A Casa de Natal dos Montanhas Azuis na Culturgest: devolver a humanidade ao plástico

[TEXTO] Vasco Completo [FOTOS] Vera Marmelo

Talvez um dos maiores problemas que um grupo enfrenta quando repete uma sala é a inevitável comparação entre os dois concertos, ainda para mais quando acontecem com meses de diferença. Para quem apanhou a apresentação de Ilha de Plástico na Culturgest, em Fevereiro, na altura com os visuais de Pedro Maia, provavelmente viu um dos grandes concertos de 2019.

Como tal, as expectativas eram altas para esta segunda ronda dos Montanhas Azuis. A sala não estava tão cheia como na primeira vez, mas o entusiasmo estava lá. Sorte para aqueles que não perderam este concerto que era, afinal, irrepetível.

Revistas as promessas para a Casa de Natal — os novos arranjos, as faixas inéditas, o cenário idealizado por José Álvaro Correia e os convidados apareciam à cabeça –, era impossível não ficar com água na boca para este regresso. E a formação com estes novos instrumentistas pode ter provado um par de coisas.

O abrir da cortina deu-se com a introdução do álbum de estreia da banda, apresentando-nos um formato e disposição em palco semelhante àquilo que tínhamos vistos há alguns meses: Norberto Lobo à esquerda, Bruno Pernadas ao centro e Marco Franco à direita. Durante o espectáculo, só os dois primeiros trocaram de posição; Marco Franco, além de principal compositor do grupo, assumiu o posicionamento de um maestro em palco, o que não significa que não existe espaço para improvisação: na hora de tomar as decisões todos vão-se apercebendo daquilo que as músicas pedem, mas, neste caso, Marco foi o músico que se chegou mais vezes à frente na altura de organizar as faixas.

O lado humano da faixa homónima apareceu em força nas harmonizações por cima do instrumental de Mariana Dionísio e Leonor Arnaut, fazendo-se também sentir na percussão electrónica de Tomás Franco de Sousa e o baixo de Ana Araújo. Uma versão mais próxima de electrónica chillout downtempo.

Depois de “Faz Faz”, altura para receber as duas primeiras prendas (aka inéditos) da noite: 1) uma composição de electrónica jazzística que podia muito bem estar num qualquer jogo japonês — e espaço para um fantástico solo de sintetizador de Ana Araújo; 2) um tema paisagístico e contemplativo, e mais semelhante ao que foi feito no primeiro disco, que nos trouxe mais um momento a solo digno de nota, mas desta vez de Pernadas.

Primeiro feedback: nota-se logo a diferença de ter mais músicos em jogo, visto que os novos sons são menos contidos, mais ritmados e com camadas que só acrescentam positivamente.



De volta ao formato trio e a Ilha de Plástico, ouvimos “Sururu”, mais alongada e emocional; “Nuvem de Porcelana”, ligada à anterior, mostrou-se com instrumentação renovada, numa versão que nos remete para o “quarto mundo” de Jon Hassell. E Norberto Lobo, um músico criativo, independentemente do instrumento que tem nas suas mãos, soltou-se na guitarra para um improviso que foi também uma lição de liberdade.

Mariana e Leonor regressaram para “Flor de Montanha” e o calor humano voltou com elas, adicionando preciosas harmonizações a uma das faixas mais contemplativas e oníricas do trabalho do grupo.

Quando se voltou para o novo material, as intervenções de Ana Araújo e de Tomás Sousa foram sinónimo de carga necessária, a prova que a escolha dos arranjos foram certeiros. Junte-se isso a uma maior regularidade nos loops e beats mais possantes e temos uma quase inevitável dança natalícia.

Algumas passagens, ao contrário do que se sentiu no primeiro concerto, lembrariam sem dificuldade o trabalho individual dos músicos: em momentos associaríamos a Estrela de Norberto Lobo, noutros a qualquer espectáculo ao vivo de Bruno Pernadas. E uma jam à la Pink Floyd comprovaria-a que a maior energia, ou menor contenção, garantiria espaço noutro tipo de salas.

Os novos intervenientes tiveram a sua dose de protagonismo: Ana Araújo, no piano, deu mote para “Duas Ilhas” e, de seguida, em mais um inédito, solou com Pernadas e criou uma harmonia sentimental e bem-conseguida.

A partir daí, o septeto manteve-se num registo contido em ritmo de valsa. Timbricamente menos experimental, mas harmonicamente mais jazzístico: assim poderíamos definir esta introdução à nova fase dos Montanhas Azuis.

Aquilo que parecia uma versão frenética e corrida de “Dezanove Acordes”, com mais improvisação implícita, começou a dar indícios de que nos aproximávamos do fim do concerto. “Coral de Recife” e “Marianas” foram as coordenadas musicais (e finais) para nos afastarmos da Terra e irmos em direcção ao espaço, deixando a ilha e as montanhas para trás.

Enquanto no princípio ficou-se com a ligeira sensação de que a adição de instrumentistas poderia tirar alguma coesão ao grupo, a conclusão encaminhava-nos para o caminho contrário: este “modelo” deu um carácter único, emocionante e humano à música dos Montanhas Azuis. É uma pena que provavelmente não se repita, mas, lá está, o efémero também tem qualquer coisa de belo, não é?


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