A Extravagância e Perfume de Makalister

[TEXTO] Núria R. Pinto [FOTOS] Direitos Reservados

Pouco mais de um ano depois do lançamento de Mal dos Trópikos, o brasileiro Makalister regressa ao trabalho com a mixtape Extravagância e Perfume. 12 faixas em colaboração com DJ Tuna13 em que a promessa, segundo o rapper de Santa Catarina, é simplificar a mensagem numa tentativa de encontrar a beleza no que é orgânico, natural. Ou “extravagante e perfumado”.

A facilidade com que domina as palavras e a complexidade que impõe sobre o discurso são tanto uma qualidade – Mal dos Trópikos é uma peça essencial do rap BR em 2018 apesar do seu hermetismo e recurso constante a figuras de estilos e referências literárias/cinematográficas — como uma pista para ajudar a explicar o porquê de se erguerem algumas barreiras de entendimento sobre o trabalho do MC que encabeça o circuito mais alternativo a sul do Brasil. Felizmente, essa riqueza nos vocábulos mantém-se, mas são escassas as referências que obriguem quem ouve a saltar para fora do disco em busca de pistas que o decifrem.

A sonoridade ganhou novos riscos, metafórica e literalmente, e DJ Tuna13 nos scratches trouxe, em vários momentos, uma roupagem mais clássica à mixtape. Makalister saltou para fora da sua bolha para, a espaços, o ouvirmos num registo mais melódico, cantado ou a fazer valer o predicado de “rimar sem necessidade de fazer rimas”. Produzida inteiramente pelo rapper, gravada ao vivo e com uma maior sujidade quando vista em oposição a Mal dos Trópikos ou até Laura Muller Mixtape, Extravagância e Perfume traz Jovem Esco, Arit e Kia Sajo nas participações e Efieli e Nery Bauer no apoio à mistura e masterização.

Ao Rimas e Batidas, Makalister explicou a sua mais recente criação.



[Sobre a dessincronia de Mal dos Trópikos]

“O Mal dos Trópikos saiu em Janeiro de 2018 mas tinha muitas músicas que já tinham sido feitas em 2015. Músicas com dois ou três anos e batidas com três ou quatro.

Foi um álbum que saiu bem completo, maduro, mas não era algo que estava actualizado na época em que saiu de acordo com o que eu estava fazendo. Eu já estava noutro tempo, fazendo outras paradas. O Mal dos Trópikos trouxe uma característica bem cinematográfica e com rimas bem metafóricas. Jogos de palavras, métrica, multissilábica. Com algumas referências de literatura e filmes. Mas quando lancei, eu já estava vivenciando uma outra coisa.”

[O regresso à produção e o encontro da rima]

“Eu estava sem computador quando lancei o Mal dos Trópikos e só fui pegar ele de volta a meio de 2018. Depois de um ano basicamente sem produzir, comecei a fazer coisas novas. Foi onde eu fui conceber os instrumentais do Extravagance & Parfums e do Extravagância e Perfume, onde depois eu fui rimando. Traz outra estética de rima, em muitas linhas eu não rimo. Não tenho tanto jogo de palavra, não tem basicamente nada de referência cinematográfica… Não que eu quis ou fui atrás disso. Mas acabou se manifestando um desejo de fazer letras bem mais simples. Não em questão de entendimento mas em questão de vocábulo, de fazer uma parada mais simples de entender que traz mensagens melhores do que trazia, saca? Eu gosto de falar que antes do Mal dos Trópikos eu falava coisas que eu queria falar e que depois do Mal dos Trópikos eu comecei a escrever coisas que eu precisava de ouvir. Devido a tudo o que eu fui vivendo, comecei a trazer uma mensagem um pouco menos intimista – só falando sobre o que eu sentia — e comecei a falar mais sobre a minha relação com o mundo, as paradas externas. Eu acho melhor de se ouvir, tem melhor mensagem.”

[A gravação ao vivo e a parceria com DJ Tuna13]

“O processo foi um pouco diferente porque eu não estava gostando muito do resultado que as músicas tinham quando eu estava gravando elas. Eu gravava bastantes vozes e acabava não me encarnando. Eu sabia que esse álbum não iria ser mixado pelo Efieli porque ele estava noutros corres, então teria que ser por mim. Então, eu estava sentindo que eu não estava encarnando muito as vozes. Mas quando eu cantava elas ao vivo eu ‘tava me encarnando pra caralho, tá ligado?

