Diz-me com quem andas nos fones, dir-te-ei quem és. A frase aplica-se a muitos artistas, que facilmente deixam transparecer quais as suas referências na hora de criar a sua própria arte. Holly Hood é um dos raros casos em que se torna difícil de decifrar qual a origem das suas barras — de onde vêm os seus esquemas de rimas, os seus fundamentos técnicos, o tipo de mensagens que procura passar ou os imaginários que ergue aos nossos ouvidos.
Ao terceiro dia de uma semana em que foi convidado para assumir o cargo de editor honorário no Rimas e Batidas — após de um par de ensaios escritos pelo próprio, primeiro sobre o seu mais recente álbum Opressionismo, depois sobre os momentos e locais que deixaram marca durante a sua carreira —, o artista teceu uma lista com os cinco MCs que mais inspiraram a sua caneta, deixando algumas notas sobre o que cada um deles representa no seu ADN musical, complementadas com algum background oferecido pela nossa redacção.
Entre escolhas mais óbvias e outras não tão expectáveis, eis os cinco rappers que Holly Hood considera terem sido mais importantes durante a sua fase de aprendizagem no game.
[Big L] “Punchlines e wordplay com frieza”
Em tempos, Big L era menção frequente nos “manuais escolares” do rap. Embora hoje já seja um nome um pouco ou tanto obscuro, Holly Hood pertence a uma das últimas gerações de artistas que ainda testemunharam a perícia daquele que muitas vezes era considerado como sendo “o rapper favorito do teu rapper favorito”. Apesar da carreira efémera — morreu em 1999 com apenas 24 anos —, Big L era reconhecido pela sua técnica e flow cirúrgicos, que se traduziam numa capacidade fora do normal para esculpir rimas das mais variadas formas. Esses malabarismos, aliados à constante preocupação de manter uma mensagem presente nos seus versos, fizeram dele o exemplo perfeito de alguém que ainda carregava uma certa tocha do sabor oldschool até já perto do virar do milénio. O homem nascido Lamont Coleman era nata da nata da escola de Nova Iorque e qualquer MC que alguma vez se tenha cruzado com o seu trabalho acaba sempre por sentir a necessidade de elevar a fasquia do seu próprio wordplay depois de descobrir a forma mágica com que as palavras que lhe saiam da boca rimavam. Curiosamente, ainda há bem pouco tempo o seu legado foi trazido novamente à ribalda pelo não menos importante Nas, que através da sua Mass Appeal Records selou o disco póstumo Harlem’s Finest: Return Of The King.
[Sam The Kid] “Uma referência em Portugal. Ter muita qualidade nas rimas e ainda ter o ouvido de produtor é especial”
Há claramente um antes e depois de Sam The Kid no movimento hip hop nacional. Numa altura ainda prematura da implantação desta cultura no nosso país, o eterno miúdo de Chelas foi responsável por abrir uma caixa de Pandora que obrigou tudo e todos a puxar dos galões para manter a frescura. E, tal como bem lembra Holly Hood, deixou marca em dois campos distintos — o do MCing e o da produção —, algo muito raro num artista seja ele de que género musical for. Samuel Mira trouxe jogos de rimas intricados, aumentou drasticamente o vocabulário do rap tuga ao trazer palavreados menos comuns e solidificou o papel da mensagem numa altura em que a aleatoriedade do egotrip ameaçava tornar-se padrão, sagrando-se ainda num dos melhores storytellers de que temos memória — “O Recado”, “16-12-95”, “Sexta-feira”… Na produção, dizer que foi uma espécie de J Dilla português — pela forma como obrigou o público a encarar os beats de hip hop como arte válida e não um mero manifesto sonoro marginal — é suficiente para retratar a sua importância. Mesmo que inconscientemente, quase toda a gente que nutre o mínimo de respeito pela língua portuguesa tem um pouco de Sam The Kid dentro de si. É fácil deixarmo-nos inspirar pela sua arte; difícil é fazer algo inspirado nele mas sem soar a uma cópia. A misturadora de Holly Hood funciona às mil maravilhas nesse sentido.
