recente, a instituição Barbican e o Boiler Room apresentaram uma homenagem ao Total Refreshment Centre que reuniu vários músicos numa espécie de “live mixtape” que recebeu o revelador título Dreaming The City. A ideia de “sonhar a cidade” é, aliás, explorada no novíssimo livro da jornalista Emma Warren que nos conta a história do Total Refreshment Centre, um espaço tomado pela comunidade em que a cultura das Caraíbas sustentou o desenvolvimento de uma cena orgânica, em Hackney, que serviu de laboratório a uma série de músicos que, vindos das margens, ousaram projectar uma nova atitude e um novo som, efectivamente sonhando a cidade que desejavam ter, por oposição à cidade real em que todos vivem de olhos bem abertos. E provavelmente de ouvidos mais fechados.

Alfa Mist, que em Structuralism sucede a Antiphon, trabalho lançado no Verão de 2017, prossegue na sua missão de enquadrar a música que cria numa experiência pessoal muito específica. Se no álbum de estreia eram as conversas com os seus dois irmãos em torno de questões ligadas ao foro da saúde mental e às íntimas relações familiares que serviam de ponto de partida para algumas das suas composições, agora, em Structuralism, são os debates com a sua irmã em torno da ideia de cultura e crescimento pessoal que sugerem pontos de partida para as suas derivas. Logo a abrir, em “.44”, é a voz da irmã de Alfa Mist que se ouve, confessando ela, muito provavelmente olhando o seu irmão nos olhos, que a proximidade familiar não escusa ninguém de um trabalho contínuo de conhecimento: “é injusto pensar que já te descodifiquei”. A ideia de que uma pessoa é, afinal de contas, o resultado de um complexo sistema de relações, de pensamentos, de afectos e de experiências sustenta uma ultra íntima viagem para que não nos são reveladas grandes coordenadas (títulos como “Retainer” ou “Door” não oferecem pistas muito claras…), repousando sobre a música toda a “responsabilidade” de nos elucidar sobre o espírito e as emoções do seu autor. Melancolia parece ser aqui a mais nítida constante.

Há, ainda assim, algumas palavras em Structuralism. “Falling” conta com a participação de Kaya Thomas-Dyke que assim repete a dose de mel vocal com que já tinha empregnado “Breathe” em Antiphon (álbum a que também deu o seu contributo como baixista). O romantismo do tema espelha a delicadeza que atravessa todo o álbum, vincando o pendor de melodista de Alfa Mist que, apesar do nome artístico que poderia remeter para uma aura mais cósmica ou mística, parece ser um artista de pés bem fincados na terra, embora com uma óbvia e profunda dimensão espiritual. Em “Glad I Lived” é o próprio Alfa Mist que assume o microfone num confessional tom spoken word em que admite que tentou reter algumas memórias, mesmo que isso tenha implicado ter perdido muitas mais… Jordan Rakei também repete a participação que já tinha registado em Antiphon para mais uma tempestade tranquila de melodias nocturnas e agridoces que Alfa Mist sustenta com uma moldura orquestral densa.



“Fui marcado pelo meu ambiente. A minha educação moldou-me de tal maneira que eu não sei como comunicar. Structuralism”, explicava o próprio Alfa Mist quando apresentou “Retainer” como avanço do novo álbum, “é acerca de ‘eu sou quem sou’ por causa da estrutura da sociedade dentro da qual cresci. E agora preciso de aprender a comunicar”.

Ainda que isso possa não acontecer de forma clara no plano verbal, é óbvio que Alfa Mist sabe comunicar, com as suas composições, antes de mais, profundamente melódicas, com os arranjos, logo depois, ricos em termos harmónicos e texturais, com cordas e sopros – trompete, saxofone ou trombone solam nos seus temas –, com molduras electrónicas e marcações rítmicas vincadas que são reveladoras de um passado provavelmente marcado pelo isolamento que um par de auscultadores podem sempre proporcionar, mesmo no meio de uma multidão. E, claro, Mist comunica igualmente através do seu pianismo profundamente lírico e melancólico, tanto no teclado eléctrico como no acústico: o nativo de Newham é um músico sólido que pode não possuir uma linguagem inovadora, nascida de alguma vontade de ruptura, mas que no seu classicismo aparente não deixa de esconder uma cadência circular que parece ser herdada dos seus profundos estudos das dinâmicas hip hop ou grime. O facto de ser um pianista autodidacta ajuda a explicar os contornos da sua linguagem no instrumento, mas a componente instintiva que a sua música carrega preenche-a de uma tocante humanidade, como se a incapacidade de comunicar verbalmente o tivesse forçado a procurar outro léxico nas notas de um piano.

Sem uma cópia física nas mãos (e a cruzar os dedos para que na sua apresentação de amanhã, dia 2 de Maio, no Theatro Circo de Braga, em noite de arranque da programação Respira para 2019, possa haver uma bem recheada banda de merchandising…) e não havendo informação concreta online (nem no Discogs, nem na página oficial do álbum no Bandcamp ou sequer no press release que a editora nos fez chegar…) desconhecem-se para já os músicos que acompanham Alfa Mist, ainda que no vídeo oficial de “Retainer”, gravado como uma “live session” de dois distintos andamentos (formato retido na versão final do álbum), a ficha técnica revele os nomes de, no primeiro momento, mais eléctrico, Kaya Thomas-Dyke (no baixo), Johnny Woodham (trompete) e Peter Adam Hill (na bateria) e, na acústica segunda parte, Simmy Singh, Laura Senior, Lucy Nolan e Peggy Nolan (quarteto de cordas) e Jamie Leeming  (guitarra), James Rudi Creswick (contrabaixo) e Jamie Houghton (bateria). Isto, claro, além do próprio Mist que surge primeiro com um teclado electrónico com que emula um Fender Rhodes e depois num piano acústico. Há, claro, mais sete faixas no alinhamento de Structuralism e algumas hão-de, certamente, ter contado com outros músicos.

Uma palavra final para a arte da multi-talentosa Kaya Thomas-Dyke que é não apenas uma mais do que competente baixista eléctrica, capaz de um fraseado subtil e elegante, mas carregado de groove, dona de uma mais do que agradável voz de tom ultra-sedutor que revela estudo das melhores gravações de Sade ou Anita Baker (ainda que a sua tessitura seja muito diferente), mas também uma fantástica pintora que depois de ter assinado a capa de Antiphon repete o feito em Structuralism conseguindo evocar na difusa, mas evocativa imagem de tons nocturnos a tal ideia de um homem na cidade, provavelmente em busca de respostas para fundas questões, sozinho mas com vontade de aprender a comunicar, acordado, mas quem sabe carregado de sonhos.


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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