A história do hip hop eborense contada por DJ Sims

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTOS] Direitos Reservados

Foi no passado dia 11 de Agosto que o hip hop celebrou o seu 45º aniversário. Se foi preciso cerca de uma década até que o género se alastrasse pelos Estados Unidos da América, o movimento em Portugal só começou a ganhar contornos dignos de registo nos anos 90. Grandes centros urbanos como Lisboa, Margem Sul do Tejo e Porto serviram de berço para os primeiros grandes projectos de hip hop feito no nosso país e, em zonas mais remotas, existem casos onde o som idealizado no Bronx nunca conseguiu vingar.

Évora é um desses locais onde o hip hop vive maioritariamente de nichos: “Na escola quase que te olhavam de lado. Chamavam-lhe a música dos pretos, dos ‘yos’”, recorda DJ Sims. É ele um dos maiores símbolos do movimento hip hop eborense, DJ e produtor desde o início do milénio, e, por isso, o narrador ideal para nos contar esta história feita de altos e baixos.

DJ Sims também revelou os seus planos ao Rimas e Batidas, nomeadamente o lançamento de um novo EP: “Vai contar com cinco músicas instrumentais. Costumo defini-lo como ‘música pouco usual’ [risos]. Sabemos que é aquele quatro por quatro mas não consigo bem apontar-te um determinado estilo. São coisas muito fora do normal. O EP vai chamar-se Torto e a capa vai ser feita pelo Eskema, uma vez mais. Vou ter alguns músicos convidados e vou editá-lo num 10”, tentando que esteja também presente em todas as plataformas digitais. Tem o carimbo do Sistema Intravenoso e vai sair ainda durante o Verão.”

A conversa surge no âmbito do festival Artes À Rua que na próxima semana tem uma série de eventos dedicados ao hip hop. NERVE, Valas ou os Scratchers Anónimos são algumas das confirmações mais sonantes nesta programação. Razões suficientemente fortes para que Évora possa entender o “estado de saúde” da cultura urbana no seu território.

 



[A semente]

“O movimento foi sempre esquisito. Eu não te posso precisar o ano mas talvez ainda no final do século passado. Nós temos uma loja de discos, a CD Land, e nessa mesma loja trabalhava um rapaz, o Abébia, que se preocupava muito em ter uma colecção de hip hop numa altura em que começaram a chegar os álbuns do Nas, Cypress Hill, Public Enemy… Ele terá sido um dos culpados. Alguém que conseguiu trazer essa música para que fosse vendida em Évora, acessível às pessoas de cá. É um número que era mínimo — pouca gente naquela altura escolhia ouvir rap. Do que eu me recordo, esse deve ter sido dos primeiros sítios onde era possível adquirir discos de hip hop.”

 

 



[Os primeiros passos]

“Lembro-me que tivemos uma banda que era os Tractores do Lavrado. Um dos membros, o Badja, que até participa no novo álbum do Bob O Vermelho, a malta por cá desconfia que ele tenha sido o primeiro MC em Évora. Depois seguido pelo Viruz ( aka VRZ). Não sei precisar se houve alguma influência externa mas diria que sim, daquilo que já se ia fazendo na Margem Sul, em Lisboa e no Porto. O Viruz, mais tarde, foi convidado para uma mixtape do Cruzfader e acho que foi aí que a porta se começou a abrir um pouco mais. O grande culpado por ainda hoje se fazer rap em Évora foi o VRZ. Ele pode não ter sido o primeiro mas foi o primeiro a alcançar um determinado patamar e a contactar com gente que, de alguma forma, tinha relevância no movimento.”

 



[Évora a dar cartas]

“Não querendo ser egocêntrico, as minhas primeiras duas mixtapes acabaram por juntar quase toda a gente que fazia rap em Évora. Tanto A Música Que Não É Arte Vol.1 como o Onde É Que Tá As Mortalhas devem ter sido os primeiros cartões de visita para a grande parte dos MCs. Antes disso, em 2003, o VRZ lança o primeiro álbum da Matarroa, o 100 Insultos. Esse foi provavelmente o primeiro grande trabalho por um rapper eborense, embora com um cheirinho a norte, por ter o tratamento da Matarroa. Pode não ser 100% eborense mas na altura era praticamente impossível fazê-lo. Não tínhamos estrutura nem estúdios decentes para o fazer. As vozes foram todas gravadas na casa do Viruz e posteriormente tratadas no Porto.”

