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Texto: ReB Team
Fotografia: César Furtado

Tristany é o nome mais recorrente neste elenco.

A primeira metade de 2020 em discos escolhidos pela equipa ReB

Texto: ReB Team
Fotografia: César Furtado

Só existia uma única condição para se entrar nesta selecção: o projecto (EP, mixtape ou álbum) ter sido lançado entre o dia 1 de Janeiro de 2020 e o dia 30 de Junho de 2020. A partir daí, não havia regras: do mais popular ao menos conhecido, do jazz à electrónica mais experimental, da palavra ao instrumental, não havia caixas que pudessem impedir uma obra de figurar nesta lista.

11 membros da redacção do Rimas e Batidas escolheram cinco trabalhos cada um. O resultado? 55 respostas, com direito a alguns discos repetidos, para descobrir de seguida:



ANDRÉ FORTE

[Knopha] Gym

Os graves propagam-se em todas as línguas, e nem o tonal mandarim consegue parar a sua energia. Dúvidas? É ouvir Knopha e as suas expansões sonoras de IsoFit confinado.

[Faucet] Bitter Insane Melting

O estado de Virgínia sempre teve boa queda para a “punkada” e as recentes tensões nos Estados Unidos não aplacaram o pulsar dessa veia. O noise rock dos Faucet, bem curto e sujo conforme mandam as regras, surge como um dos melhores exorcismos da primeira metade do ano.

[RAMZi] cocon

RAMZi sempre foi prolífica, não exactamente na quantidade, mas na variedade, sem com isso comprometer a sua identidade. cocon é mais uma prova disso: mantém a aura subaquática das suas produções, sendo capaz de deslocar as frequências até à pista de dança.

[Amnesia Scanner] Tearless

Sempre análogos ao que se passa na WWW, os Amnesia Scanner regressam com mais uma amálgama de géneros destilados em tons berrantes, produções saturadas e motivos caricaturados onde cabem géneros sem fim, do techno ao metal, da cumbia ao drone, e tudo o que entre eles possa existir. Tearless soa fundamentalmente diferente dos demais registos da dupla baseada em Berlim, mas continua a ser um registo AS até ao osso, inconfundível, dançável, agoniante. Uma boa banda sonora para lidar com a eminência do apocalipse, ou simplesmente alimentar a ideia de que “vá, podia ser pior”.

[Nihiloxica] Kaloli

Duas cassetes depois, o ensemble criado no seio da editora do Uganda Nyege Nyege partiu para o seu primeiro registo de longa-duração, e fê-lo em força. Em Kaloli, os Nihiloxica misturam os timbres de África Oriental com elementos de electrónica que se posiciona entre o dub e a pista de dança, aprimorando uma fórmula que conhecem de trás para a frente e erigindo um dos melhores discos da primeira metade do ano. Também já soaram mais como HHY & The Macumbas, e este disco deixa claro que não jogam em campeonatos diferentes, mas em galáxias bem díspares — ambas cheias de ritmo, mas de intensidades distintas.



GONÇALO OLIVEIRA

[Armand Hammer] Shrines

Se a Arca de Noé pudesse ser um disco, Shrines era um óptimo candidato ao lugar. billy woods e ELUCID cospem a sabedoria dos anciões que nos podem salvar do momento caótico que o globo atravessa e levam na sua embarcação alguns dos melhores praticantes da arte do MCing, como quem está a fazer de tudo para proteger essa espécie em vias de extinção no universo mais mainstream. Earl Sweatshirt, Pink Siifu, Moor Mother, Quelle Chris, Akai Solo ou R.A.P. Ferreira cravam os seus versos no sucessor de Paraffin, um disco de contornos clássicos marcado pela ferocidade anti-sistema com que os dois autores do projecto o conduzem.

[CLBRKS & Morriarchi] Microwave Cooking 2000

Por este quase ninguém esperava. Num plantel em que habitam nomes de luxo como Lee Scott, Milkavelli, Stinkin Slumrok, Danny Lover ou Black Josh, foi numa repentina e silenciosa ida ao mercado que a Blah Records, aconselhada por Morriarchi, foi dar com o novo golden boy da cena underground britânica. CLBRKS já tinha um following considerável dos tempos do SoundCloud mas a estreia em Microwave Cooking 2000 surpreendeu tudo e todos, mostrando-nos um lado mais sarcástico e perspicaz na forma como o rapper de Londres tratou os beats do produtor in-house da label. O álbum ganha alguns furos extra pelo factor surpresa, embora o sucessor-relâmpago PERFORMANCE ENHANCING DIET não lhe fique nada atrás.

[MIKE] Weight of the World

Já se tornou num hábito nos últimos quatro anos. Weight of the World é MIKE a assinalar pela quarta vez a data do início do Solstício de Verão com um novo trabalho, desta vez com uma brisa especial. “allstar”, a faixa que dá por encerrado o alinhamento, encapsula a primeira e amplamente aguardada troca de rimas entre o rapper do colectivo sLums e Earl Sweatshirt, adepto confesso das suas habilidades. Sem inventar muito, MIKE mantém-se fiel à sua fórmula habitual de beats lo-fi, adornados com letras que nos mexem com o intelecto, aqui apresentada com uma solidez digna de quem já ganhou calo e tem até servido de inspiração para outros militantes do ramo.