Na época eu estava com um microfone de mesa — tipo desses que os caras jogam no computador. E eu estava gravando as músicas nesse microfone, saca? Não estava gostando. Eu até tinha estúdio para gravar só que os meus amigos também têm os corres deles e eu não queria atrapalhar ninguém. Queria poder gravar de uma forma bem rápida e que imprimisse bem o que eu queria fazer. Eu já conhecia o trabalho do DJ Tuna13. Sempre tive boas referências do trabalho dele. Entretanto ia rolar um evento e eu acabei por ensaiar com ele as músicas desse álbum. Pensei: vamos gravar! Com ele riscando e eu botando a minha voz porque ele me mostrou os efeitos que ele conseguia fazer com a mixer dele. Então o lance foi esse: fazer ao vivo. Gravar ao vivo. Não que eu lançaria a gravação inteira, eu depois editaria as vozes, mas eu tinha que gravar ao vivo.”

[O processo de produção]

“As batidas foram mixadas, passaram pelo mixer do Tuna, riscando e botando efeitos na minha voz. Tudo isso passava por um outro processador que passava para um computador. Nesse computador era gravada uma voz limpa, uma voz com os efeitos do Tuna com uns compressores ou outro tratamento que o Pedra Que Ronca botava, e as batidas com os riscos.

Exportamos e em duas semanas eu peguei em tudo, junto com as versões do ao vivo, juntei e fiz a mixagem da voz junto com a batida. Sozinho. No Mal dos Trópikos eu gravei as vozes, o Efieli mixou as vozes e as batidas dentro do projecto e depois masterizou. Esse álbum foi diferente. Eu comecei a mixar as batidas por mim, mixei todas as batidas já mapeadas no tamanho e do jeito que eu queria, levei pro Efieli e ele me deu um auxílio para finalizar a mixagem delas, só corrigindo algumas coisas. Levei as batidas mixadas para a gravação que eu fiz no estúdio do Pedra Que Ronca, com a ajuda do Lucas Romero na operação das paradas e do Rafael que fez algumas sonoridades e algumas músicas na vibe do ao vivo. Depois disso, enviei essas mixes pro Nery Bauer e ele fez a masterização pra mim. A capa é uma foto minha, é uma foto de espelho. E o DJ Tuna fez a escrita dela.”

[As mudanças na sonoridade]

“A sonoridade mudou bastante porque em muitas músicas desse novo álbum a bateria está bem camuflada. As faixas 1, 4, 8, têm uma bateria um pouco mais camuflada trazendo uma textura, uma estética mais musical, mais cremosa para os instrumentais e não tão seca como tinha em Mal dos Trópikos. Tipo a ‘Era do Amor Virtual’, ‘Bobby James’, músicas com timbres mais secos. A primeira faixa, «Extravagância e Perfume’, traz bem a estética que eu quero passar nesse álbum.”

[Extravagância e Perfume]

“O título é Extravagância e Perfume porque as batidas que eu estava fazendo traziam bastante extravagância, e o perfume é uma conexão com a natureza. Até com a maconha e tal, mas não quero deixar isso explícito. Mas saca? Um perfume é algo natural que se extrai da natureza, algo extravagante, algo bonito. Diferente do Mal dos Trópikos que trazia a palavra ‘mal’ no nome. Que algumas letras falavam umas paradas diferentes… Nesse álbum eu tentei trazer algo mais bonito.”

[Apanhar o passo]

“Eu sempre estive correndo atrás do tempo para conseguir passar para o público algo realmente actual, que coincidisse com o que eu ando pensando, o que me anda motivando. Esse álbum tem bastante disso. A maioria das músicas eu fiz o ano passado e a última faixa já fiz este ano. Enquanto eu não terminava o álbum eu vim lançado uns singles com o Beli Remour, quatro músicas bem diferentes das músicas do álbum. Então enquanto eu não conseguia finalizar o trabalho eu ia actualizando com esses singles. Todos diferentes e todos com uma vibe totalmente diferente do álbum mas todos coincidem já com o que eu ando pensando.”


Núria Rito Pinto

Núria Rito Pinto

Hip hop, r&b e brasilidades com tanta moderação quanto vontade. Fundou o clube de fãs da “Corda” do Boss AC, já comprou CDs pela capa e preferia comer douradinhos frios todos os dias do que ficar sem Spotify.
Núria Rito Pinto