Ace: “A paternidade dotou-me de um olhar bastante mais profundo sobre tudo”

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [ENTREVISTA] Ricardo Farinha [FOTO] Direitos Reservados

Ace deu a conhecer “Benção” durante a semana passada, tema que conta com a realização de Sam The Kid e a participação (no refrão e nas teclas adicionais) de Macaia.

Este é o segundo tema com voz de Ace em 2019. Depois de encerrar 2018 com um “Manifesto” — faixa que, entretanto, retirou das plataformas digitais —, Nuno Carneiro chamou os seus CRU para nos oferecer uma versão diferente de “Sendo Assim”.

“Benção” faz parte do alinhamento de um disco duplo que Ace tem arquivado há cerca de um ano no seu computador, cuja edição está agora dependente de um investimento na pós-gravação, que o artista, de momento, não consegue assumir.

Ao Rimas e Batidas, o histórico rapper dos Mind da Gap falou sobre o longo projecto que mantém guardado no disco rígido, o papel de Macaia nas músicas desse projecto e o desafio que lançou a Sam The Kid.



Esta “Benção” é uma faixa solta ou vai fazer parte de algum projecto?

Gostaria que fosse parte de um álbum para o qual tenho 32 músicas gravadas há um ano já. No entanto, a realidade é que o paradigma musical se alterou — naturalmente — e, sendo realista, sou obrigado a encarar as minhas aventuras musicais no futuro como um hobby. E sendo um hobby, o investimento tem de ser racionalmente medido. A grande maioria do novo público do rap nacional não conhece Mind da Gap, muito menos o Ace, logo, tudo o que poderia justificar um investimento pessoal na minha carreira musical não se verifica. Há uma geração de artistas a trabalhar bem e estão mais próximos (em idade e não só) do público, e é natural que esses sejam os que são a banda sonora dos mais novos. Por outro lado, as editoras ou agências não têm interesse em apostar em artistas por aquilo que representam ou foram no passado, logicamente. É um jogo de números. Quando o meu jogo foi sempre o das palavras. É frustrante ter um álbum (duplo) gravado e guardado no computador, mas tudo o que são processos pós-gravação implicados no lançamento de um álbum pressupõem um investimento que não consigo assumir. Portanto, o tempo responderá a esta pergunta.

Que mensagem querias transmitir nesta música? Porquê neste momento?

A mensagem está, espero eu, bem explícita na música. E espero também ter conseguido transmiti-la. Esta letra foi inspirada pela actualidade da temática “depressão e demais patologias do foro psicológico” na música rap, e não só. O uso de drogas químicas e o suicídio também aparecem associadas a esta “conversa”. No fundo, esta música tenciona ser o outro lado desta questão. Outra perspectiva, outra atitude. A paternidade dotou-me de um olhar bastante mais profundo sobre tudo e de um respeito gigante pela vida. E é isso que tento passar: apesar do stress quotidiano, de problemas maiores ou menores, de desilusões, etc., a vida é uma benção, não é um castigo. Um dia alguém me disse que “o pessoal não está para levar com os teus sermões”. Isso afectou a minha escrita a partir daí, perdi um pouco a minha identidade, a minha caneta fugiu do rap mais consciente, o discurso mais maduro do “Padrinho filósofo” que foi a minha marca e que inspirou tanta gente — público e rappers. Fico contente por ter conseguido reencontrar-me nesta música (e nas outras 31 músicas há muito desta identidade).

Porque é que pensaste no Macaia para cantar o refrão e não optaste, por exemplo, por o cantares tu mesmo?

Não quis cantá-lo eu mesmo porque nas outras 31 músicas já devo cantar refrões em mais de metade. Se as pessoas tivessem oportunidade de as ouvir a todas, este seria o momento de descanso da minha voz no refrão [risos]. Pensei no Macaia porque tenho bastante apreço pela pessoa, em primeiro lugar. Depois porque o aprecio como cantor e porque sabia que ia encaixar aqui perfeitamente — em termos de estética sonora, de energia, de andamento. E sabia que ele se ia identificar com a letra. Combinámos um dia no estúdio Ponderosa, só para lhe mostrar a música, o que já tinha de referência no refrão e ele gostou tanto que acabou por gravar as vozes na hora. Pedi-lhe também para me ajudar com uns acordes de piano que tinha gravado de forma muito arcaica e ele, pura e simplesmente, fez magia no teclado. Tanto que acabou a tocar teclas em mais cinco ou seis músicas. Estou-lhe muito grato não só pela benção de participar na “Benção”, mas por tudo o que trabalhou comigo no estúdio.

Como é que se deu a colaboração com Sam The Kid para ele realizar o vídeo?

Depois de ter misturado a música — com a preciosa colaboração do meu companheiro de CRU, André Hollanda — vi-me confrontado com a questão do obrigatório videoclipe. Sabia que precisava do vídeo mas, voltando à questão do investimento racional, sabia que não tinha possibilidades para o fazer. Entretanto, vi algo no YouTube em que o Sam falava de um possível futuro a realizar. E lembrei-me do “maluco das filmagens”. Lancei-lhe o desafio e ele adorou a ideia. O Sam é um gajo tão porreiro que ainda me agradece por me ter feito um favor enorme. Ele e toda a gente envolvida no video — dos actores Tomé e Alex, ao pintor Jorge Charrua, passando pelo Sebas Ferreira e Cheezy Ramalho —, a todos estou super grato. Ser o primeiro (julgo eu) a ter o privilégio de ter um clipe realizado pelo Sam, que acredito dará cartas no futuro nesta área, é um orgulho imenso. O videoclipe está recheado de detalhes que só alguém com a criatividade do Sam se lembraria. Quem vê o clipe uma vez não vai conseguir apanhar estes detalhes, e isto liga muito com a forma como eu abordo a arte, regra geral, também sou gajo de detalhes e associações criativas para quem está atento e in the know. Para além de alguém que considero mesmo muito como artista, para além de ocupar o topo da minha lista de MCs nacionais, o Samuel é alguém que tenho como amigo. E em tudo o que envolveu este vídeo, da primeira conversa ao resultado final, esteve mais do que à altura de ambas as “categorias”.