[Boldy James & The Alchemist] The Price Of Tea In China

A colisão entre Freddie Gibbs e The Alchemist em Alfredo será certamente um dos maiores marcos deste ano no que toca a real rap. Mas em circunstância alguma nos devemos esquecer do que foi feito entre o lendário produtor californiano e Boldy James alguns meses antes: The Price of Tea in China é guiado pela enorme fome apresentada pelo MC de Detroit em puxar para si algumas das atenções. O melhor disto tudo é que James tem todas as credenciais para o justificar e não será em vão que tem sido uma aposta recorrente pelo chemist das batidas. Evidence, Benny The Butcher, Vince Staples (que recupera a energia que demonstrou no clássico Summertime ’06) e até o próprio Freddie Gibbs deram o seu aval ao liricista underrated que agora carrega ao pescoço o brasão da Griselda.

[Tristany] MEIA RIBA KALXA

Uma garantia à navegação: esta não será a última vez que vão ler sobre Meia Riba Kalxa. A chegada do álbum de introdução fez o nome Tristany transitar de promessa a certeza num piscar de olhos e mesmo contra todas as adversidades parece ter aterrado precisamente no momento ideal. Dá para rir, chorar ou reflectir, conta histórias de amor mas também de rejeição, fala de perda e superação e, acima de tudo, glorifica a herança negra de um jovem que soube escolher melhor que ninguém as cores que tingem a correria da Linha de Sintra. É música portuguesa, angolana, cabo-verdiana e brasileira, tudo na mesma panela, e define-se lindamente com uma só palavra — mestiço.



MIGUEL SANTOS

[Tristany] MEIA RIBA KALXA

A estreia de Tristany é uma aterragem apoteótica. O jovem artista de Mem Martins apresenta em Meia Riba Kalxa um projecto conceptual bem estruturado, com temas profundos e multifacetados como “O MENINU KE BRINKAVA COM BONEKAS ..”, a gélida “TIRANTE ..” ou o banger consciente que é “acliclas”. Há espaço para a experimentação e para a progressão musical — as mudanças de ambiente sonoro em temas como “AMOR DE JINGA ..” ou a espantosa “ONDA CIVIK ..” são prova disso. Mas mais do que qualidade instrumental, há honestidade nas suas palavras e uma entrega característica e versátil, que serpenteia por géneros e estilos sem nunca se perder. Há muito a ouvir e muito a descobrir neste complexo álbum que mostra Tristany como um dos mais ambiciosos artistas novos a surgir em Portugal.

[Against All Logic] 2017-2019

Desde o seu começo, Against All Logic mostrou-se como um projecto que Nicolas Jaar usa como “escape” para as suas ideias mais dançáveis. Mas em 2017-2019 o artista norte-americano troca alguma da ginga da dança pelo clique das engrenagens mentais. Há no entanto algo de imutável em toda a discografia de Jaar: a sua entrega devota à produção. Seja no “berbequim” que se ouve na combativa “If You Can’t Do It Good, Do It Hard” ou na panóplia de sons bombardeados pela batida assertiva de “Fantasy”, Nicolas Jaar soa sempre como ele próprio: complexo e especialmente atento ao detalhe, um artesão exímio da música electrónica.  

[Run The Jewels] RTJ4

Os Run The Jewels estão de volta com o seu quarto álbum de originais em sete anos, o que nos diz muito sobre a sintonia entre Killer Mike e El-P. Os dois veteranos do hip hop não mostram tenções de abrandar com o seu projecto mais ambicioso e consciente enquanto duo. A produção de El-P soa mais aguçada do que nunca em temas como “JU$T” ou “never look back”, enquanto que as barras de “walking in the snow” ou “ooh la la” nos confrontam e nunca se deixam ofuscar pelo brilho dos instrumentais. É um trabalho de dois artistas no seu auge, em que banger e música consciente são sinónimos, e que eleva amplamente o terreno desta caminhada de sonho dos Run The Jewels. 

[Dua Lipa] Future Nostalgia

Como o título indica, Future Nostalgia, o mais recente projecto de Dua Lipa, “descreve” um sentimento que ainda nem sequer existe. E a que é que soa essa incógnita? Refrões cativantes, sonoridades de outros tempos trazidas para batidas do presente, hinos tremendos pela mão de “Hallucinate” ou “Don’t Start Now” e grooves orelhudas brilhantemente executadas como em “Levitating”. É um conjunto conciso e ambicioso de canções em que a cantora britânica mostra as suas valências, cimentando o seu merecido lugar na paisagem pop actual. 

[Lido Pimienta] Miss Colombia 

Miss Colombia é um organismo vivo. Lido Pimienta leva-nos numa viagem pelo seu universo musical, do mais tradicional ao mais vanguardista, através da sua encantadora voz e melodias instantaneamente afáveis. Seja o clamor de “Nada” ou a boa disposição dançável de “Resisto Y Ya”, há sempre algo de caloroso na entrega da artista canadiana nascida na Colômbia. Mas o seu segundo álbum de originais mostra que por trás das suas construções musicais há algo mais, que respira e sente, uma entidade melómana, o batimento cardíaco de notas e escalas que tomam forma física pela voz de Lido Pimienta. 



