A melhor actuação de sempre dos BRIT Awards?

[TEXTO] Manuel Rodrigues [FOTO] Direitos Reservados

O Reino Unido está a atravessar uma muito complicada fase a nível político e social. Baralham-se as ideias, confundem-se os valores e o Brexit nada mais é do que um perverso manto que procura camuflar uma vontade primordial: a de fechar as portas à diversidade e à multiculturalidade. De repente, um país que sempre viveu escancarado ao mundo – não é à toa que Londres é apelidada como “melting pot”, apesar do termo ser comummente aplicado aos Estados Unidos – procura desesperadamente por uma chave que tranque de vez esse enferrujado cadeado. E prova disso são as manifestações ideológicas que, depois da entrada em vigor do Brexit, se vão testemunhando aqui e ali, como por exemplo os cartazes do Happy Brexit Day colados nos 15 pisos de um prédio habitacional em Norwich.

“Agora que que finalmente recuperámos o nosso enorme país, há uma regra que queremos que fique bastante clara para todos os residentes da Winchester Tower. Não toleramos que se articulem outras línguas que não o inglês nos apartamentos. Somos de novo o nosso país e falamos o Inglês da Rainha. Se quiserem falar seja qual for a língua do país de onde provêm sugerimos que voltem para a vossa terra e devolvam o apartamento ao concelho [de proprietários] para que os britânicos possam lá viver e possamos regressar ao que era normal antes de vocês infectarem esta anteriormente grande ilha. É uma escolha simples: obedeçam à maioria ou partam. Não vão ter muito tempo até que o nosso governo implemente leis que coloquem os britânicos em primeiro lugar. Por isso, evoluam ou desapareçam. Que Deus salve a Rainha, o seu governo e os verdadeiros patriotas”. Este é apenas um exemplo do quão tumultuoso a nível de pensamento se encontra a grande ilha.

É neste contexto esquizofrénico que Dave, artista britânico, aterra nos BRIT Awards. Autor de Psychodrama, trabalho que arrebatou o galardão de Melhor Álbum na cerimónia (o mesmo já havia vencido um Mercury Prize em Setembro do ano passado), David Orobosa Omoregie interpretou “Black”, uma canção intensa que, como o próprio nome sugere, carrega às costas uma forte mensagem social e política. Esta não é, contudo, a primeira canção do seu currículo a abordar semelhante temática. Em “Question Time”, single de 2017, presente no EP Game Over, o rapper oriundo de Streatham colocou várias questões a Theresa May (o envolvimento militar na guerra da Síria, a ausência de financiamento para o sistema nacional de saúde e a falta de atitude perante o desastre da torre Grenfell), Jeremy Corbyn (a total descrença nas intenções políticas do líder do Partido Trabalhista) e James Cameron (toda a questão do Brexit, “you fucked us, resigned, then sneaked ou the firing line”). O tema valeu ao jovem artista um Ivor Novello, prémio que distingue as melhores composições de compositores da Grã-Bretanha, na categoria de Melhor Canção.

Regressemos a Psychodrama, disco que teve direito a crítica no Rimas e Batidas em Abril de 2019. Esta é uma obra que espelha o drama, salve a redundância, de um jovem negro no coração de uma mentalmente agitada metrópole. Cresceu sem nunca ter conhecido o pai, viveu a maior parte da sua ainda curta vida afastado dos irmãos (ambos presos, havendo um deles a cumprir prisão perpétua pelo envolvimento no homicídio de Sofyen Belamouadden na Victoria Sation, em Londres) e tem sido até os dias de hoje o único sustento emocional – e por vezes económico – da sua mãe, que toda a sua vida trabalhou árduo para conseguir sozinha sustentar o seio familiar. A natural instabilidade no seu agregado e as inúmeras questões relacionadas com a ausência do seu pai e dos seus irmãos mergulharam Dave num profundo estado depressivo, obrigando-o a realizar psicoterapia em tenra idade. “Psycho”, o primeiro tema do disco, espelha bem toda essa problemática, descrevendo de forma minuciosa – e mesmo a nível de toada, com o instrumental a mudar a sua aura e cadência – as oscilações de humor próprias de quem há muito batalha com problemas do foro psicológico.

