15 anos depois, MF DOOM recorda o processo de criação de Madvillainy em nova entrevista

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTO] Direitos Reservados

Se pensarmos em álbuns clássicos de hip hop do novo milénio, Madvillainy será um daqueles que mais rapidamente nos salta da língua e também um dos mais consensuais na discussão. O disco que juntou Madlib e MF DOOM — a mais icónica colaboração no extenso catálogo do produtor que se estreia em Portugal na próxima sexta-feira — celebrou o 15º aniversário no passado dia 23 de Março e, ontem, a Spin publicou uma raríssima entrevistacom o MC da máscara de ferro.

O Rimas e Batidas destaca algumas das passagens desta longa conversa (que deve ser lida na íntegra) com foco em três pontos, ingredientes cruciais na criação das 22 faixas que compõem Madvillainy.



[O espaço]

“Não era tão limitado quanto as pessoas possam pensar, tipo um quarto com uma mesa de mistura e nós a manuseá-la. Era bastante mais natural do que isso. Nós somos ambos produtores. Nós temos o nosso conjunto de equipamentos que usamos. O Madlib tem uma bateria e todo o tipo de merdas em casa. Nós ficámos numa casa grande e podíamos estar em qualquer parte da casa a fazer o que fazemos.”

“Havia uma divisão que nós chamávamos de abrigo anti-bombas. Não existiam janelas ali. Era tipo um abrigo anti-bombas a sério — se algo corresse mal, tu podias ir lá para baixo e ficavas bem. Era lá que tínhamos algum do material de gravação, onde nós gravávamos. Apenas íamos para lá quando chegava a altura de gravar. No resto do tempo eu estava a escrever pela casa, a ouvir o beat no alpendre ou dentro de um carro, a andar por aí. O estúdio era a casa inteira.”


[O processo]

“O Otis [Madlib] dava-me cassetes e CDs com beats, havia tipo uns 50 em cada. Alguns deles com dois minutos de duração, outros com um minuto de duração, mas havia sempre um monte deles.”

“Assim como eu estava a vir com ideias, ele ia ter mais música para eu ouvir. Enquanto eu estou a escrever, ele está noutra sala a terminar mais instrumentais. Mal eu termino de escrever um par de temas, fico tipo ‘yo, tens aí outro CD?’ Ele dá-me um fresco, acabado de gravar, com mais 50 malhas lá dentro. Vou ouvir mais 50 beats. Provavelmente isso iria demorar uns dois ou três dias. Apenas a ouvir os 50, para trás e para a frente, a sentir a cena, e depois ‘pow!’ No final, acabava com quatro músicas. Quatro ou cinco músicas resultavam daqueles 50 beats. Por isso, a cada 50 beats que ele me dava, eu tinha cinco canções.”

“O Otis tinha a produção concluída, por isso eu não mudava nada depois de ele me dar a beat tape. Ele dava-me os beats já feitos e eu escrevia à volta deles. Até mesmo os refrões, os cortes, os samples, estavam todos lá. O ‘America’s Most Blunted’ já tinha lá o sample. Eu tinha de escrever à volta do que já existia e ainda assim fazer com que tivesse sentido. Era desafiante trabalhar com algo que já existia e ter de acrescentar algo que, ainda assim, fizesse aquilo soar natural.”

“É a música que guia o processo e as ideias surgem-me depois de eu ouvir aquilo que a música me está a dizer. Eu não invento a ideia primeiro.”


[As rimas]

“Sabes como no Scrabble tens aquela cena de triplicar os pontos de uma palavra? A forma como ganhas pontos, baseada em palavras e em como elas se correlacionam no tabuleiro? [Escrever rimas] é semelhante a fazer pontos, se quiseres levar a cena para outro nível.”

“Aquilo que eu vou procurar é a qualidade da palavra que rima: foneticamente, qual é o tom na pronunciação da palavra. Não interessa a língua — podes ser fluente em espanhol, árabe, tanto faz. Podes usar uma palavra árabe para rimar com uma espanhola e ter calão inglês lá pelo meio. Desde que a palavra rime, tu ganhas pontos por essa palavra. E as referências são outra forma de levar mais pontos para casa. Quantas referências consegues riscar e manter-te no tópico? E ainda assim rimam? Quanto mais complexo for o assunto e o wordplay, é dessa forma que tu ganhas os teus pontos.”

“Eu rimo, por isso vou atrás dos pontos. Não vou estar a falar sobre o gajo do lado, ou a gabar-me de merdas que tenho. Eu falo de merdas de pobre, falo de merdas que eu não tenho ou das cenas das quais tenho fome. É falares de um ponto-de-vista em que estás a falar para ti mesmo, talvez de maneira triste.”


Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
Gonçalo Oliveira

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