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Fotografia: Direitos Reservados

Educar e dançar enquanto sinónimos.

Zazim Soundsystem: “Fazemos música para dançar. E dançar é curar”

Fotografia: Direitos Reservados

A XXIII, editora de referência nas cenas de club e beatmaking a nível nacional, foi além-fronteiras para lançar um EP do colectivo de Glasgow Zazim Soundystem. O grupo, que orbita sob o núcleo formado pelo duo Rory Ma e VARDI, funciona de várias formas, desde banda ao vivo à produção. Embora tenham começado em Outubro de 2018, só este ano decidiram lançar o primeiro trabalho da sua discografia.

De facto, este EP é uma exploração bastante coerente das suas várias influências, que vão buscar do Oeste Africano à música tradicional Celta, com temperos de afrobeats, UK Bass e ainda percussão da América Latina. Os membros principais do grupo informam-se profundamente quanto às raízes e ideias que repescam, e tencionam juntar a música negra que respeitosamente juntam à tradição escocesa de origem. AYÉ – que significa “vida” em Yoruba e “sim” em escocês – é uma luminosa e optimista mescla destes estilos e culturas, um híbrido bem produzido entre o electrónico e o acústico. Para estes arranjos, além de Ben Vardi e Rory Comerford, o trabalho ainda conta com a participação de Ẹkuidà (Paul Shofolahan), Alan Hastie e Tom Campbell-Paine, que enriqueceram o trabalho com produção, vozes e flauta.

O Rimas e Batidas conversou por e-mail com o grupo sobre a criação do projecto, do primeiro EP e sobre a sonoridade tão global que compõe a música de Zazim Soundsystem.



Contem-nos um pouco sobre Zazim Soundsystem. Como começaram a trabalhar em conjunto?

Conhecemo-nos através de amigos em comum numa festa em Glasgow. O Ben estava a estudar produção de som e queria gravar a banda em que o Rory estava, que se chamava ICHI PINKS. A dinâmica de trabalho foi óptima e as faixas terminaram com um resultado muito bom. Começámos a sair, a fazer beats juntos e cresceu a partir daí. Nós também tocámos nessa altura num outfit de percussão e dança do Oeste de África, Ayawara, em conjunto com o nosso colaborador Paul (EKUIDA). Isso foi uma influência profunda, musical e socialmente. Lançámos Zazim em 2018.

Como começou a vossa relação com a XXIII? E porque fez sentido lançar AYÉ com uma editora portugesa?

Começou porque nós adoramos as músicas que eles lançam. O disco de 150 BPMS em particular foi um abre-olhos para nós. A ligação portuguesa dá-se graças à Internet. Nós adoramos ouvir kuduro, tarraxo, baile funk. Quando terminámos o EP, enviámos e-mails para uma carrada de editoras, incluindo a XXIII. Eles foram uns dos que gostaram, e a relação cresceu a partir daí.

A cultura de soundsystem deve ter sido certamente uma grande influência na realização deste projecto, podemos presumir. Quanto destas músicas foi concebido com os olhos na pista de dança?

A cultura de soundsystem tem sido uma grande influência. Fazemos música para dançar tanto quanto podemos. Dançar é curar. Ir ver artistas como Aba Shanti e Channel One mudou as nossas vidas e são grandes inspirações. A dimensão espiritual que existe naquilo que fazem é muito bonito. No entanto, temos reflectido muito sobre isto recentemente: que efeito estamos a ter como pessoas brancas a envolvermo-nos com a cultura negra? A forma como nós, pessoas brancas, usamos soundsystems está alinhada com os valores culturais mais profundos que estão nas origens dos soundsystems da cultura negra?

No que toca ao nosso envolvimento pessoal com a cultura soundsystem (de criar um sistema e organizar eventos), em reflexão, temos muitos “ângulos mortos culturais”, e isso tem sido prejudicial. Nós vemos que organizar eventos duma forma que nos parece normal, para nós, pessoas brancas, exclui pessoas de cor por defeito, pelo preconceito estrutural e racismo inconsciente. E como é que isto faz o dancefloor sentir se nós formos mesmo honestos connosco? O livro da Robin DiAngelo, White Fragility, tem sido muito importante para mudar perspectivas. Há um vídeo dela a falar online, muito útil, que se chama “Why ‘I’m not racist’ is only half of the story”.

Demoraram quase um ano e meio a lançar o EP, não é verdade? O que vos fez esperar este tempo para se apresentarem finalmente em disco?

Demorámos muito tempo para terminar música com a qual estivéssemos satisfeitos. Somos ambiciosos e temos padrões altos, expectativas altas. Não é sempre útil. Processos criativos precisam de ausência de crítica, por vezes, mas queríamos uma vibe forte. Alguém disse “nenhuma música se acaba, apenas é abandonada”, é por isso que se chama “lançamento”. Tu lanças esta coisa bonita e imperfeita, [que está fora] do teu controlo, para a deixar ter vida própria no mundo.

Este disco revela uma muito interessante, variada e geograficamente distinta combinação de influências. Como sentem que estas texturas sónicas globais do AYÉ reflectem a forma como vocês ouvem e produzem música?

