15 anos de Afrodisiac: o r&b do futuro que chegou pelas mãos de Brandy e Timbaland

[TEXTO] Pedro João Santos [FOTO] Direitos Reservados

Em Janeiro de 2013, seis anos antes de When I Get Home, o nome de Solange veio a terreiro por outras razões que não a sua música, e ainda assim era a sua música — designadamente, “deep Brandy album cuts“.

O enredo nasceu da discussão sobre Two Eleven, o regresso de um dos vultos do r&b noventista, quando se lapidou uma pedra-de-toque inexorável, vocal e sónica do género. Uma crítica do disco de Brandy, desenraizada e desprovida de contexto, foi o gatilho para que Solange rebelasse contra a miopia de algumas publicações: como submeter o estilo ao crivo único de um universo masculino, branco, indie de escritores, distantes de quem o viveu como algo transformativo, emulando a estética de Mariah Carey e Mary J. Blige, descobrindo salientes riscos nos CDs que impiedosamente ouviram de Janet Jackson e Aaliyah? Talvez a questão mais hábil: a que ponto estudaram estes nomes?

Essa é uma amostra do panteão de mulheres futuristas que comandaram o r&b, em que Brandy, saldando 14 anos ao entrar na indústria, foi admissão precoce. O seu saltitante disco de estreia data de 1993, depois de uma menina do Mississipi, discípula de Whitney Houston, conseguir impressionar a Atlantic Records com uma cassete de demos. A história é familiar, mas o disco não caiu nas areias do tempo nem sob o manto da juvenília. Não há nada de pueril no caramelo da sua voz em dulcíssimo pugilato com graves e baixos; fórmula que seria adensada ao longo dos anos, expandida no sucessor Never Say Never e encorpada em Full Moon (já de 2002).

Em ambos os discos, a produção assinada por Darkchild encapsula com arte e engenho o r&b noventista mais tardio: volátil, com desejos que pululavam no seu sabor digital — Full Moon, em particular, joga com electrónica mais obstinada —, resvalando ainda para uma acepção equívoca do r&b tout court, de fulgor mais doméstico, confortável. Álbuns que são documentos vitais e palpitantes e eventualmente lânguidos, sempre a exceder uma hora, temperados com uma pitada a mais de romance pálido. E, ainda assim, trabalhos na onda estratosférica de Destiny’s Child, com The Writing’s On the Wall, e a lendária Aaliyah com One in a Million e o seu derradeiro, enrubescido longa-duração de 2001.

Será válido o discurso externo sobre r&b, então, se vem de uma pena que desconhece uma obra como a de Brandy? Atenção: a referência à oponente de Monica em “The Boy Is Mine” (talvez a sua maior presença na Europa) não é metonímica, porque ela constitui um ponto nevrálgico da cena. Questões alternativas: seria válido opinar sobre shoegaze sem ter ouvido os Slowdive, pop tendo descartado Madonna, ou rap clássico sem ter estudado Nas?

Quando um crítico do The New York Times admoestou Solange, lembrando-a de “não morder a mão que a alimenta”, um justo reparo (uma semente da justiça e do arquivo que continua a executar hoje) expandiu-se em carta aberta: é favor não branquear o legado da negritude que a nutriu. A cisão definiu o rumo do monumental A Seat at the Table, e a autora deixou um recado: “Não se atrevam a pronunciar esse nome de seis letras sem entender o valor. A blasfémia…”

Estamos a falar da “Bíblia Vocal”, que herdou o epíteto ao provar que o valor da voz está tanto no seu alcance como na sua dotação natural, trabalhada, seja a vastidão de Whitney Houston ou Kim Burrell, ou uma janela mais exígua, como a de Brandy. É ela que consegue tons ricamente graves, roucos, a fluir para a delicada voz de cabeça; é seu o poder de compaginar harmonias sumptuosas com ad-libs que discorrem com a consistência de mel.

Pela primeira vez em algum tempo, parecia que ninguém sairia incólume de maldizer, ou ignorar, Brandy. Uma bem-vinda excrescência na estrada de dois pólos do reconhecimento da cantora: entre a invisibilidade fora (e ocasionalmente dentro) do circuito norte-americano, em que prolonga o seu reino sobre os devotos do estilo e pouco mais, e a hipérbole correctiva. É preciso fazer a triagem do que se encaixa na segunda — e, sejamos francos, a melhor: a página dedicada a expor celebridades que “copiam” Brandy (incluindo o Papa Francisco)? Infelizmente, só um momento humorístico. A profusão defensiva de Solange? Arquivo e justiça.

