Zombi // The Zombi Anthology

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Os Zombi do baterista A.E. Paterra e do teclista Steve Moore foram simplesmente visionários. A presente antologia, relançada há um par de meses pela Relapse (saiu pela primeira vez em 2003 numa discreta edição da VCO), é a prova disso mesmo: reúne dois EPs de circulação originalmente muito limitada (e entretanto reeditados em vinil) lançados em 2001 e 2003, quase uma década antes do mundo ter redescoberto os Goblin e John Carpenter forçando ambos a sairem do espaço da memória e a reencontrarem o presente.

Foi a Relapse, etiqueta de metal, que acolheu os Zombi, facto curioso que no entanto não impediu que os ecos do trabalho desta dupla de Pittsburgh chegassem aos domínios Cosmic Disco em meados da década passada. O que, estranhamente, fez todo o sentido. A filiação estética dos Zombi é óbvia e aponta para as décadas de 1970 e 80 dos Van Halen, dos Tangerine Dream e, sobretudo, dos Goblin, grupo italiano especializado na criação de bandas sonoras para filmes de terror, como por exemplo Dawn of The Dead, o clássico de George A. Romero produzido por Dário Argento que foi rodado em Pittsburgh e que na Europa recebeu o título Zombi… Os sombrios teclados de Claudio Simonetti nos discos dos Goblin são provavelmente a mais forte influência no som dos Zombi. Não exactamente ao nível do estilo – o teclado de Simonetti assumia por vezes o papel que noutras bandas de rock progressivo era entregue às guitarras: ouça-se Profondo Rosso, por exemplo – mas antes ao nível das texturas. Nos Zombi os teclados são sempre planantes, mais devedores do som que John Carpenter explorava nas bandas sonoras dos seus filmes. Da discografia dos Goblin, Paterra e Moore subtraem essencialmente o peso, a densidade e a atmosfera.

Nestes dois EPs sente-se perfeitamente a origem e a base de um trabalho que entretanto levou Paterra e Moore muito para lá das apertadas margens que os Zombi propunham. É esse o caso de Steve Moore, sobretudo, com trabalho a solo publicado numa variedade de editoras: da Spectrum Spools à Death Waltz e daí à L.I.E.S. e até à Ghost Box… Paterra também não esteve propriamente quieto e com a identidade Majeure tem realizado abundante trabalho alimentado a sintetizadores. Ambos, Paterra e Moore, orientam ainda os destinos da fundamental editora de cassetes VCO, selo originalmente criado para precisamente reunir em CD os dois EPs originais dos Zombi.

Esta antologia surge por isso mesmo num momento ideal – com o universo erguido em torno da música de sintetizadores em constante expansão de edições é bom entender aquele que foi provavelmente um dos seus big bangs: música alimentada a ecos apreendidos em velhos VHS, nos discos dos Tangerine Dream que deveriam fazer da dupla Paterra/Moore os miúdos menos cool da escola numa era de manifestações grunge, e em ideias de futuro subtraídas ao lado mais ingénuo/romântico dos anos 80. Quase 15 anos depois, a música dos dois EPs inaugurais dos Zombi continua a soar urgente, alien, espacial e exploratória. Os desenvolvimentos do presente mantiveram-na actual. E esta poderá muito bem funcionar como digna porta de entrada para a já generosa discografia do duo e para todo um pantanoso terreno alimentado a constantes revisitações do catálogo de John Carpenter.

 

Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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