A/C Death Waltz, Mondo, et al.: 5 Bandas Sonoras Originais de Terror a merecer edição urgente

[TEXTO] Bruno Silva

 

Rui Miguel Abreu deixou tudo patente num belíssimo artigo sobre o mestre, mas quando John Carpenter quebra o silêncio sabático que mantinha desde 2010 com um álbum em nome próprio, todos os sinais de que o interesse em torno das banda sonoras de horror vai muito além da habitual quota de coleccionadores, diggers e horror buffs mais militantes, são escancarados com uma clareza sintomática dessa realidade vital no epicentro do mercado discográfico. Rock Star Carpenter a assumir-se enquanto possível ícone de uma processo transversal iniciado pela paixão de editoras como a Death Waltz Recording Co. e que tem tido presença fulgurante em lojas como a Boomkat ou sites como a Fact.

As razões desse interesse podem ser muitas, mas recorrendo novamente ao artigo do Rui Miguel Abreu, uma delas poderá mesmo partir do vasto leque referencial proclamado por inúmeros músicos afectos primordialmente à electrónica mas com vistas largas sobre o psicadelismo, a hauntologia e demais celebrações de cultura popular enviesada, onde o horror tem um espaço privilegiado. Da música criada para clássicos inexistentes dos 80s, passando pelo rehash óbvio nascido no rasto da witch house, às recordações enevoadas da crew da Ghost Box ou citações recentes do Spencer Clark ao Hellraiser enquanto Pinhead in Fantasia – só para citar mais alguns –, unem-se algumas pontas soltas em torno de um fio condutor hipotético que passa inevitavelmente pela memória das VHS e sessões de cinema tardias. Mais do que a música em si, que tanto pode dever ao funk mais sleazy e à easy listening como ao ambient e ao experimentalismo electro-acústico, aquilo que une todas estas pérolas que têm sido resgatadas à obscuridade é a comunhão em torno de um género aberto, mas ainda assim com códigos e normas particulares.

Estas reedições levadas a cabo pela Death Waltz, Mondo, Waxwork ou Finders Keepers são como que uma reinvenção dessa memória auditiva que se julgava mais ou menos perdida nas imagens granuladas das cassetes escondidas pela casa dos pais. Sons que ganham uma nova realidade, intimamente ligada aos filmes que lhe deram origem mas capazes de sobreviver para além destes. Por agora, o filão de reedições parece estar ainda longe de esgotar, com clássicos como Halloween e Suspiria em coabitação de luxo com a série B de um Blue Sunshine ou Phase IV, a que se juntam todas aquelas que nunca tiveram uma existência meramente áudio – e C.H.U.D. vai finalmente ser lançada via Waxwork. Estes são apenas cinco de inúmeros exemplos perdidos em rips áudio do YouTube e blogues de partilha. Uma possível sequela para este artigo?


 

 

[TEXAS CHAINSAW MASSACRE / EATEN ALIVE]

Com um estatuto mítico, popularizado por anos e anos de audio-rips e bootlegs levados a cabo pelo fervor de um sem número de aficionados, a banda sonora do essencial Texas Chainsaw Massacre é hoje quase uma espécie de Chrome Dreams ou Dream Factory do género. Tendo em conta que as masters já há muito estarão perdidas, não é de esperar uma reabilitação à la Smile. Ainda assim, o culto em torno do inferno aural criado pelo realizador Tobe Hooper em colaboração com Wayne Bell cresce a cada nova vaga de gente aterrorizada com a figura do Leatherface. Aplicando a norma DIY aos princípios mais insulares da concrete musique e do bruitisme, revestem-na de uma aura punk eminentemente real, a encapsular o mistério do grande deserto americano numa torrente de pratos, silvos, gongos e delays profundamente psicadélica e paradoxalmente (?) claustrofóbica. Presciente mais ou menos declarado para algum industrial mais roufenho que viria a ter continuidade no noise americano dos primeiros 00s – via família Wolf Eyes, a cena de Portland ou mesmo alguns momentos mais febris dos Double Leopards – a música de Texas Chainsaw Massacre é o exemplo mais indelével de um primitivismo forçado cuja visão se eleva acima de quaisquer constrangimentos financeiros ou artísticos. E atestado absoluto para a inventividade do DIY quando o coração está do lado certo.

Transmutando o estado alucinatório do calor texano para os backwoods rurais do interior, Eaten Alive continua a parceria de Hooper com Bell numa progressão mais ou menos lógica daquilo que foi criado para a primeira fita. A electrónica torna-se mais presente, a aprender as lições da primeira classe da dupla de Louis e Bebe Barron ou mesmo da Daphne Oram e a recolhê-las no espaço confinado e demente do Starlight Hotel, imiscuindo-a por entre espanta-espíritos, sons metálicos e ecos da floresta. Comparativamente ao vortex avassalador de Texas Chainsaw Massacre, Eaten Alive soa mais estático e hermético, feito de pequenas miniaturas que desaparecem de modo aparentemente imperceptível, contribuindo para toda a aura de loucura de um filme que tem sido injustamente mal tratado à sombra da obra-prima que o precedeu.


