7 momentos-chave no percurso musical de Earl Sweatshirt

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTO] Direitos Reservados

 

 

“Não é que odeie o meu passado [mas] acabei de encontrar um nome que me faz rir ainda mais do que Earl Sweatshirt faz”. Esta foi a explicação que Earl nos deu na sua conta oficial do Twitter a 30 de Junho para o post que tinha feito minutos antes para anunciar aos seus seguidores que iria mudar o seu nome artístico quando voltasse a lançar novo material. Desde então, Earl tem somado alguns novos temas, seja de forma oficial ou devido a leaks que vão aparecendo na internet. Só nas últimas horas foram três os temas divulgados na conta de important_man464 – será este o nome que tantas gargalhadas causa a Earl? Seja como for, deste lado há uma legião enorme de seguidores atentos e sedentos por nova música do jovem de Los Angeles, seja com que nome for que a decida assinar. Para podermos entrar ainda mais no espírito e na mente de Thebe Kgositsile – nome de nascença do rapper e produtor do (ainda?) colectivo Odd Future – e antecipar aquilo que o futuro nos reserva, vamos viajar pela sua curta carreira de modo a identificar os pontos altos do seu trajecto musical que o confirmam como um dos MCs e produtores mais influentes do hip hop na presente década.

 


 

[SLY TENDENCIES] Kitchen Cutlery mixtape
(Kitchen Cutlery, self released)

Foi em 2008 que a música de Earl surgiu na internet. Na altura o rapper encontrava-se a estudar no 9º ano e teria 14 ou 15 anos. O MySpace era a plataforma preferida dos músicos emergentes dessa época e foi lá que Thebe deu os seus primeiros passos.

A primeira compilação de temas do rapper foi Kitchen Cutlery. Uma breve mixtape que deixa bem delineado o tipo de rap que Earl se iria propor a desenvolver. Rastos de pensamentos desconcertantes vindos da cabeça de um jovem que cedo se deixou seduzir pela vida de rua: da violência às drogas, do skate aos actos de vandalismo com os amigos. Nas letras podemos ouvir com frequência alguns avisos por parte de Thebe em que garante que irá rapidamente escalar até ao topo das listas de melhores MCs. Outra nota importante é a clara influência de MF Doom, a quem Earl ‘rouba’ alguns dos beats da mixtape. Algo que já não acontece nos dias de hoje dado o reconhecimento que Doom atribui ao trabalho desenvolvido por Earl, tendo mesmo já partilhado um tema – Between Villians – e mostrado interesse em conhecê-lo pessoalmente. Podendo isto significar até que Doom e Earl possam um dia destes partilhar um mesmo álbum num muito desejado projecto colaborativo. É manter os dedos cruzados…

 


 

[TYLER, THE CREATOR FEAT. EARL SWEATSHIRT] “AssMilk (Prod. Tyler, The Creator)”
(Bastard, Odd Future)

Este é o tema que dá inicio à jornada de Earl junto dos companheiros do colectivo Odd Future. Em 2009, Tyler descobre o MySpace de Sly Tendencies e rapidamente se apercebe do talento em bruto que fervilhava naquele cantinho da internet. Enquanto Sly – que alterou o nome para Earl Sweatshirt nesse mesmo ano – se dedicava exclusivamente ao rap, Tyler estava num patamar superior no sentido em que se apresentava como um jovem de grande potencial e multifacetado – é rapper, produtor, realizador… Foi graças a todos esses ingredientes que a Odd Future ganhou vida e, consequentemente, o devido mediatismo graças à qualidade da música de Tyler e Earl que se apresentava sob a forma de um rap completamente desconcertante e fora da caixa marcado por rastos macabros de violência e conteúdo sexual explícito.

O tema “AssMilk” marcou a primeira aparição de Earl enquanto membro do colectivo OFWGKTA e logo na mixtape de estreia do seu mentor. Os dois combinam de forma perfeita, sendo que neste inicio de carreira poderíamos quase prever que ambos iriam ter um percurso semelhante. É caso para dizer que Earl foi descoberto pela pessoa certa no momento certo.

 


 

[EARL SWEATSHIRT] “Earl (Prod. Tyler, The Creator)”
(Earl, Odd Future)

Em 2010, Earl Sweatshirt lança a sua primeira mixtape pela Odd Future de onde nasce o seu primeiro single a solo que até mereceu o correspondente videoclipe. “Earl” é o tema escolhido para representar o projecto e é dos temas que mais se assemelha à sonoridade que Thebe haveria de explorar no futuro. Um beat completamente fora do comum marcado pelas bombadas disparadas pelos graves com muita distorção à mistura. A combinar com as suas letras cada vez mais explicitas e violentas, onde sobressaem temas como religião, sexo, drogas e uma grande dose de egofreak. Earl deu também continuação aos desacatos iniciados por Tyler contra o 2DopeBoyz e o NahRight por não apostarem em jovens talentosos que estavam a mudar os paradigmas do rap. Desacatos esses que ajudaram também na promoção do trabalho dos Odd Future ao fazer abrir os horizontes de quem seguia essas plataformas que rapidamente entenderam que estes miúdos não estavam apenas a fazer birra mas sim a tentar inaugurar novos caminhos para a exploração de um hip hop mais electrónico, sujo e moderno.

É ainda de salientar que este projecto de Earl Sweatshirt foi colocado em várias listas de melhores trabalhos desse mesmo ano por publicações de renome como a Pitchfork ou a Complex.

