O dia era 16 de Agosto de 2025, a hora era meia-noite. A sensação era PdI em PdC, siglas de Porcaria da Idade (para os mais sensíveis) em Paredes de Coura. No último dia do inimitável festival, este veículo de carne, sangue e pó — conduzido por um cérebro que clara e repetidamente despreza a idade que tem — estava a bocejar e a pontapear o chão em protesto por o último concerto do palco principal ser à uma da manhã. Nunca fui de me sentir velho e sonolento, mas naquele momento começavam-me a doer as costas e era invadido por estranhas saudades da minha cama. O plano era sentar um bocado, recarregar parcamente as baterias para ter alento para, de pé, fingir que não queria que os Franz Ferdinand dessem um concerto relâmpago. Mas logo a seguir a este pensamento, começaram a ouvir-se sons electrónicos, convulsivos e convidativos vindos do palco secundário. Subitamente, o plano alterou-se, e os culpados foram Lander Gyselinck e Adriaan van de Velde.
O duo belga que assina como Lander & Adriaan deu um concerto avassalador na sua estreia em Portugal, e ainda que seja impossível negar a sua incrível presença de palco, isto deveu-se principalmente à sua obra musical irrequieta. Gyselinck é o baterista de serviço, contribuindo de forma energética para as melodias digitais hiperactivas do teclista van de Velde. O resultado é uma electrónica refrescante, com breaks orgânicos e intrincados que tornam a dança mais complicada mas a música facilmente apreciável. Há algo de jazz nas harmonias que permeiam as suas músicas marcadamente electrónicas, que bebem de géneros como techno, jungle, UK funky ou eurodance. Chavões à parte, o género musical de Lander & Adriaan é uma mescla de tantos outros, com uma abordagem interessante e inimitável.
Unidos em 2020 pelo confinamento, o primeiro tema surge em 2022. “Biskolom Aloofkis” é um single quase tão caricato como o seu nome, que nos recebe de forma calorosa e atarefada. É repetitiva mas o duo consegue mantê-la animada, e não é exactamente dançável mas é impossível ouvi-la sem pelo menos abanar a cabeça. O álbum de estreia surgiu pouco tempo depois do single, aptamente intitulado Lander & Adriaan. O projecto ambiciona ser mais do que um conjunto de músicas, é um espaço sonoro com uma componente física imaginária. Composto com uma experiência imersiva, ouvimos barulhos que nos remetem para um concerto, uma discoteca, completo com sons de alguém que parece ter bebido uns copos a mais na industrial e jocosa “Bomsi”. “Dansshow” é um dos destaques, fazendo jus ao nome e incorporando elementos de uma actuação ao vivo. “Marimba” lembra uma versão electrónica de um quarteto de barbershop, mais um testemunho da versatilidade do duo. Foi no clube onde se refugiaram durante a pandemia, e pela jovialidade musical nota-se que acabou de abrir. No entanto, antecipam-se noites esgotadas durante muito tempo.
Pouco mais de dois anos depois, Lander & Adriaan voltaram à carga com uma abordagem mais refinada. Millennial Breeze retoma a jornada iniciada por Lander & Adriaan de forma mais compacta e organizada, fruto de uma maior química entre Gyselinck e van de Velde. Através de “Saurus” é fácil percebermos a efervescência que uma bateria analógica empresta à música electrónica e porque é que o tema foi um dos singles do EP, bem como “Gates of Biskolom”, single que dá uma perninha no hyperpop sem tirar os pés da pista de dança. Já a ameaçadora “Jump Ennea” é mais misteriosa, consegue surpreender-nos com o seu final agridoce e expansivo. Tudo isto contribui para um projecto multifacetado, que consegue construir por cima do que o que o antecedeu e continuar a desenvolver a electrónica eclética que caracteriza Lander & Adriaan. Em 2025, continuam mais vivos e inventivos do que nunca: incorporam um sample de saxofone em “SAXBRO”, de melodias vocais arrastadas, e destilam frenesim em “Glitterfee”.
Na madrugada de 16 para 17 de Agosto de 2025 em Paredes de Coura, dancei como já não achava ser possível naquela noite. Mas é esse o engenho da boa música e de artistas como este duo. Afastaram o cansaço e de repente estava a abanar a anca como se a ciática não fosse um presságio cada vez mais próximo. Os olhos pesados foram substituídos por drops pesados, os longos bocejos por assobios extáticos e a calmaria do assento na relva pela azáfama da pista de dança. O plano alterou-se e isso só tem uma explicação: a magia sonora de Lander & Adriaan.