[Eminem] “Obsessão pela técnica: esquemas de rima complexos, multies, ritmo e articulação ao milímetro, sem perder intensidade”
A escolha da palavra “obsessão” por Holly Hood certamente não terá sido feita ao acaso e é, nos dias de hoje, um ingrediente que parece faltar a muito do rap que se vai fazendo tanto dentro como fora de Portugal. Não era fácil ser artista e ter de competir pelo spotlight numa altura em que Eminem estava na sua melhor forma e isso certamente que obrigou muitos MCs a terem de correr o dobro na hora de escrever os seus versos. Pode ser debatível a sua eleição como o melhor rapper da história, mas não há margem para dúvidas que merece estar presente em qualquer top 5 que se preze. Aquele seu pico inicial de onde surgiram The Slim Shady LP (1999), The Marshall Mathers LP (2000) e The Eminem Show (2002) é inegavelmente uma das melhores jornadas discográficas na história do hip hop e são todas obras com pontos de contacto mais directos com o repertório de Holly Hood: a tal “obsessão” por dar a melhor rima de sempre a cada faixa e também o universo mais sombrio em que a sua arte habita, mostrando que, muitas vezes, é das mentes mais inquietas e dos momentos de menor sanidade que a criatividade mais fervilha, como magma a ameaçar ser expelido e romper com a fase de dormência de um grande vulcão.
[Valete] “Rap como intervenção, política e consciência”
Mesmo não tendo o maior jogo de cintura no que diz respeito a tocar em temas sensíveis com as suas rimas, como a intervenção social ou política, Holly Hood não nega a influência dessa vertente de rap que Valete tão bem tem representado ao longo da história. Ainda assim, podemos detectar laivos de Viris em canções mais primordiais da jornada do rapper da Linha da Azambuja, como “Cartas da Justiça” ou “Panorama” (ambas de O Dread Que Matou Golias), em que nos pinta os quadros a preto e branco daquilo que as ruas ao seu redor mostram, muito à semelhança do que Valete fez em “Subúrbios” ou “À Noite”. Mas apesar dessa imagem atribuída ao autor do clássico Serviço Público, o rap consciente nunca foi a única arma do seu arsenal: Valete também é sinónimo de egotrip (“Pseudo MC’s”), storytelling (“Roleta Russa”) e de uma técnica apuradíssima que já lhe permitiu alcançar faixas mais lúdicas como “Hall Of Fame” ou “Duplo Sentido”. Tudo isto junto já dá uma bela espinha dorsal na qual a arte de Holly Hood também encaixa bem.
[Big Pun] “Densidade de rimas única (internas/multissilábicas) e flow rápido com presença de gigante”
Tal como Big L, Big Pun foi outro grande que partiu cedo de mais e não tem o reconhecimento que merece nos dias que correm. Pensem assim: se a carreira de Fat Joe chegou onde chegou, o maior responsável foi o homem chamado Christopher Lee Rios, que “obrigou” o colega a dar o máximo de si para o conseguir apanhar na forma endiabrada com que incendiava microfones com rimas precisas, que conseguiam ligar-se tanto às ruas (“Beware”, “Boomerang”…) como almejar o sucesso nas camadas mainstream com aquela visão radio friendly apurada que lhe rendeu o seu mais icónico single “Still Not a Player”, um tema que também ajudou a definir a wave R&B daquela época — 1998, com o álbum Capital Punishment. Também Holly Hood tem sido hábil a transitar entre territórios marginais e outros mais amigáveis para o comum dos ouvintes, mas aquilo que mais herda do “castigador” nova-iorquino é, sem dúvida, a sua habilidade para fazer ginástica com versos. Não nos despedimos sem apontar a “Twinz”, a faixa em que Big Pun e Fat Joe protagonizaram um dos featurings mais letais da era dourada do hip hop, pedindo emprestada uma batida que já tinha sido “morta” por Dr. Dre e Snoop Dogg. Uma jogada arriscada que facilmente seria ignorada se dessem um passo em falso, mas que acabou por conseguir rivalizar (e muito bem) com o original, ao ponto de o próprio Snoop Dogg se ter dado ao trabalho de atravessar a América inteira rumo à costa oposta para dar o seu selo de aprovação ao par com um cameo no videoclipe.