PAULO PENA

[Big Ghost LTD & Conway The Machine] No One Mourns The Wicked 

Mais um projecto a manter a lenda anónima – associada a Griselda de há uns anos para cá – viva como um dos maiores mistérios por resolver no hip hop. Desta vez, o convidado é Conway the Machine, e o resultado é nada menos que um dos melhores discos (nestes registos) deste meio ano turbulento. Começa a ser uma constante o selo de clássico impresso nas tracklists dos rapazes de Buffalo. 

[Bishop Nehru] Nehruvia: My Disregarded Thoughts 

Acolhido pela Mass Apeal de Nas e abraçado por MF Doom, Bishop Nehru é um dos nomes a apontar na sucessão de uma linhagem de sangue azul, no rap da realeza do hip hop norte-americano. Nehruvia: My Disregarded Thoughts indicia a emancipação deste príncipe que troca o ceptro pela caneta, mas não abdica da coroa que lhe pertence no reino do underground. Avizinha-se uma nova dinastia… 

[Hit-Boy] The Chauncey Hollis Project 

Seja nas rimas, seja nas batidas, o estatuto de Hit-Boy continua imaculado, e prova disso é o seu mais recente disco que conserva o sabor dos clássicos, trazendo consigo uma frescura que se impõe na evolução do hip hop. Há álbuns que melhoram a cada audição completa, e este é um excelente exemplo disso mesmo. Não o deixem passar! 

[Denzel Curry & Kenny Beats] UNLOCKED 

Nova dupla a emparelhar-se com sucesso na busca por caminhos diferentes, e menos óbvios, num mercado dominado por sonoridades saturadas. Assim, Denzel Curry e Kenny Beats fundem-se tal e qual duas personagens da saga Dragon Ball, tamanha a força com que arrombaram a fechadura de UNLOCKED. De resto, escasseiam os adjectivos para descrever Denzel, quer no poder e perícia com que projecta versos, quer na potência da entrega dos mesmos. Já Kenny tem vindo a fazer jus ao seu nome, produzindo beats, nos últimos tempos, para vários artistas nos mais variados espectros sonoros. Resta-nos esperar que este seja o primeiro episódio de uma longa e frutífera saga desta dupla inseparável. 

[Fínix MG] Robert Johnson  

Chegado a meio caminho, o novo SYSTEM, programado por ProfJam e benji price, está ainda a fazer actualizações em primeiro plano nos nossos sistemas operativos. Porém, recorde-se que 2020 começou da melhor forma antes de tudo desabar, e para a Think Music, no que a registos discográficos diz respeito, 2020 está a correr bastante bem. Assim, Robert Johnson abriu caminho com o pé direito, e prometeu a Fínix MG (ainda que seja promessa adiada por alterações anómalas das circunstâncias) um percurso risonho pela frente. E apesar das apostas ao intervalo serem arriscadas, parece-nos seguro lançar umas quantas fichas neste disco como um dos melhores do hip hop nacional deste ano. 



FRANCISCO COUTO

[Tristany] MEIA RIBA KALXA

O rapper e produtor de Algueirão-Mem Martins apresentou-nos finalmente o seu tão expectado primeiro álbum, MEIA RIBA KALXA, no qual nos leva a conhecer em cerca de uma hora e meia a sua realidade, focando-se nas experiências e energias que viveu no bairro ao longo da sua vida.

Tristany apresenta-nos um projecto conceptual como existem poucos no panorama nacional de hip hop, emergindo-nos na narrativa através de skits que nos lembram Frank Ocean (também Tristany é um artista que pinta quadros com a sua música). Entre os bangers “acliclas”, “ONDA CIVIK..” e “TIRANTE..”, há espaço para momentos mais introspectivos como “O MENINU KE BRINKAVA COM BONEKAS..” e “RAPEPAZ..”, samples de Oliver e Benji em “MARK LANDERZ..” e hinus digras que nos deixam completamente atordoados.

MEIA RIBA KALXA é a prova que Tristany tem uma visão única e que tem muito para entregar ao hip hop (e não só) em Portugal.

[Nazar] Guerrilla

Nazar criou o conceito de “rough kuduro” no qual tenta, através dos ritmos quentes e acelerados de Angola, o seu país de origem, mostrar o lado negativo e violento da história do país. Em “Guerrilla”, o produtor leva-nos até à guerra civil angolana, que levou o seu pai a lutar pela frente rebelde que se opunha ao MPLA.

Baseado nas histórias que lhe contou e no livro que publicou, Memórias de um Guerrilheiro, o filho de Alcides Sakala construiu um álbum em que mistura samples vocais tribais e sons de guerra como barulhos de helicóptero e armas com texturas sintetizadas que tão rápido estão no ambient ( “Retaliation” e “Mother”) como no kuduro pesado (“Arms” e “FIM-92 Stinger”), acabando por desconstruir géneros por entre camadas abrasivas que estão ao mesmo tempo desligadas do chão e levando-o a sítios que estavam ainda por descobrir.

Guerrilla é um álbum que conta uma História com H maiúsculo sobre violência, guerra e conflitos; e foi daí mesmo que nasceu Nazar.