 

 

[THE LAST WAVE]

Creditada a um tal de Charles Wain, a música para o hipnótico chiller de Peter Weir gerou um minúsculo burburinho por entre algumas comunidades de synth-freaks sobre qual a verdadeira identidade do compositor. E mesmo sendo difícil acreditar que seja Rick Wright o responsável, não deixa de ser uma comparação certeira que deixa em aberto essa esperançosa ideia. Mas o mais provável é ter sido mesmo Greg Bell e não um melindre judicial. Não sendo um filme de terror per se, toda a atmosfera desoladora do outback australiano cria uma aura ameaçadora que o leva para lugares perturbadores da psique humana – na linha de experiências na fronteira com o género levadas anteriormente pelo Weir no Cars That Ate Paris e Picnic at Hanging Rock. Cruzando sonho e realidade, as imagens de The Last Wave são replicadas numa música de hipnose melancólica, feita de pads em suspensão e melodias penitentes, como que a prever o apocalipse latente que paira sobre o filme. E por entre um sonar subaquático e a assombração dos grandes espaços – físicos e mentais – ergue-se também o som de um didjeridu, naquela que é uma das poucas ocasiões em que este faz sentido, mitigado por anos e anos de goa trance sofrível e drum circles de ideologia frique vazia.


 

 

[LAST HOUSE ON DEAD END STREET]

Criada a partir dos recantos mais escuros e bafientos da library music deixados ao abandono sem qualquer tipo de crédito, a banda sonora para Last House on Dead End Street habita com todo o desconforto o mundo de depravação e claustrofobia no budget criado pelo infame filme de 1977 – após uma primeira versão de quase três horas foi sendo sucessivamente censurado até chegar a estes 75 minutos de tortura. Conduzida por um batimento cardíaco que vai reaparecendo ao longo da fita carcomida enquanto pêndulo de tensão, a música de Last House on Dead End Street é como um pesadelo snuff de Steve Stapleton. Uma colagem rude de vozes etéreas, drones industriais e passagens desconcertantes pelas cordas de um piano, a sustentar os gritos que se impõem a tudo isto. Tal como o filme, é uma recomendação com reservas dada a sua natureza doentia, mas todos aqueles para quem Chance Meeting on a Dissecting Table é uma escuta demasiado branda têm aqui o incremento gritty para o medo.


 

 

[BURIAL GROUND]

Surgido em plena euforia da zombie exploitation italiana, Burial Ground nunca foi muito além de um pequeno culto mais ou menos justificado por um par de cenas gore e o facto de ter um homem de quase 30 anos a fazer de criança num filme descaracterizado. Um pouco como a carnificina dessas imagens, é mesmo a banda sonora assinada por Bert Rexon – pseudónimo de Berto Pisano – e Elsio Mancuso aquilo que eleva o filme a algo mais do que um interessante exercício nasty. Longe das ambições épicas do Fabio Frizzi – habitual colaborador de Lucio Fulci e responsável por algo tão reverenciado como City of the Living Dead – a música de Burial Ground dá réplica low budget ao filme, balançando livremente entre as poucas composições jazzy genéricas e passagens de sintetizador atmosféricas. Enquanto as primeiras não encontram grande contexto para além de fazer avançar o filme em momentos pueris onde não se passa nada, as peças de electrónica carregam a acção com recurso a visões subterrâneas/poeirentas dos sound effects do Radiophonic Workshop da BBC e cascatas de sintetizador em suspensão. Numa linha ténue que vai sendo cruzada entre o terror atonal e melodias desoladoras mas estranhamente tocantes, Burial Ground aponta na direcção dos interlúdios de uns Boards of Canada em versão lo-fi – antecipando a horda de malta do noise que se entregou à new age. Não é por isso de estranhar que por entre as várias bootlegs feitas pelos fãs que se vão encontrado por aí, tenha até existido uma versão em vinil feita por uma sublabel da noisy Troniks.


 

https://www.youtube.com/watch?v=kwkxvjQUlVQ

 

[FROGS]

O uso de found sounds no contexto dos filmes terror é desde sempre uma prática comum, com o processamento e distorção de pedaços da realidade envolvente a amplificar a ameaça que paira sob o palpável e o visível – daí a importância fulcral do sound design nos jump scares. Dos ecos fantasma ao ranger insistente do J-Horror na passagem do século, são inúmeros os casos em que a banda sonora se confunde com o própria envolvência sonora. Frogs leva esta situação ao limite, processando os sons de rãs, cobras e demais répteis e anfíbios num coro de vozes sibilantes e quase rítmicas que se enredam com drones guturais e quase-melodias subliminares nos confins mais austeros da concrete musique. Para os horror buffs, o nome Les Baxter estará sempre associado ao ritualismo groovy e bizarro de The Dunwhich Terror, mas Frogs – de 1972 – mostra o criador de Music Out of the Moon a abandonar os sopros, marimbas e percussões dos arranjos sonhadores que lhe são habitualmente reconhecidos em detrimento da crueza electrónica, numa altura em que o seu génio se escondia por entre fitas medíocres. Como esta.

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