7 Dias, 7 Vídeos

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Era digital, informação à velocidade da luz. Vídeos e músicas a soçobrar pelas plataformas virtuais. Novidades emaranhadas entre si, confusão sónica, sentidos desorientados. Quem nos guia? Por onde vamos? Para onde vamos?

7 Dias, 7 Vídeos é o resgate audiovisual semanal no terreno do hip hop. Filtragem de qualidade, barreira contra a poeira que nos cega com tanto novo, com tanto por onde espreitar e escutar.

 


 

[DESPOT] “House of Bricks”

O projecto de longa duração de estreia do rapper de Queens tarda em sair. Mas nem tudo é mau. Enquanto Despot continua a trabalhar no álbum aproveita, também, para se estrear noutros campos, neste caso o seu primeiro videoclipe. Toda esta mescla se torna bastante curiosa quando temos como produtor uma metade dos Ratatat, Evan Mast, e um conjunto de imagens cheio de elementos pessoais do MC, entre eles o apartamento em que viveu em criança, os seus pais, o irmão e até a sua iguana. O ambiente é descontraído, podemos mesmo ver o pai numa espécie de yoga ou a sua mãe a fumar charros, por exemplo. Aguardamos mais um tempo pelo álbum, que, por este tema, será de fusão entre hip hop e a pop com elementos de electrónica experimental bem vincados.

 


 

[THE`VE] “Visions”

Chicago mostra-nos, mais uma vez, que o seu terreno continua fértil no que toca a novas sonoridades. A dupla prepara-se para editar o EP de estreia A Dream Occurred já no mês de Setembro e este single é de deixar água na boca. Uma mente que procura o seu fio condutor por entre as directrizes do R&B com sonoridade bem renovada e um piscar de olhos a Flying Lotus no que toca à construção do instrumental. Início em tom de balada com súbita explosão rítmica na qual o vocalista Sam Trumpet mergulha, afogando-se em reverbs, murmurando palavras de desespero. “I’m in need of a lifeline”, perdido em visões que nunca a chegam a ser mais do que isso.

 


 

[SLUM VILLAGE FEAT. BILAL & ILLA J] “Love Is”

Vamos falar de amor, é fantástico segundo eles. Os veteranos de Detroit trazem-nos uma malha muito ao estilo dos anos 90, pertencente ao mais recente YES!, projecto que ganhou mediatismo não só pelos anos de casa do grupo mas principalmente pela inclusão de instrumentais do já falecido J Dilla, que têm sempre um brilho especial. A voz inconfundível de Bilal faz a ponte no refrão entre os vários MCs, onde também podemos contar com Illa J para fechar o tema. É impossível ficar indiferente ao groove do beat de J Dilla, quase que o imaginamos a abanar a cabeça enquanto pressiona o pads da sua MPC ao ritmo da linha de baixo.

 


 

[PHASE ONE] “Angeless Man”

O rapper do Bronx explora as sonoridades de um instrumental que podia muito bem ter sido retirado do último álbum de Kendrick Lamar, produzido por Dub Z. Ritmos e linhas de um jazz muito tropical, quase a descair no samba. O flow de Phase One mostra-nos um novo caminho pelas vielas sonoras de Nova Iorque, num vídeo a preto e branco, a fazer lembrar, juntamente com toda a envolvência do som, um club de jazz nos seus anos 60, com toda a correria rítmica de uma época que conheceu novas tendências musicais por culpa das direcções que o jazz conheceu em Cuba e no Brasil. Tudo isto a fechar com um egotrip final bastante agressivo, bem ao jeito de Bronx.

 


 

[THUNDERCAT] “Them Changes”

Uma linha de baixo deliciosa programada em loop de dois compassos. Bateria seca a marcar os tempos fortes e samurais a lutar à nossa frente. G-funk moderno misturado com acid jazz de uma galáxia bem distante da nossa. Podemos encontrar aqui elos de ligação entre material do Nate Dogg, Kool & The Gang, Bee Gees ou até mesmo Jamiroquai. Toda uma herança da música afro americana neste slow que Thundercat nos proporciona. Flying Lotus também entra na festa ao comando das teclas bem ao sabor da West Coast. Tem ainda um interlúdio, numa bonita fusão entre a voz e as teclas que nos faz subir ao céu, antes de voltarmos uma vez mais a dançar ao som do baixo. É de nos deixarmos perder por uns minutos e entrar na onda. O EP já cá anda fora, The Beyond / Where the Giants Roam, encontra-se disponível em várias lojas online.

 


 

[HOPSIN] “The Pound”

Hopsin regressa com um novo álbum e lança ao mesmo tempo mais um single. A diferença é enorme para o anterior tema “Fly”, uma espécie de regresso à origem onde se mostra agressivo como nunca, capaz de afastar a concorrência com estes versos venenosos de egotrip. Registo de vídeo bastante macabro, também nessa área encontramos registos do calibre da saga “Ill Mind of Hopsin”. Intro paranoica que nos seduz para querer espreitar o resto do álbum. Ambiente futurista que nos permite explorar as palavras e sons de outra forma.

 


 

[OCEAN WISDOM (EXCLUSIVE BARS)]

Máquina do flow. Um (grande) aperitivo para o álbum que se avizinha. As barras são de um dos temas cujo titulo é ainda desconhecido e que fará parte do projecto Chaos 93 e é produzida pelo Dirty Dike. O material que temos em mão chega a ser quase chocante, pela possibilidade de dizer tantas palavras em 1001 flows diferentes, a velocidades que muitos invejam e a proeza de o fazer num take sem parar para respirar e sempre com uma dicção muito clara. Fazem-se soar frases de introspecção, carregadas de dor e emoção entrelaçando-se na tristeza da linha melódica do instrumental. Grande respeito por esta actuação.

Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
Gonçalo Oliveira