[Pink Siifu] NEGRO

Pink Siifu faz-nos, numa só música, ouvir elementos de punk, free jazz, noise e hip hop. Pega em rap e junta-o a toda uma parafernália de géneros e sons que partilham o espaço da violência e da intensidade entre eles para criar um ambiente que parece estar prestes a explodir durante todos os minutos em que ouvimos NEGRO.

Com influências que vão desde Malcom X até Sun Ra, Siifu faz parte de uma geração que tem vindo a colar as várias formas de arte relacionadas com Black Power (lembrando-nos o trabalho de Moor Mother, que aparece no disco em “bebe’s diks, APOLO”), criando ao mesmo tempo uma homenagem a quem lutou pela igualdade e uma peça revolucionária que continua o seu trabalho em 2020, um ano que se tem vindo a mostrar crucial nas lutas do movimento. Livingston Matthews faz arte para acordar a consciência das pessoas com chapadas sonoras, enfrentando de frente as pessoas e quebrando totalmente o espaço pessoal de quem ouve com mensagens potentes e intensas sobre a realidade de ser um negro que vive nos Estados Unidos da América.

E se, nos seus trabalhos anteriores, preferia escolher beats mais relaxados para poder deambular livremente sobre estes temas, em NEGRO a abordagem muda completamente e obriga-nos a estar atentos ao que pretende transmitir, sem panos quentes, da forma mais crua e ruidosa possível, exactamente como a vida é.

[Speaker Music] Black Nationalist Sonic Weaponry

DeForrest Brown Jr. é jornalista, teórico, curador, artista visual e um dos líderes do movimento Make Techno Black Again. Para além disto tudo, é também músico por necessidade, operando enquanto Speaker Music para discutir, através do som, temas como o racismo, luta de classes, o mundo pós-colonial que vivemos e a estrutura política americana.

Em Black Nationalist Sonic Weaponry, editado pela Planet Um, DeForrest pega no trabalho de Tsitsi Ella Jaji sobre como a arte serve como meio de diálogo entre países africanos e as suas diásporas, funcionando também como forma de “solidariedade” e de ajuda na evolução tecnológica e modernização (aka descolonização) do continente. Através de batidas que estão entre o techno desconstruído e o industrial, o jazz e o sampling de discursos e de sons ligados à polícia (helicópteros, rádios, sirenes…), o músico americano pretende acordar-nos para a pressa que há em agir para transformar o sistema que oprime estas comunidades, ao mesmo tempo que reflecte os tempos revolucionários que vivemos neste momento.

Os títulos das músicas em si são frases que nos ajudam a entender a natureza deste disco ao mesmo tempo que nos expõe ideias e problemáticas importantes de discutir, como o caso de “Black Secret Technology is a Traumatically Manufactured and Exported Good Necessitated by 300 Years of Unaccounted for White Supremacist Savagery in the Founding of the United States” e “American Marxists Have Tended to Fall into the Trap of Thinking of the Negroes as Negroes, i.e. in Race Terms, When in Fact the Negroes Have Been and are Today the Most Oppressed and Submerged Sections of the Workers…”. Black Nationalist Sonic Weaponry é sobre emancipação e como esta se manifestou nas artes desde o techno, que simboliza a apropriação das tecnologias criadas para oprimir comunidades, à liberdade espiritual que o jazz transborda, tudo baseado também na questão do “generational trauma” da comunidade afro-descendente.

Batidas frenéticas que nos deixam inquietos durante as 11 faixas sem qualquer descanso e mais que importantes de serem ouvidas para se ter um papel activo na mudança para um mundo melhor.

[Swan Palace] No Miracles

O tão esperado álbum de estreia do projecto a solo de Pedro Menezes, membro do duo 7777 の天使 e do colectivo 00:Nekyia, chega-nos finalmente à Internet pelas mãos da Rotten Fresh. No Miracles apresenta-nos aquilo pelo qual Swan Palace é conhecido: perfeição detalhada de cada um dos seus sons, sons esses que tanto saltam entre um ambient intenso como para batidas pesadas recheadas de graves, que tanto navegam nos cantos gregorianos como no scream distorcido do witch house e drone metal.

O universo sonoro do músico português já é conhecido há algum tempo, caracterizado pela intensidade emocional que as suas músicas recheadas de elementos de música de dança (apesar de não o ser) têm, e o pináculo da sua qualidade foi mostrado finalmente com No Miracles, no qual explora os vários caminhos que compõem esse equilibrado ecossistema: começando pelo power ambient de “1000 Silver Feathers”, passando pelos gritos violentos de “Rose Gold”, com a ajuda de FARWARMTH, seguindo-se para as intensidade hardcore de “Vanta-Orange Iris”, juntando-se ainda a DRVGジラ para explorar ritmos mais precisos e quentes em “7777 Angels”, que nos dão vontade de dançar sem nunca abdicar da aura violenta e dark. Explora o ambient mais melodioso e sereno em “Oasis Ski Resort”, culminando com as lágrimas que os sintetizadores de “Stare Me Into The Sun” choram nas suas melodias, antes de dar espaço a Odete, UNITEDSTATESOF e Concrete Fantasies para criarem as suas reinterpretações da primeira, quinta, e segunda música do disco, respectivamente.

