#000000 chega ao grande ecrã: “É como se fosse ProfJam sem beat, sem rima obrigatória e sem auto-tune. Queres palavra? Toma palavra!”

[TEXTO] Alexandre Ribeiro [FOTO] Sara Falcão

Depois de #FFFFFF (branco), o #000000 (preto). ProfJam quis mostrar o contraste para o seu álbum de estreia e decidiu fazê-lo recorrendo ao grande ecrã: o Cinema Ideal, em Lisboa, e o Cinema Trindade, no Porto, recebem, a partir de hoje, o filme (com cerca de 30 minutos) que coloca Mário Cotrim em “modo actor”.

Numa sessão fechada para imprensa e amigos — Bridgetown, Think Music, 9 Miller e Papillon, entre outros, marcaram presença –, o rapper de Telheiras explicou, com nervoso miudinho, o que iríamos ver: uma reflexão solitária sobre o “cimo” e “o baixo”, a “esquerda” e a “direita”, “o Céu” e o “Inferno”, o “amor” e o “medo” ou a importância da “moral”.

Despachadas as apresentações, Rita Blanco, conhecida actriz da nossa praça, ficou responsável pela introdução desta peça audiovisual, uma forma de preparar o “posicionamento do cérebro” do espectador para aquilo que vai ver e derrubar a quarta parede, dirigindo-se directamente à plateia para, lá está, nos aproximar do artista.

Apesar de não ter saído no “modo escrita normal” com que faz canções, revelou o rapper, este monólogo surge inicialmente como uma “diss track ao Diabo” que se ia transformar numa “faixa só áudio”, mas que acabou por ganhar vida noutro formato. Felizmente, dizemos nós, já que esta “manifestação para outros paladares” é uma lição de spoken word com atitude free jazz a trocar-nos as voltas a cada nova linha e uma demonstração de técnica alicerçada apenas no ritmo interior do protagonista (e esqueçam a música). “É como se fosse ProfJam sem beat, sem rima obrigatória e sem auto-tune. Queres palavra? Toma palavra! Está aqui o bloco. [É uma] evolução artística nas técnicas, mas não no meu imaginário e no meu mundo”, elucidou-nos no pós-visionamento.

E acrescentou: “Sinto que às vezes não me andam a ouvir bem. É um sentimento que é meu, que é interno, não consigo bem partilhá-lo, mas sinto que às vezes descartam-me pela casca e eu estou a tentar dar o sumo. Não gostas da casca da laranja, mas eu não estou a dar-te a casca. Eu quero dar-te o sumo. Isto foi uma maneira de eu fazer um raw/uncut ProfJam, num certo modo. É uma cena em esteróides.”



O jorro de palavras (“uma cena que não quis controlar”) saiu na altura das eleições legislativas portuguesas do ano passado. Poucos dias depois, chegavam as notícias da sua hospitalização por causa de, palavras do próprio, “exageros/excessos”. Depois de sair do hospital, “já sóbrio e limpo”, voltou a pegar no texto, que estava “todo confuso” e editou-o “para ter uma espécie de estrutura”, o que no entanto não impede que seja “muito solto”, como pudemos comprovar.

Se os “excessos” o conduziram até a um sítio que não é recomendável, agora é hora de arranjar as ferramentas para não voltar a perder o controlo: “Nós somos seres com influência e poder aqui, e a nossa acção tem manifestações. Eu também quis relembrar isso. Se nós não tivéssemos poder, nem existiria a questão da direcção correcta. Só haver essa questão é a manifestação que existe. E, então, isto foi o que eu fiz: artilhar-me com métodos linguísticos para poder discernir onde é que estou a errar e a afastar-me da melhor versão de mim próprio.”

A performance de ProfJam serve o texto na perfeição, e o mesmo pode-se dizer da direcção de Leonor Alexandrino, a realizadora que o orientou nesta nova aventura e que nos desvendou um pouco sobre sua contribuição:

“O conceito-base já estava definido, fazer um spoken word, um monólogo, num teatro muito ao estilo de Mário Viegas, sendo essa a principal referência. A partir daqui e do texto que o Mário escreveu, eu comecei a construir uma lógica, criando vários momentos diferentes, tanto nas acções como no acting, alterando a postura e personalidade dele conforme o momento. No início podemos vê-lo um pouco mais ‘arrogante’ quando se dirige ao Diabo e no final vemo-lo confessar-se, humilde, a Deus. Outro elemento muito importante é o sound design que foi um trabalho conjunto meu, do Mário e do Rodrigo Gomes.

A performance do Mário nunca me preocupou muito porque já conhecia o seu trabalho, e o carisma e presença dele são bastante fortes. Acho que esse é um dos pontos fortes da curta. O mais complicado foi mesmo conseguir filmar tudo. Tivemos muito pouco tempo para filmar algo tão extenso e houve muita coisa que teve de ficar para trás. No meio da loucura foi o trabalho de equipa entre o Bernardo Infante, director de fotografia ,o Rodrigo Morais, assistente de realização, o Mário e eu que fez com que conseguíssemos filmar tudo.”

A escola “cotrínica” ganha uma nova cadeira com este novo investimento artístico e o professor (que é também o “eterno aluno”) está pronto para dar mais uma aula. O convite fica feito e a porta está aberta.