“Ela é verdadeiramente o alicerce de muito deste r&b inovador, progressivo, experimental”, continuou em 2016. Perguntem-lhes: “Frank Ocean di-lo-á, o Miguel di-lo-á” (e Rihanna, em 2007, fê-lo em hilariante discurso directo).

A longa refrega do r&b com o convencionalismo, na década de 90, chegou ao seu último estádio com os esforços da vanguarda em que Brandy foi força-motriz. Em 2004, apresentou a prova mais tangível disso. O seu quarto disco, descoberto a 28 de Junho de 2004, lançou-a na conclusão de uma longa escalada, compactando o arrojo definitivo do r&b com uma guinada a um experimentalismo fértil e intemporal. (E com samples desde Leon Ware e Iron Maiden até Hans Zimmer a Coldplay…)

Afrodisiac premiu os botões da ambiência, da inortodoxia e da coesão, como um tratado real do r&b definido pelas suas virtudes máximas, isentado de anacronismos, já anos-luz à frente da sua edição. Mas se é um disco numa linhagem futurista, não o faz a ler pela cartilha dos seus pares — a excepção é a suavidade elíptica de Aaliyah, cuja autora Brandy recorda na nona faixa como influência, na leve e historiográfica “Turn It Up”: “She’s more than a woman and we sure do miss her/ I wanna represent her”.

Se essa saudosa figura se guarda como porta-estandarte do futuro, Brandy devia ser menção obrigatória ao seu lado, e não só porque é vocalmente mais trabalhada (face à adaptabilidade sem atrito de Aaliyah). As condições reuniram-se para que continuasse a encabeçar este legado, elegendo como homem do leme, para o desagrado de Darkchild, aquela que foi possivelmente a melhor companhia de Aaliyah (“We Need a Resolution” ou “Hot Like Fire” serão prova bastante) e que cresceu na companhia de Missy Elliott, outra produtora central da era. Timbaland não teve créditos de produção executiva, mas é o claro co-protagonista desta trama, ao lado de quem Brandy assumiu as rédeas da produção vocal.

Se a cantora tem sido menos fiável na apreciação da própria obra (como atestou depois do lançamento deste álbum), o peculiar Timbo faz-se habitualmente juiz da própria causa: “That’s how you attack a king? You attack moi?”, afirmava perante o (mais que provado) caso de plágio que lhe foi imputado em 2006. Quando gravou com Brandy, estava prestes a firmar o seu jugo sobre a pop, antes da visibilidade apoteótica no seu trabalho em nome próprio — há que desempoeirar “The Way I Are” e “Give It to Me” — e a parceria com Justin Timberlake no inventivo FutureSex/LoveSounds. É realmente difícil culpar a sua intransigência quanto à posição régia que crê ocupar, enquanto esteta do r&b e do hip hop.



Há dúvidas? Basta deixar cair a agulha sobre a faixa-título de Afrodisiac e esperar pelo constante malabarismo de deslize sensual e reverberação dramática, outrossim um imaculado balanço; a percussão elástica entrecortada por violinos urgentes, num desenho supersónico inebriante, bafejado de personalidade. Um paroxismo permanente, de que tanto têm culpa no cartório o design de Timbo, como a ímpar manipulação vocal de e por Brandy, que desorienta — com prazer — de secção para secção, flutuando e desarmando pela escala, por vezes em simultâneo, desdobrando-se em vocalista de apoio a paredes meias com o seu próprio contraponto. O atordoamento é resolvido pelo mesmo hook simples que arranca a canção — “ha ha ha”, como o divertimento de quem sabe que nos tirou o tapete e está pronta para mais — mas, antes, mais uns segundos para gingar pelo gravítico groove do instrumental.

De início a fim, Afrodisiac é a vanguarda do r&b, consolidada em toada e verso. Na foz do metamorfismo de jovem adulta em Never Say Never e da propulsão da mulher emancipada de Full Moon, faz a volta completa ao romance: do fragor do primeiro embate até ao ciúme autofágico, da névoa eléctrica do futuro até à indefinição — os limites são testados, mas a substância não se erode.

“Who I Am” é o prólogo essencial, revestido de uma franqueza biográfica que Brandy não escreveu, mas apropriou naturalmente: um velho amor em remissão sinaliza tempo de prosseguir e de se reconstruir; a abordagem ao outro revela uma maturação longa, e que a música acompanha com astúcia. E, além de tudo soar a veludo e a futuro, sem se agarrar a uma matriz programática; a guitarra abrasadora da terna “Necessary” é um mundo isolado do de “Sadiddy”, que surge duas faixas antes, como uma resposta ameaçadora estruturada por palmas, doa a quem doer — e ambas fazem pleno sentido.