A carga emocional e a seriedade de Swan Palace estão bastante presentes em todas as músicas, que nos levam numa viagem pelos diferentes biomas do seu mundo escuro, que ao invés de ter um sol, é iluminado por strobes, e cujo som que se ouve parecem ser de almas suplicantes e de anjos celestiais. Pedro Menezes junta as texturas renascentistas dos coros vocais aos elementos electrónicos da música hardcore, e o resultado é uma experiência introspectiva perfeita para ouvir num quarto escuro com os phones no volume máximo enquanto se contempla a vida, a morte e tudo o que está entre elas.



[JOÃO DANIEL MARQUES] 

[Thundercat] It Is What It Is

It Is What It Is é uma verdadeira enciclopédia colorida da música na medida em que, tal como não sabemos de que cor eram ou que barulhos faziam os dinossauros, alguém teve que os pintar. O álbum reúne em si referências sonoras variadas do jazz, a um indie rock estranho, passando também pelo funk, isto tudo apenas nos três primeiros temas, e sem contar tentar justificar todos os indícios de géneros que vão surgindo – como o recurso ao que parece ser uma 808. Nesta enciclopédia, Thundercat é o ilustrador. O seu último álbum, que o eleva a um novo patamar, é de um revivalismo musical intenso que poderia ser banda sonora de uma série televisiva policial de culto dos anos 90, ou de um moderno filme psicadélico. É estranho, mas soa tão antiquado como futurista. Ao The Guardian confessava ser “o gajo que estava sempre sem um sapato”. Não é difícil perceber o porquê de divagar por aí da mesma forma que ronda pelos géneros e referências que incorpora nos seus temas.

[Wet Bed Gang] Stay Inside

O ano de 2020 poderia ser mais do que o que já foi para o hip hop tuga, mas vê neste EP dos Wet Bed Gang o regresso aos discos daquele que é, hoje em dia, o grupo mais popular de rap em Portugal. Correndo o risco de passar ao lado do objectivo desta lista, Stay Inside não reúne os três melhores temas que a banda fez até agora. É antes o reflexo da passagem natural do tempo pelos bad boys; vemos em “Popcorn” um exercício de experimentação em sons que não esperávamos, experiência que se propaga de forma cada vez mais reconhecível à medida que avançamos para “Inveja” e “Hat-Trick”. Engraçado como em apenas três temas ouvimos, por esta ordem, o que poderá estar para vir, o que vemos e o que víamos. Será o início de uma nova era para o grupo da Vialonga?

[Jessie Reyez] Before Love Came To Kill Us

O último trabalho de Jessie Reyez é referenciado nos principais órgãos especializados em música no mundo. Mas não é por isso que merece menos atenção do Rimas e Batidas. Before Love Come To Kill Us é mais um disco que agarra um pouco de várias musicalidades sem nunca perder um fio-condutor. É o terceiro e, sem grande dúvida, o melhor dos projectos já editados pela artista bilingue com raízes no r&b. Em termos de dimensão é também o maior graças ao empurrãozinho de Eminem (colaboração em “COFFIN”) e 6LACK (“IMPORTED”) ou Rico Nasty (“ANKLES”), com quem tem vindo a partilhar cada vez mais em termos de atitude e som. Pegamos por aí, pelos traços de Rico Nasty que vamos recolhendo em temas como “DEAF” ou “ANKLES”, um lado mais eriçado da voz que traz refrões redondos como o de “COFFIN” ou rimas melódicas em “IMPORTED”. Uma mistura. Com 17 faixas na versão deluxe, é um álbum que dá para literalmente para tudo e que, sempre com uma ideia pop e um background r&b perceptível, vai passando pelo trap (em “ROOF”, por exemplo) e recolhe apontamentos de dubstep em “DOPE”.

[Da Chick] Conversations With The Beat

Não é a minha praia, mas sempre fui fã das músicas de Da Chick. Há algo de diferente que viaja entre a teatralidade da voz, os sopros e os teclados mais clássicos que traz às suas músicas uma nostalgia sempre actual. Ouvir Conversations With The Beat dá-me saudades do futuro, se é que me faço entender. É um disco feito para o cruzamento entre a sala de jantar e a pista de dança. Há funk sempre presente através do baixo e dos sopros, mas também há tambores no fundo da piscina. O que é comum a todas as faixas é a vontade que imprime nos corpos para que se mexam. Para que dancem.

Com mais ou menos letras, há musicas que permitem trautear (como o single “conversations” ou “okay away”), mas a verdade é que à medida que progredimos no disco vamo-nos embrenhando na pista de dança arrastados pelo cruzamento com as sonoridades mais electrónicas que se vão tornando predominantes.

[Childish Gambino] 3.15.20

O último projecto de Childish Gambino surpreendeu toda a gente pela forma como nos chegou às mãos antes de nos impressionar com o seu conteúdo. Mas o que é melhor que um disco grátis? Um bom disco grátis. “15 de Março”, como gosto de lhe chamar, é uma intricada composição de referências pelos samples que usa, onde fica tudo ainda mais baralhado pela produção amorfa. Ora parece pop, ora parece vaporwave, ora tem colaborações de 21 Savage e Ariana Grande. Mas também tem o seu quê de Kanye West, que parece ser o principal precedente desta “mixtape” avant-garde. Percebem? Não sei se é dos melhores discos da primeira metade do ano, mas é claramente dos mais diferentes do universo popular. Como acabam por ser todos os discos de Donald Glover.



