Oitos anos é um longo período de espera. Para contexto, toda a carreira discográfica dos Beatles aconteceu no espaço de sete anos. O último lançamento de longa duração do líder da A$AP Mob aconteceu num mundo pré-pandemia, pré-inteligência artificial e, no cenário do rap mainstream, sem conversas sobre um suposto Big 3 ou anúncios de morte da cultura por quebras nas métricas da Billboard. TESTING, ainda por cima, foi um álbum que dividiu fãs e críticos. A$AP Rocky alargou as fronteiras da sua sonoridade, tornando as barreiras do cloud rap menos constritas ao levar a sua estética habitual por novas avenidas sonoras. As expectativas em torno do disco que se seguia nas contas do rapper de Harlem foram desde logo altas, mas os constantes atrasos no lançamento e os singles que iam saindo não deixavam adivinhar como iria soar este novo álbum. Ainda assim, dado o vácuo criado no rap mainstream pela falta de consistência na qualidade da música que ia sendo lançada, DON’T BE DUMB não deixou de ser um dos álbuns mais antecipados da década.
Talvez ciente do falatório à sua volta, Rocky responde àqueles que perguntavam sobre o seu paradeiro nas primeiras linhas do disco: “It’s been a lil’ while since I been in the league / A couple lil’ trials, couple of leaks / Still in the field like I’m runnin’ in cleats / Last time I checked, we still in the lead“. O mote foi dado de forma assertiva e por cima de um beat pujante, naquela que seria a primeira de três faixas que seguem a mesma toada: enérgicas no instrumental e com pimenta nos tópicos. Em “HELICOPTER” e “STOLE YA FLOW”, o rapper deixa alguns jabs muito pouco subtis a Drake e Travis Scott, “inimigos” de longa data. O disco arranca, portanto, com o arrumar de assuntos pendentes e um tom afirmativo. Fica a ideia de que Rocky reconheceu que a sua ausência foi grande e quis dar a mesma dimensão ao seu regresso.
Apesar da boa arrancada, o disco entra na sua fase mais interessante depois dos bangers iniciais; “STAY HERE 4 LIFE” reimagina “full moon” de Brent Faiyaz e convida o seu autor para reforçar o sólido matrimónio entre rap e R&B naquele que é, no nosso entender, o refrão mais memorável do álbum. Depois, “NO TRESPASSING” oferece-nos um instrumental com um bounce contagiante, apesar de se poder tornar um pouco repetitivo, principalmente no refrão.
“STOP SNITCHING” e “STFU” são mais duas da faixas que destacaríamos do álbum, se bem que por motivos distintos. A primeira podia facilmente ser a música de um super-vilão. Mas um super-vilão daqueles a sério. O instrumental é sombrio, talvez trazendo alguma inspiração de Memphis, ideia reforçada pelos flows. Já os convidados, Sauce Walka e BossMan Dlow, apontam-nos para Texas e Florida, outros territórios de uma região geográficas que sempre inspirou bastante a música de A$AP Rocky: o sul dos Estados Unidos da América. Sendo nova-iorquino, nascido no mesmo berço que a cultura hip hop, é sempre curioso ver o quão permeável a música do nativo de Harlem sempre foi para as sonoridades sulistas, principalmente do Texas. Nova Iorque é uma cidade de identidade vincada, por isso, este beber de outras fontes não é muito comum nos rappers da cidade. Mas Rocky é Harlem e isso também é óbvio para quem ouve a sua música. Harlem é a Black Mecca, casa da Black Renaissance e, por isso, um polo artístico e cultural muito importante para a cidade. Percebemos esta matriz de pensamento pelo gosto de Rocky em experimentar e desbravar novos trilhos sonoros. E é exatamente isso que o rapper fez em “STFU”. Experimentar é sempre um risco e aqui o tiro saiu ao lado. Toda a faixa parece deslocada do disco que, apesar de ter uma paleta sonora variada, tem uma linha condutora onde esta música não encaixa. O instrumental é demasiado abrasivo, os versos desinteressantes e, apesar da intenção e da energia, é definitivamente um skip.
Este falhanço marca de certa forma o início de uma fase mais experimental do álbum, com faixas como “ROBBERY”, que facilmente ouviríamos à noite num bom speakeasy e que conta com uma boa participação de Doechii, e, por fim, “DON’T BE DUMB / TRIP BABY”, uma faixa de sonoridade etérea e que desafia mais uma vez e positivamente os limites da estética do cloud rap.
Acreditamos que as opiniões sobre os álbuns só são definitivas depois de passarem o mais importante dos testes: o do tempo. Ainda assim, a primeira impressão que fica de Don’t Be Dumb é positiva. É uma audição fácil de se fazer por inteiro porque está bem construído. Não se arrasta nem perde muito tempo a tentar levar as canções onde não conseguem ir e a produção é quase toda ela imaculada. Tirando as faixas do contexto do álbum, temos também bastantes destaques para as nossas playlists e muitas canções que resultarão, certamente, muito bem ao vivo. Será isso suficiente para que o disco se mantenha relevante daqui a 5 anos? A verdade é que este é um registo com uma estética muito forte, mas que nos deixa com a sensação de que o rapper nova-iorquino não tinha muito a dizer. E isso é preocupante depois de uma ausência de quase uma década. Os momentos mais interessantes do ponto de vista do conteúdo lírico são mesmo os jabs à concorrência e as abordagens, ainda que superficiais, a algumas tribulações que viveu entre TESTING e este LP.
Talvez sejam as nossas expectativas a estar desalinhadas nesse aspeto. Se é verdade que Rocky está longe de ser um rapper fraco, também é verdade que nunca foi o mais introspectivo ou expansivo em termos de escrita. A questão, talvez injusta, é o tempo que se passou entre projetos. O tempo cria expectativas, aumenta exigências e pede por crescimento. Rocky agora é marido e pai, foi absolvido de uma acusação séria, passou algum tempo detido na Suécia e perdeu um dos seus melhores amigos. Reforçamos a noção de que pode ser um problema de expectativas, mas talvez procurássemos algo mais do que estética de alto quilate e uma incrível curadoria sonora. Faltou algum sumo. Ainda assim, é um dos discos imperdíveis deste arranque de ano e uma adição sólida a uma das discografias mais aclamadas do panorama do rap mainstream internacional.