Escancarando a assertiva “Who Is She 2 U”, Timbaland faz a sua chamada casual — “g-g-get on down” —, a que Brandy atende para chefiar a acção. O que se sucede é uma composição impulsiva, de esqueleto firme: a batida implacável ressalta de parede em parede agarrando-se ao breve gancho de um piano veloz, cada milimétrico espaço livre tomado de assalto por uma Brandy expedita na sua impaciência, perto de abraçar o desespero.



Não obstante o perigo, a cantora não se dissolve em ninguém para além de si, e quando sente o perigo, regenera-se. “I Tried” e especialmente a quase hipnagógica “Focus”, diligentes no seu passo relaxado como terapia aural, mostram como a velocidade não faz dissipar o instinto de Brandy. “Come as You Are” enleia-se na máscara de um convite literal a um homem, mas o suspense tropical em surdina exige foco: a essência a descobrir é a de uma mulher consciente da sua evolução.



É a sua união artística com Timbaland que forma a identidade de Afrodisiac: o poder bicéfalo de traduzir uma amplitude emocional sem supressões. Dos sons metamórficos do produtor da Virgínia esperava-se o mesmo nível de performance da voz musculada que é a imagem do disco, e ambas as entregas aportaram numa só… até que divergiram. O que o estúdio une só fora dele se pode separar.

Os esforços promocionais podem tão facilmente ser um catalisador como uma interferência, e a editora de Brandy apostou na segunda vertente: “Talk About Our Love”, dueto com Kanye West e uma das faixas em que Timbaland não teve mão, foi seleccionado como single de apresentação. O tipo de lançamento que deveria simbolizar o conteúdo do álbum foi subvertido em prol da segurança de um êxito moderado e, por conseguinte, subverteu também o propósito sensível e ousado de Afrodisiac.

As expectativas dos envolvidos foram defraudadas: Timbaland ter-se-á dissociado até de falar do álbum — política que quebrou em 2015, de forma elogiosa, na sua autobiografia The Emperor of Sound (o título de soberano, bem… é o que lhe dá na cabeça, na verdade). Não foi o único: em 2012, Brandy (que em 2004 se mostrava entusiástica quanto à participação de West) negou à Complex o seu envolvimento da escolha do single: “Eu tinha criado uma energia e um laço criativos com o Timbaland. O que estávamos a tentar fazer com este disco era totalmente divergente [do single escolhido]”. A faixa-título e “Who Is She 2 U” tiveram pouco fôlego nas tabelas, na sequência de promoção deficitária, do cancelamento de uma digressão com Usher, e um ambiente de descrença geral, no triste amanhecer de um trabalho passional.

Quinze anos mais tarde, é claro como ecoa o seu retrato fidedigno da sexualidade e da emancipação no r&b. Em 2006, uma Nelly Furtado recém-libertada punha um ponto final à gravação de Loose, projecto concebido com um Timbaland ainda em operação “afrodisíaca”, mas com acrescido poder de catapulta para o domínio pop (“Say It Right” funciona como ilustração a todos os níveis), numa espécie de sequela espiritual. Ainda nesse ano, o perfume de Afrodisiac é adivinhado no desafio que trouxe a atitude de Cassie no seu disco de estreia — outro alvo de um culto recrudescente (que atraiu fãs na electrónica como Four Tet); a fragrância continua a pulverizar-se por Nao, na cadência e no talhe de “Trophy”, ou por Solange na franqueza de A Seat at the Table.

O disco chegou às prateleiras ciente do passado e com o futuro na mira. Sete anos se tinham volvido desde que Janet Jackson revolucionara no magistral The Velvet Rope a representação sexual e psíquica da mulher negra, e confundira as barreiras sónicas. Ainda estávamos a uma década de FKA twigs, Kelela, Frank Ocean e tantos outros artistas brilhantes serem postos sob o mesmo manto do “r&b alternativo”, até concentrarem esforços na implosão desse e doutros limites dentro do género. Brandy ergueu uma luz a um movimento que perdura, ao ousar ser sensual, honesta e viperina, apoiando-se em Timbaland como braço direito, para o veicular de forma áspera, suave, retumbante, sem limite. 15 anos depois, Afrodisiac faz ainda mais sentido, continuando a reflectir a capacidade endógena do r&b de ser, sem adendas nem adjectivos, experimentação pura. Absolutamente à prova de blasfémias.


ReB Team

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