[VASCO COMPLETO] 

[Tristany] MEIA RIBA KALXA

Versatilidade e conceito nem sempre estão na lista de ingredientes para criadores consumarem a realização de um trabalho de longa-duração, mas são elementos que podem elevar um projecto a novos patamares. É nessas nuances de variedade estilística, justapondo funaná, hip hop (boom bap ou trap, não há cá divisões), r&b, fado, kuduro e tanto mais – desenhadas por Tristany Ariyouok e outros colaboradores; de narração de um período, uma vivência ou um lugar, e exercer a arte do som a partir dessas temáticas (tanto pela suprarreferida versatilidade, como pelo uso intensivo de field recordings), que o músico balança a criação deste disco. É aí que vive MEIA RIBA KALXA, na Linha de Sintra, o relato aglutinador duma vivência que volta (justamente) a centralizar a periferia.

[Nazar] Guerrilla

Falar de “rough kuduro” para descrever a atmosférica Guerrilla de Nazar é redutor, dado o conjunto de influências que o produtor alberga. Por vezes expansivo, por vezes contido, este álbum figura como uma das narrativas mais coerentes contada por via de música instrumental, com algumas vozes a ajudar a cimentar a sua visão da história da Guerra Civil angolana. Neste momento, Nazar perfaz em tempo de vida a mesma duração da mesma guerra que tanto marcou o seu país de origem, os que viveram esse conturbado período e as gerações seguintes. Não havia melhor maneira de contar esta história se não pela electrónica que tão depressa se expressa abrasiva (“Immortal”), mas também imediatamente bonita, gentil e catártica (“Mother”), seja pelos sintetizadores, pelos samples de vozes constantes – incrustados na mistura, como falas duma narrativa e pedaços de música tradicional de Angola –, ou pelas batidas – ora soterradas, ora explosivas. Quando quisermos falar sobre música electrónica conceptual no futuro, Guerrilla será incontornável nessa equação.

[Croatian Amor] All In The Same Breath

Um mundo IDM variado e aglutinador, no qual a melodia é apenas mais um dos (eximiamente trabalhados) elementos usados para narrar uma viagem de Loke Rahbek – esta bastante mais luminosa que a distópica de Isa, antecessor (a solo) de All In The Same Breath. O pessimismo quase pós-apocalíptico do álbum anterior (que tão bem se adequariam ao período que vivemos) é substituído por um optimismo tão mais luminoso. Não retirando os timbres de found sounds e de sampling de vozes que caracterizam alguns dos projectos de Croatian Amor, as harmonias e atmosferas saem da sombra em direcção à luz.

[SkeeMask] ISS006

A textura metamórfica que sobressai ao longo de ISS006 – título que revela, por um lado, a falta duma temática que identifique este trabalho do produtor alemão; por outro, a falta de necessidade duma temática objectiva por si só –, construída pelos sintetizadores reverberados em loop, com harmonias emocionais, mas também ambientes misteriosos, nascidos num mundo que nada mais conhece senão o éter, com os seus contornos disformes, qual quadro de Monet ou Cézanne.

[Dino D’Santiago] KRIOLA

A criação de Dino D’Santiago vai-se tornando, passo a passo, cada vez mais refinada. A composição melódica, a produção e os arranjos da sua voz tornaram-se parte incontornável do imaginário sonoro da música feita e ouvida actualmente em Portugal: desde o abanão de Mundu Nôbu, o cantor tem lançado com frequência e qualidade crescentes, sinal de que podemos sempre esperar mais e melhor a cada novo lançamento. As guitarras ecoam em várias batidas sincopadas, do funaná ao tarraxo, na excelente produção electrónica sobre a qual Dino emotivamente canta a crioulização e a mescla cultural de música que se faz por cá, convidando dois dos grandes representantes actuais do rap crioulo: Vado Más Ki Ás e Julinho KSD.



[LUIS ALMEIDA]

[Mac Miller] Circles

Não parece um álbum póstumo, mas, sim, uma belíssima homenagem a um músico que ainda tinha muito para oferecer. Apesar de soar a despedida, este trabalho não deixa de transmitir toda a energia positiva que emanava de Mac Miller. Terminou a sua carreira como um artista muito completo, que deixava tudo na sua música e este é o culminar de uma carreira brilhante cheia de clássicos que merecem ser apreciados.  

[Freddie Gibbs & The Alchemist] ALFREDO

The Alchemist está imparável este ano! Três discos em 2020, três clássicos, mas só posso escolher um e tem que ser este! Acompanhado por um dos melhores rappers da actualidade, Freddie Gibbs, que não costuma brincar com o mic na mão e, sem pedir autorização, voltou a mudar o jogo. Este é um disco obrigatório para quem diz que gosta de hip hop, é difícil uma melhor representação do género.

[Westside Gunn] Pray for Paris

Westside Gunn e os seus companheiros chegaram para ficar e dominar, por isso é melhor “rezarem por Paris”. Facilmente este é um dos melhores discos do rapper de Buffalo, Nova Iorque. Classe do princípio ao fim, participações surpreendentes que completam o disco de forma brilhante. Especial atenção para os versos de Tyler The Creator e Boldy James.  