 


 

[ODD FUTURE] “Oldie (Prod. Tyler, The Creator)”
(The OF Tape Vol. 2, Odd Future)

Free my nigga Earl, yo, I don’t really ask for much“. A frase com que Left Brain termina o seu verso neste posse cut dos Odd Future acaba por ser o espírito que se sentiu no seio da editora nos momentos que sucederam ao lançamento da mixtape Earl. Apesar do sucesso que o rapper de Los Angeles alcançou num curto espaço de tempo, viu-se obrigado pela sua mãe a afastar-se da vida que levava nos Estados Unidos com o ingresso numa escola de correcção e reabilitação na Samoa. No meio deste processo, Earl teve de se afastar dos colegas da Odd Future e deixou de ter possibilidades de fazer música. Contudo, a editora aproveitou a sua ausência para ir lançando algum do seu material que estava guardado na gaveta para dar continuação ao bom momento que Thebe vivia no seio do hip hop.

Durante a sua estadia na escola de correcção, Earl aproveitou para escrever a maioria dos versos presentes neste tema que fez parte da segunda compilação da Odd Future, em que, juntamente com Tyler, assumiu o protagonismo assinando boa parte dos versos do single. Nesta fase, Earl Sweatshirt fala por alto de alguns dos seus problemas relacionados com a dependência de substâncias e refere que depois de regressar da Samoa se encontra limpo. Chega mesmo a fazer disso um embaraço para os outros rappers que só conseguem ter inspiração através das drogas. “So that sterile piss Flow remind these niggas where embarrassed is”.

 


 

[EARL SWEATSHIRT] “Chum” (Prod. randomblackdude & Christian Rich)
(Doris, Columbia)

No tempo em que Earl se encontrou ausente, os restantes membros da Odd Future estiveram ocupados a editar material novo a um bom ritmo. O que ajudou a que a editora estabelecesse o seu próprio circuito alternativo e se afirmasse enquanto distribuidora de bom material discográfico. O talento de cada um daqueles jovens contribuiu para gerar um solo cada vez mais fértil no seio da editora. Todos tinham trabalho, todos tinham retorno e, rapidamente recolheram o devido reconhecimento por parte da industria e de outros músicos já estabelecidos no meio.

O afastamento de Earl fez com que à sua chegada estivessem ao seu dispor ainda maiores condições do que aquelas que existiam quando se juntou ao colectivo. Isso abriu-lhe as portas a um bom número de convites para participações que iam colocando o nome dele cada vez mais nas bocas do hip hop. The Alchemist, Flying Lotus e MF Doom foram algumas das figuras que abraçaram o rap de Earl, que também conseguiu várias parcerias de sucesso com outros newcomers tanto dentro como fora da OFWGKTA – Action Bronson, Vince Staples, Mac Miller, Domo Genesis, MellowHype, Frank Ocean e, claro, Tyler – todos beneficiaram da sua colaboração.

Em 2013, Earl lança Doris, álbum que fica marcado pelo enorme reconhecimento que lhe foi atribuído e, também, pela afirmação do rapper como produtor – sob o nome de randomblackdude – algo que não aconteceu em projectos anteriores. Em Doris, Earl assume a produção de sete dos quinze temas do alinhamento, mas também beneficiou do talento de outros beatmakers de peso como Pharrel Williams ou RZA e ainda recebeu ajuda de Christian Rich, BadBadNotGood, Frank Ocean e Tyler, The Creator. O álbum teve um grande impacto e não passou ao lado das grandes publicações de música, merecendo boas pontuações no The Guardian, Rolling Stone ou Spin, e atingindo mesmo o quinto lugar numa tabela de referênca da Billboard.

 


 

[EARL SWEATSHIRT] “Grief (Prod. randomblackdude)”
(I Don’t Like Shit, I Don’t Go Outside, Columbia)

Thebe Kgositsile tem mergulhado na escuridão sónica fase após fase. Como se estivesse a fechar-se num casulo onde trabalha arduamente para alcançar o tipo de som e mensagem que quer transmitir cada vez com mais urgência. Talvez por isso nos pareça mais distante, evitando, talvez, as luzes da ribalta para que possa estar no seu canto a explorar a depressão através do som.

Os tempos que se seguiram após o lançamento de Doris trouxeram mais algumas novidades. Ainda assim, nota-se a quebra de ritmo de Earl se compararmos com o seu output de anos anteriores. Algo que não o deixou desposicionado no panorama hip hop, já que todo o mundo parou para ouvir I Don’t Like Shit, I Don’t Go Outside em 2015. Mas a névoa que cobre Earl neste seu último registo foi uma faca de dois gumes. Se por um lado muitos lhe continuaram a reconhecer o lado de génio, houve também uma boa parte de ouvintes que já não conseguiu encontrar ali nada de novo ou que já não arriscou em navegar em ambientes tão sombrios. A verdade é que o álbum foi curto e não desvendou todo o potencial que Thebe conseguiu provar ter nos registos anteriores.

 


 

[EARL SWEATSHIRT] Live @ The Observatory

A promoção deste último registo não durou muito, contando apenas com dois singles e com Earl a demorar pouco tempo até revelar temas novos nas suas actuações ao vivo. Agora, como noticiou o Rimas e Batidas, chega a vez da internet receber também a sua dose de novidades. Para isso Earl lançou três novos temas. Entrtanto, ontem foi o dia de Kanye West anunciar uma colaboração com o jovem de Los Angeles que assim marca presença em WAVES juntamente com Chance The Rapper, como também noticiámos aqui. É igualmente provável que ainda este ano regresse às edições para se estrear com o novo alter-ego que anunciou no Twitter.

Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
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