O colonialismo e o racismo figuram aqui, como afectam os nossos desejos e aquilo por que nós, enquanto pessoas brancas, nos sentimos atraídos na era da Internet. É algo sobre o qual estamos a reflectir muito nestes tempos. Também algo com que estávamos relutantes para analisar com sinceridade no passado…

Se formos honestos, fomos definitivamente responsáveis ao interagirmos com o exotismo e apropriação no modo como nos relacionamos com música negra, por vezes inconsciente, por vezes conscientemente. A realidade é que nós estamos muito separados de culturas das quais estamos a retirar ideias, e o modo como as usamos reforça estruturas de poder pré-existentes: desigualdade de riqueza, exclusão cultural, silenciar os significados e contextos originais. Além disso, usar música negra como meio para subir a nossa posição económica ou social, ao mesmo tempo que não desmantelamos activamente as vantagens que temos automaticamente como brancos, fortalece as estruturas duma ordem social racista.

Tudo isto precisa duma mudança da nossa parte. Música club electrónica é música negra. Apropriação branca tornou-se a norma. Temos de mudar isso colectivamente. Temos de organizar como nos movemos em conjunto, sem prejudicarmos uns aos outros. Consentimento é chave nisto. Pedimos permissão para usar ideias musicais? Cultivamos relações autênticas através de linhas de privilégio?

Rodgers diz que “exploração cultural é a apropriação de elementos duma cultura subordinada por uma cultura dominante sem reciprocidade substantiva, permissão, compensação, compreensão ou apreciação”. Nós prejudicámos definitivamente pessoas que amamos. Consciência é crescimento, mas nós, pessoas brancas, precisamos de fazer melhor.

Não temos respostas definitivas sobre como seguir em frente com isto, mas educarmo-nos é um ponto de partida necessário. Aqui estão alguns recursos sobre whiteness, privilégio e apropriação que achámos úteis.

Embora trabalhem em duo, este EP acumula produção, vocais e também flautas de mais colaboradores. Porque trabalharam com o Ekuida, o Tom e o Alan neste disco? O que trouxeram eles para este pote musical?

Eles estiveram todos na banda a dada altura. Nós (Ben e Rory) somos os condutores por trás do projecto neste momento, mas tem-se transformado e mudado ao longo dos meses. O Ẹkuidà, o Tom e o Alan são todos músicos incríveis, que trazem riqueza, profundidade e técnicas que nós não temos. Isso torna a música melhor. O Ẹkuidà é um excelente performer. Ele tem imenso sentimento na forma como toca percussão e traz muita profundidade nas palavras e na voz. Ele foi fundamental no longo processo da produção deste EP. O Tom é um ás. Mega habilidoso na flauta escocesa e super curioso e interessado em explorar as formas como a tradição escocesa se pode integrar na música electrónica enraizada na cultura negra. O Alan é um dos melhores bateristas que conhecemos, e é um grande amigo. Trabalhar com outras pessoas torna a música melhor.

Como foram gravados os instrumentos? Houve algumas técnicas que prevaleceram ao longo das três faixas? Quando sampling está por baixo destes instrumentais?

Todas as gravações foram feitas com um RODE NT-1 ou um SM58, para um setup de computador, gravadas nas nossas casas com mobília para tratamento acústico. A nossa abordagem é intuitiva no que toca técnicas de mistura e micing.

A ”Everything (Version)” resulta de um dia de gravação live, com muitas pequenas extrações e edits em pós-produção. A “Ayé” e a “139” são muito mais programadas, com muito MIDI no Ableton, embora as guitarras, a percussão, as vozes e as teclas terem sido gravadas ao vivo.

As vozes na “139” foram gravadas através dum processador vocal, o Roland VT-4. O único sample no EP (além dum shot drum ou de samples de 808, etc.) é uma gravação de fita dos anos 70 do Rory, a cantar um hino chamado “Lead, Kindly Light”. O sample é usado na “Ayé”, é o som de voz fantasmagórica pitched-down.

Quais são os vossos próximos projectos? O que podemos esperar de vocês de 2020 para a frente? Algumas colaborações?

A curto prazo, estamos a terminar um EP que expande a partir do tema “Everything (Version)”. Vai incluir uma versão mais longa da faixa que é mais focada no dancefloor, bem como um remix de flauta. Estamos neste momento a trabalhar em remixes para Monkey Jhayam, do Brasil, enquanto trabalhamos num projecto colaborativo com o nosso amigo PAIX em Glasgow – reimaginar o ritual da performance… ela é incrível, vão ouvir o trabalho dela.

Estamos a trabalhar no nosso álbum de estreia, com participações várias de artistas convidados – PAIX, Nyasha Kanyimo, Tom Campbell (flautista), Jackil e Simon Gall (Salsa Celtica). O objectivo é trazer cultura Celta para o centro do que fazemos, reconectar com as nossas raízes aqui na Escócia, enquanto honramos e engajamos numa prática consensual ao trazermos outras influências culturais.

Além disso, estamos a fazer música e som para a produção teatrais escocesa/canadiana Morag Your A Long Time Deid. Também actuamos na mesma. O Rory faz de avô. Queremos também voltar ao desenvolver do concerto ao vivo em banda, mas a situação do coronavírus é tão pouco clara no Reino Unido que estamos só a trabalhar em estúdio para o futuro próximo.


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