[Run The Jewels] RTJ4

Run The Jewels  não podiam ficar calados com tudo o que está a acontecer no mundo e lançaram um disco fundamental para estes tempos conturbados. É um disco recheado do que se pode esperar desta dupla, uma continuação clara nas ideias que têm vindo a explorar nos últimos três trabalhos, mas com a evolução necessária.

[RMR] DRUG DEALING IS A LOST ART

RMR é o artista que mais me surpreendeu este ano, muito por causa do single “Rascal”, claro. Depois de aparecer na cena de forma tão inesperada e única, as expectativas estavam altas para o seu primeiro trabalho; e não desiludiu  É um EP curto, mas com uma produção brilhante, melodias frescas e com uma escrita com a devida profundidade para não ser banal e inócuo. É um artista para se ter em conta, com grande capacidade para mudar o panorama do trap, e se tornar um player importante no mainstream.



[RUI MIGUEL ABREU] 

[Tristany] MEIA RIBA KALXA

O Meia Riba Kalxa é um dos factos do ano por todas as razões, incluindo as de que não conseguimos ou não somos capazes de nos lembrar: é um trabalho profundamente honesto, corajoso no seu arrojo estético, necessário por toda a sua bagagem cultural, social, com música que aponta para o futuro e que não teme derrubar barreiras.

[ProfJam & benji price] SYSTEM

Quando se perceber totalmente o alcance da visão da Think Music, o quanto esta etiqueta veio inspirar uma nova geração de criadores, talvez se comece a pensar nos seus homens do leme, ProfJam e benji price, como dois dos mais importantes agitadores do nosso irrequieto presente. E em SYSTEM a fasquia sobe mais uns quantos buracos, só para manter os praticantes de salto em altura em bicos dos pés…

[Império Pacífico] Exílio 

O Exílio que a dupla Império Pacífico — trash CAN e funcionário — nos propõe é dourado, feito de Verão rave em câmara lenta, de sol salgado e de uma inocente ideia de pop a que Maria Reis confere uma extra-dimensão de charme. Tudo embrulhado com bom gosto electrónico que nos massaja por dentro e faz dançar, devagarinho, por fora.

[Susana Santos Silva Impermanence] The Ocean Inside a Stone

A Susana Santos Silva é só uma das mais importantes, interessantes e necessárias vozes da nossa modernidade jazz, uma criadora incansável que não admite limites para o seu instrumento, que usa técnica para servir uma visão e uma visão para desbravar novos terrenos. Tudo com o inexcedível bom gosto próprio de quem não sabe dar menos do que o máximo.

[Maria e DarkSunn] Crooked N’ Grinded

A tape que estes dois representantes da velha e da nova guarda da Monster Jinx nos resolveram oferecer é um discreto, mas sólido triunfo: resume um trabalho de anos do monstro roxo na vanguarda da nossa cultura de beats, ligando-se com unhas e dentes à tradição sampladélica ao mesmo tempo que chuta para um futuro mais digital a urgência vibrante e cinemática de que também se preenche a sua visão.



[PEDRO JOÃO SANTOS]

[Kate NV] Room for the Moon

“Estava a cozinhar para um amigo, quando fiquei sem sal”, contou Kate NV aos seus seguidores do Twitter. “Decidi retirar as estrelas do céu escuro. Numa colher de pau especial, coloquei cada luminosa, quente estrela”. É bom imaginar que Room for the Moon, o seu terceiro álbum a solo, foi uma reprodução musical deste processo onírico. A city pop japonesa dos anos 80 parece ter conduzido sempre por estradas enluaradas, no quadro de um minimalismo digno, elegante – e é esse o groove inequívoco que a cantadora russa apropria. Mas as suas fantasias não se domesticam, perdem-se debaixo das pálpebras e brincam sem controlo. 

A abertura, “Not Not Not”, antecipa todos os ingredientes: as teclas fermentam até formarem espuma, a bateria propele como um bombo de carnaval, um saxofone maroto cambaleia entre a divagação enfrascada e o fim da lucidez. É um diário de sonhos para quem não tem paciência de o manter, um espólio de pop gloriosamente hiperactiva, uma cabeça que só sonha com a próxima lua.

[João Pais Filipe] Sun Oddly Quiet

Terras de sol cabisbaixo, música do vermelho poente. Sun Oddly Quiet é o trabalho de um músico que só o é enquanto artesão. As sete quintas de João Pais Filipe são a sua oficina, onde tempera, martela, aquece e afina os metais com que trabalha: esse é o torrão natal dos sons que orquestram esta estase em quatro cenas. Não são actos, visto que o cenário é sempre igual, implacável e intenso, em todos os momentos. 

Quatro cenas: investigação, combate, labuta e catarse. As participações especiais – a frequência metálica, como uma lâmina à franja do ouvido, na faixa “III”; o exalar meditativo que preenche “XV”; a toada cintilante na moldura de “XI” – dão cor ao disco, mas são as variações de ritmo que tecem o seu coração. Um desafio possível: tentar ajustar a batida cardíaca à de João Pais Filipe.