“Black”, o terceiro tema do disco, levado para o palco dos Brit Awards com pompa e circunstância, é uma espécie de resposta a uma pergunta que compreensivamente não nos colocamos muitas vezes a nós próprios. O que significa, afinal, ser-se negro? Sentado ao piano (não esquecer que o músico britânico é nível sete num ranking atribuído pela Associated Board of The Royal School of Music, uma das melhores distinções alcançáveis), Dave dá início ao desfile de respostas ilustradas por um tridimensional ecrã montado sobre aquilo que, por norma, seria a cauda do instrumento. Na ponta oposta, um conjunto de teclas espera que alguém assuma uma posição de acompanhamento à melodia e harmonia articulada pelas mãos do rapper. “Black is beautiful, black is excelent/ black is pain, black is joy, black is evident/ It’s workin’ twice as hard as the people you know you’re better tha / ‘Cause you need to do double what they do so you can level them”, começa o artista, sublinhando que ser-se negro significa trabalhar o dobro para alcançar as mesmas oportunidades de alguém com pele clara. Enquanto isso, o ecrã mágico vai exibindo imagens a preto e branco com algumas passagens da letra, alternadas pelas bandeiras do Reino Unido e Estados Unidos, e manchetes de jornais ao som do verso “the blacker the berry the sweeter the juice/ a kid dies, the blacker the killer, the sweeter the news/ and if he’s white you give him a chance, he’s ill and confused/ if he’s black he’s probably armed, you see him and shoot”.

As reacções na plateia são evidentes à medida que a actuação avança e o novelo da letra se desenrola a par do movimento de translação da câmara. No preciso momento em que completa os 180 graus sobre a posição de Dave, um par de mãos assume a posição contrária no piano e garante seguimento à melodia para que o rapper se possa, mais tarde, libertar das teclas e dedicar-se unicamente à vocalização – neste momento surge na sua retaguarda um naipe de cordas que imprime a carga dramática necessária à actuação. Nisto, há um gigantesco “go home” que surge em fundo branco, representando, muito provavelmente, uma das frases que um indivíduo de pele negra, como Dave, deverá ouvir mais no seu dia-a-dia. O remate a esta cena é monumental: “but black is all I know, there ain’t a thing that I would change in it”.

No verso que segue, agora exclusivamente centrado no microfone preso ao tripé, Dave coloca mais nervo nas rimas enquanto aborda a questão de um particular ângulo, “black is distant, it’s representin’ countries that never even existed while your grandmother was livin’/ black is my Ghanaian brother readin’ into scriptures/ doin’ research on his lineage, findin’ out that he’s Egyptian/ black is people namin’ your countries on what they trade most/ Coast of Ivory, Gold Coast, and the Grain Coast/ but most importantly to show how deep all this pain goes/ West Africa, Benin, they called it slave coast”. É neste preciso momento que a mesa camaleónica assume a forma de prisão e Dave liberta uma das passagens mais gélidas da letra, “black is bein’ guilty until proven that you’re innocent”.

Recentemente, têm sido vários os artistas britânicos a manifestarem o seu desagrado para com o actual caminho que o Reino Unido está a seguir, não só com a questão do Brexit, mas também com toda a metamorfose de mentalidades inerente – na capa do seu recentemente editado álbum, Dark Matter, Moses Boyd retrata aquilo que aparenta ser uma mão a transportar uma tocha com a bandeira do país em chamas, em fundo negro, pouco esperançoso, quase fúnebre (esta é, pelo menos, uma das mil leituras que podem ser feitas ao frontispício da obra). Mais directo do que Dave na manifestação deste parecer, impossível. No derradeiro verso da interpretação de “Black”, propositadamente construído para a ocasião, o jovem rapper de 21 anos não poupa nas palavras e atira: “the truth is our prime minister is a real racist”, referindo-se, claro, a Boris Johnson. A par disso, o músico criticou ainda a cobertura feita pelos tablóides ao caso de Meghan Markle, duquesa de Sussex, homenageou a vítima do ataque terrorista na London Bridge, Jack Merritt, e voltou a tocar no incêndio de 2017 da torre de North Kensington que ceifou a vida a 72 pessoas: “Grenfell victims still need accommodation”. Tudo isto em quatro vertiginosos minutos de lírica sobre cama de piano e cordas. Um verdadeiro murro no estômago.

Esta até poderá não ter sido a melhor actuação de sempre dos Brit Awards no que diz respeito à performance em si (a concorrência é muito forte neste aspecto), mas é certamente a que nos últimos anos se comprometeu mais com a mensagem transmitida e mais apostou na componente social e política.

Numa altura em que o racismo em Portugal sai à rua de cara destapada, se exercitam cânticos racistas à vista desarmada (nada de novo no mundo do futebol, como é óbvio), polícias espancam pessoas com base no ódio racial e figuras como André Ventura aumentam o seu grau de popularidade, não seria uma lufada de ar fresco assistir a algo semelhante no nosso espaço televisivo?


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