 



[DJing]

“No DJing, que é a parte que mais me toca e que melhor consigo aprofundar, houve um rapaz aqui que era o DJ Puto — foi o primeiro DJ eborense que eu vi ao vivo com dois Technics, mesa de mistura e discos de vinil. Foi ele que me fomentou o gosto e a vontade de querer fazer e procurar como fazer. Não me lembro de mais ninguém. Talvez existam mais um ou dois muito escondidos, ‘DJs de quarto’, que infelizmente não acompanham o movimento como eu gostaria que o fizessem. Até porque isso seria combustível adicional para mim.”

 



[B-boying]

“Ao nível dos b-boys, é possível que seja essa a vertente menos explorada aqui em Évora. Sempre existiram dois ou três rapazes com muito gosto, há volta de 10 ou 15 anos. Dois deles eram irmãos gémeos, o Saytu e o João, e havia o Balas. Mas foi sempre numa de brincadeira, também porque a informação era mais difícil de chegar nessa altura, e não se desenvolveu muito essa vertente. Hoje em dia sei de uns poucos casos mas são rapazes que cá estão a estudar na universidade e não são de Évora.”

 



[Graffiti]

“No graffiti estamos bem melhor. Temos malta que ainda pinta por cá, bem como outros que saíram de Évora e continuam a pintar lá fora. Há malta que ‘evoluiu’ até para outras coisas, como artes gráficas ou banda-desenhada, mas que deixaram a sua marca no graffiti. O Eskema ainda pinta, embora em ambientes mais controlados, porque a malta com esta idade já não tem paciência nem vontade de andar a fugir da polícia [risos]. Trabalhei de perto com o Eskema, foi ele quem fez a capa do Onde É Que Tá As Mortalhas, d’A Música Que Não É Arte Vol.2 e do meu próximo EP, que sai em breve. O Badja também pintava. O Bob O Vermelho ainda pinta hoje em dia.”

 



[Concertos que ficam para a história]

“Lembro-me da primeira vez que vi os Mind Da Gap na Queima das Fitas em Évora, há 15 anos para aí. Ver o Serial ao vivo foi um empurrão nas costas. Aquilo ficou-me na retina e foi uma motivação extra para que eu me dedicasse ao que faço hoje. Talvez esse tenha sido um dos maiores ajuntamentos, muita malta amiga.

Comigo a actuar, o momento mais belo e o mais bem conseguido foi provavelmente em 2011, quando eu, o Pródigo e o VRZ lançámos o Dentes de Ouro & Flow de Platina na Sociedade Harmonia Eborense. Foram necessários três e quatro esforços extra da nossa parte para que a coisa acontecesse. Foi um dia difícil, com as contas tão à justa, e no fim acabou por ser um concerto memorável. A sala estava cheia e com um ambiente belíssimo. Ainda por cima com dois MCs que eu respeito imenso. É pena estarem hoje um pouco mais alheados. A solo, recordo-me de uma noite a meias com o Nel’Assassin num bar aqui em Évora chamado Coluna Maldita e de uma abertura que fiz para o RIOT, numa altura em que os Buraka tocavam cinco vezes por ano no Japão [risos].”

 



[A moda do hip hop]

“Nunca foi um movimento com 20 ou 30 praticantes. Actualmente, se calhar temos tantos MCs por metro quadrado como na Margem Sul. Uns que se mostram mais, outros que se mostram menos. Temos muitos MCs em Évora, temos alguns produtores e dois ou três DJs.

Quando apareceram os Matilha 401, Évora teve um boom ao nível de ouvintes de hip hop. Eles eram todos estudantes do secundário e puxavam muita gente das suas turmas e escolas. Muitos amigos, muita euforia, muitos aplausos. Nessa altura tivemos um número já sério de ouvintes de hip hop. Agora com a programação d’O Bairro, vamos poder apalpar novamente a massa de ouvintes para saber se eles ainda existem ou não.”

 


Artes à Rua: NERVE, Valas, DJ Sims ou Scratchers Anónimos num festival de hip hop em Évora


[Artes À Rua]

“Esperamos que agora, com o Artes À Rua, venham coisas ainda melhores. A malta aqui desdenha um bocadinho mas vamos todos tentar puxar a corda para que isso seja possível e vamos ver se corre bem. Espero que durante estes nove anos da candidatura de Évora a Capital Europeia da Cultura nos possa deixar memórias capazes de substituir aquelas que te referi do passado.”

 


Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
Gonçalo Oliveira