[Noite & Dia] Acredita

“Barras por Cima de Barras”, mais do que uma faixa no EP Acredita, é o modus operandi de Noite & Dia há 18 anos. O lavor da angolana Anabela Bento é ubíquo no seu país, onde se sagrou “Rainha do Kuduro” – título que alienou durante um hiato de dois anos. Mas está-lhe no sangue e na consciência divina, invocada no díptico de abertura, sendo a súplica humilde de “Meu Deus” onde se reinventa: o embalo gentil da batida, as teclas tácteis, o assobio dócil da guitarra pintam em tons soalheiros. 

De resto, Acredita é pura artilharia, glúteos ao chão e comédia – com o auxílio de DJ Aka M, DJ Vado Poster e DJ Habias, nomes que Bruno Dinis, jornalista da Bantumen, aponta como a nata do afro-house e do kuduro. Possivelmente a única vez que gostarão de ouvir “ai, estropício!” aos vossos ouvidos.

[Kiko Dinucci] Rastilho

“Vamos explodir!” O paulista Kiko Dinucci é uma corda tensa a vibrar, um operador de elasticidade e fricção. A sua voz é a guitarra… e não usaremos mais clichés para falar de Rastilho, um álbum que sacode a terra dos ossos e inala o éter mais bonito. Ao expelir vómito, bolor e bílis para o seu campo, mantém-se crente de que tudo isso pode ser terreno fértil – torna-o especial e até presciente. 

Henrique Barbosa Justini descreve-o como um trabalho de decomposição dos cânones brasileiros: afinal, Dinucci desfigura o samba e os ritmos do candomblé, fazendo das migalhas que sobram um banquete.

[Marcos Valle] Cinzento

Em 2019, um Marcos Valle sexagenário alinhou-se com o seu boneco dos anos 80. Longe de voos conceptuais, Sempre reconciliava-o com o culturista pop que foi em “Estrelar” – um boogie de zero pretensões (e ténues diatribes políticas). Cinzento é o clássico Valle do novo milénio, ciente de que a substância não pode estar apenas nas entrelinhas, nem o seu estado de espírito tem que ser monocromático. Pop jazzístico de fina seda, a lutar contra um céu de pingos gordos. “Se Proteja” tem um sabor mórbido às últimas palavras de quem morre por desgosto com o mundo; algumas das bossas novas mais amorosas parecem contaminadas por um nervosismo inquietante. 

Finalmente, o sol: o majestoso “Lamento no Rhodes” ensina a arriscar com a música de lounge; o dueto com Emicida media a resignação e a esperança que se sonha para um dia. “Reciclo” resume o porquê de ser necessário ouvir Marcos Valle, mesmo com as cordas vocais enfraquecidas pelo tempo: em cada canto, há uma nova razão para escrever uma melodia, desenhar um acorde.



[ALEXANDRE RIBEIRO]

[Ka] Descendants of Cain

“I break my chains when I’m around the pen”. Há artistas que parecem não ter qualquer respeito pelas leis do tempo e do espaço — vivem em dimensões e planos só seus, como se tivessem o poder de percepcionar tudo na sua plenitude e traduzir isso através de música que não pode ser apressada. A par de Roc Marci, a única participação em Descendants of Cain, Ka é um desses mestres, um samurai que troca a espada pela caneta e cruza a sensibilidade poética com a inteligência de rua, seguindo a máxima que L-ALI proclamou em “UAIA” (“Não levantes a voz/ Melhora os argumentos”) para expressar mais em 33 minutos do que muitos conseguem numa carreira inteira.

[Ric Wilson & Terrace Martin] They Call Me Disco

Numa esquina fictícia entre Chicago e Los Angeles, Ric Wilson e Terrace Martin encontraram-se para um EP que é, basicamente, sol, “baes“, funk à Costa Oeste, disco, house, rap e diversão consciente. A banda sonora ideal para um Verão que pede mais cores.

[Stove God Cooks & Roc Marciano] Reasonable Drought

De Syracuse, Nova Iorque, Stove God Cooks não é novo nestas andanças, mas teve de esperar por Roc Marciano para chegar à melhor versão de si mesmo. Com beats excepcionalmente esculpidos pelo autor de Marcielago, Reasonable Drought transborda confiança por todos os lados e carrega a energia e atitude que nomes como Benny The Butcher, Freddie Gibbs, Pusha T e Rick Ross impregnaram nos “brick raps” mais valiosos do mercado. Uma estreia que soa a vitória retumbante.

[Giveon] TAKE TIME

Giveon não apareceu na cena em “Chicago Freestyle”, faixa de Drake, mas foi aí que a grande porta se abriu, e existem oportunidades que, quando aproveitadas, mudam tudo. Em TAKE TIME, o cantor prova que é mais do que uma espécie de Sampha com pitch down e eleva-se a figura de destaque nos novos talentos r&b/soul. É ouvir “The Beach”, “Favorite Mistake” e “Like I Want You” para se perceber onde está este barítono (e até onde pode chegar).

[Chucky73 & Fetti031] Sie7etre3

Uma dupla dominicana com bases estabelecidas no Bronx conseguiu encontrar um meio caminho entre Pop Smoke e Bad Bunny ou seja, entre o drill e o trap latino, juntando o melhor de várias linguagens através de uma miscigenação que só poderia acontecer em Nova Iorque e em 2020. Há quem os aponte como a próxima grande cena — por aqui, subscreve-se essa aposta.

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