Ace sobre “Manifesto”: “É uma música reflexiva, introspectiva e de atitude positiva”

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Ace não deixou passar 2018 sem se dirigir aos seus fãs com nova música. “Manifesto” é um tema solto, uma espécie de consolo para quem esperava por um novo álbum por parte do rapper e produtor, algo que estava nos seus planos mas que acabou por não se realizar. A produção de “Manifesto” ficou a cargo do próprio Ace, que contou com a ajuda de André Hollanda na mistura e masterização provisórias — segundo a descrição do clipe no YouTube, a canção não ficará muito mais tempo online…

“Queria mostrar alguma coisa antes do fim do ano”, começou por explicar Ace ao Rimas e Batidas, ele que em 2017 editou a solo Marlon Brando. O sucessor desse disco está a ser cozinhado, mas alguns obstáculos no caminho adiaram a sua edição: “Tenho 32 músicas gravadas e, por falta de interesse da indústria e falta de meios próprios para investir na música, acabei por ter de assumir as misturas eu mesmo.”

No ano passado, Nuno Carneiro foi condecorado com uma medalha de Mérito Cultural e Científico por parte da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia.

 



Um “Manifesto” para encerrar 2018 e iniciar 2019. A mensagem é positiva e de auto-motivação: estás a escrever para ti próprio?

Acredito que, de certa forma, escrevo sempre para mim, curiosamente. Mesmo quando as letras não estão na primeira pessoa, não deixo de fazer parte do todo, como todos “os outros”, e de ter uma vida que, como a dos outros, tem problemas, crises, depressões e momentos altos, vitórias e celebrações. A minha escrita é muito auto-biográfica, a magia acontece quando o que digo ao espelho ressoa com outras pessoas.

Porque é que vais retirar a canção do YouTube?

Tinha outra música preparada para sair antes do fim do ano, mas por impossibilidade de preparar o videoclipe da mesma dentro desse prazo, tive que escolher outra, que acabou por ser a “Manifesto”. Acredito que nada acontece por acaso e esta acabou por ser uma música bastante mais indicada para a ocasião — fecho de um ano e começo de um novo — porque é uma música reflexiva, introspectiva e de atitude positiva. Tive poucos dias para a misturar, ainda acabei por gravar mais alguns detalhes de voz, mas eu e o meu amigo André Hollanda fizemos tudo à pressa, com a pressão de terminar antes do dia 31. Também nesta era do vídeo, ilustrar uma música com uma foto não é suficiente para despertar o interesse do público. Daí a intenção ser a de vir a retirar a música do YouTube. Queria mostrar alguma coisa antes do fim do ano porque o meu objectivo era lançar um álbum ainda em 2018. Tenho 32 músicas gravadas e, por falta de interesse da indústria e falta de meios próprios para investir na música, acabei por ter de assumir as misturas eu mesmo. Isso fez-me falhar o objectivo do álbum. Este tema serve como “consolação” à minha consciência.

Tiveste um 2018 calmo. Estiveste a preparar o novo disco? Vamos ter novidades em 2019?

Este ano foi intenso em termos criativos. Para além do meu álbum a solo, estive super aplicado no trabalho com os CRU e a preparar o lançamento da minha marca de roupa — Manifesto. Os CRU também já têm um álbum praticamente pronto no que diz respeito à composição e gravação. Portanto, se tudo correr bem, haverá novidades do Ace e de CRU em 2019. Se serão álbuns ou músicas soltas ou EPs, não sei. Esta é uma questão que me/nos preocupa e tenho/temos pensado muito sobre ela. Ainda faz sentido lançar álbuns? Se as editoras procuram basicamente produtos já feitos e com following garantido, faz sentido investir em projectos que depois não têm visibilidade suficiente para pagarem esse investimento? Cada vez mais estou na música pelo prazer que (ainda) me dá e não por uma questão de sobrevivência material. O que faz com que as expectativas em relação ao efeito (junto do público) daquilo que faço sejam cada vez mais pequenas. E por sua vez, as possibilidades de investir na música — tempo e meios — sejam cada vez mais pequenas. A ver vamos o que nos traz 2019.

Ainda estamos em período de reflexão: a nível individual e colectivo (falando de hip hop tuga), como é que olhas para o ano que passou? O que é que fica guardado para ti?

O que ficou guardado é o domínio absoluto do hip hop em todos os “mundos” relacionados com a música. Meios — da Internet às rádios. Concertos — dos festivais (e dos maiores aos mais pequenos) aos concertos de discoteca. YouTube — das views dos rappers à profusão de vlogs e podcasts e reactions. E etc, etc. O hip hop foi avassalador. Finalmente os promotores e produtores de espectáculos vêem o hip hop como uma garantia. E para eles, uma garantia de investimento mais do que rentável. Ao mesmo tempo, também ficou guardado o quase diário homicídio da originalidade, com rappers a brotarem de todo o lado com os mesmos flows, os mesmos refrões, os mesmos type beats. Também ficou guardado o declínio das skills, dos conteúdos, do bom gosto, a noção de que para toda a gente fazer rap é fácil e qualquer um pode fazer (e sim, se estivermos a falar do que se ouve hoje em dia, em muitos casos é realmente verdade). Mas para acabar numa nota positiva, ficou-me guardado o regresso do Sam The Kid às rimas em nome individual, o lançamento de duas músicas pelo Virtus e outros momentos do género. E no meio de tanta recriação mal fotocopiada, que bem me souberam essas lufadas de criatividade a sério.

 


Ace: “Receber esta medalha de Mérito Cultural e Científico foi uma surpresa tão incrível quanto significativa”

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