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Texto: Paulo Pena
Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 02/06/2021

Produzir, produzir, produzir.

YOUNGSTUD: “A curva de aprendizagem de fazer beats é ilimitada. Há sempre qualquer cena nova”

Texto: Paulo Pena
Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 02/06/2021

Quando falámos pela última vez com YOUNGSTUD, o rapper e produtor tinha acabado de apresentar ZzZzzZz, um álbum de instrumentais que editou fisicamente e que sucedeu a Santo António Valley, o seu primeiro projecto instrumental lançado este ano. 

Entretanto, o MC que se tem dedicado a fundo às batidas tem um novo longa-duração cá fora. Rehersal About Nothing é o ensaio sonoro de YOUNGSTUD, e foi revelado capítulo a capítulo para no fim ser materializado também em edição física.

Além disso, o artista de Alverca, agora sediado no coração de Lisboa — mudança que espoletou a criação do primeiro EP —, não se ficou pela produção a solo e tem em mãos um outro projecto a meias com um rapper cujo nome ainda não pode ser revelado. 

Nas rimas continua prolífico e regular, apesar dos bloqueios de escrita consequentes da vida monótona que a pandemia impôs, tendo lançado uma série de singles desde o início do ano. E, como se não bastasse, tem ainda programada nova investida dos MACTO — dupla que divide com Sensei D. — para, em princípio, o último trimestre de 2021. 

Numa conversa sobre, principalmente, sonhos e viagens, fica a chamada para embarcarem neste comboio, neste navio ou nesta nave — o meio é uma escolha vossa. Viagens não lhe faltam e nós só temos de escolher quais queremos partilhar com ele. Por cá, vamos a todas, mesmo sem saber à partida para onde nos levam.



Começaste o ano com dois projectos instrumentais e uma série de singles. Tens andado mais inspirado, ou estás apenas a revelar a luz do dia a mais coisas, que normalmente ficam na gaveta? 

Nesta fase em que estou agora, para ser honesto, eu estou a escrever mesmo pouco. E não vou forçar. Se não tenho nada para dizer, não vou encher chouriços. Voltei à cena do “tens de fazer o que te apetece fazer”, porque, apesar disso tudo, isto não é a minha profissão, não tenho deadlines, e isso dá-me liberdade.  

Os singles todos que eu lancei nos últimos meses, alguns já tinha os beats, já tinha várias letras meio escritas, foi quase só acabar. E quando acabou essa onda toda de estar a mandar sons, não tinha letras, não tinha nada para dizer e não queria estar a dizer pão. Eu tenho de falar daquilo que eu vivo e daquilo que eu sinto quando escrevo uma letra. Mas comecei a sentir que os meus temas não fogem muito da mesma cena – depressiva, pessimista. E eu quero que, quando decida voltar a pegar no bloco de notas e a escrever cenas, venha com um tema mais conciso ou que eu tenha vivido coisas que me façam escrever cenas novas, porque com a pandemia vais falar de quê? Os dias são todos iguais.  

Isto para ir de encontro à tua pergunta e onde é que eu me encontro agora: eu comecei a desfrutar outra vez, durante a pandemia e no último ano, da cena de produzir, porque eu nunca parei de produzir propriamente. Aliás, eu faço beats – às vezes, de forma mais intermitente – desde os meus 15/16 anos, quando comecei a fazer qualquer coisa, mas era muito preguiçoso. Fazia ali qualquer coisa mais ou menos engraçada e não pegava mais naquilo; não me preocupava com misturas. E na hora de gravar um som, eu não tinha a mínima confiança num beat meu, para pegar nele e gravar. Além disso, desde há três, quatro anos para cá, quando surgiu a cena do YOUNGSTUD, em pouco tempo, comecei logo a trabalhar com produtores, e a cena de ter beats à disposição não era um problema. Era muito mais fácil ter uma pasta de beats do Sensei D. ou, como tive no meu primeiro EP, do Maria ou mesmo do Tayob J., que já produziu para mim; ter a papinha toda feita e concentrar-me a escrever. Se bem que no primeiro EP estive envolvido na produção, mas acho que só há um som que é todo produzido por mim, porque todos os outros, mesmo que eu tenha aparecido com uma ideia base do beat, o Maria pegava naquilo e acabava.  

Depois, com essa cena toda da pandemia e de estar mais em casa, começou a vir-me o bichinho da produção. Nunca deixou de haver, mas comecei a notar, da minha parte, muito mais interesse em aprender mesmo. Acho que a curva de aprendizagem de fazer beats é ilimitada. Há sempre qualquer cena nova. Então, a fase em que eu estou agora é: não estou a escrever, mas estou a desfrutar mesmo de fazer beats. Numa altura em que não estou nada produtivo nem me apetece escrever, é mesmo fixe emocionar-me enquanto estou a fazer música e não ser preciso [usar] palavras. 

Há algumas faixas no Santo António Valley que estão mesmo a pedir os teus versos, como a “Miopia”, a título de exemplo. Não pensaste em rimar em nenhum destes beats? O plano foi desde o início juntar estes temas num EP de batidas? 

Eu pensei, porque isto foi uma cena que aconteceu com os meus projectos instrumentais quase todos. O meu modo de trabalhar era construir uma narrativa através dos beats, sem pegar na caneta, e quando chegar a um projecto com sete, oito beats, um projecto sólido, só tenho de agarrar e escrever da primeira faixa à última e apresento um projecto de rima. E depois de já estar naquela fase em que não tenho nada que ache que seja palpável o suficiente a nível de escrita, nem estou a sentir aquele ímpeto para escrever que valha a pena. Como é óbvio, em muitos desses beats pensei que é quase desperdício lançar isto numa beat tape, mas depois comecei a pensar mais na perspectiva de beatmaker, do género: eu sou MC, mas também sou beatmaker. Vou lançar grandes beats, que pedem mesmo rimas, mas não vou rimar porque eu não quero rimar no beat. Não ia fazer justiça ao beat. Então já me desprendi um bocado dessa ideia de guardar na pasta e depois fica lá um ou dois anos. E como eu sou um gajo ansioso, não gosto que fique muita coisa na gaveta. Tenho sempre aquele pensamento fatalista de, “se me acontecer alguma coisa, ninguém dá com isto”. Vou contando a minha história de vida, a cronologia da minha vida, ao longo das coisas que vou fazendo. Deixar obra feita.

Queres começar por falar do título deste primeiro EP? Está de alguma forma relacionado com o ambiente dos instrumentais? 

O título vem mesmo da rua onde eu moro. Eu morava com os meus pais em Alverca e morei lá a minha vida toda; nunca mudei de casa. E, pronto, chegou a altura de sair de casa, de me fazer à vida, e juntei-me com a minha namorada e viemos viver para Lisboa, para a Rua do Vale de Santo António, que é aqui para os lados da Graça. E foi aquela cena de querer um nome engraçado, porque tem o Valley — parece quase que estás nas Hills em Los Angeles —, e com a cena bem “tuga”, o Santo António. Então, não teve muito pensamento. E a ideia cresceu em mim — eu estou aqui, estes beats estão a ser feitos nestas circunstâncias. No último ano, desde que me mudei, eu não usufruí da vida lisboeta como ela devia ser. Mas, ao mesmo tempo, é um reflexo de onde é que eu fiz os beats. Foi estar aqui em casa, fazer um beat, fumar um cigarro à janela, ver as pessoas a passar na minha rua. Às vezes, é só estar aqui e olhar pela janela da minha casa. Até foi um bocado aquilo que escreveste na Tranquilow, resume bem a cena. E depois foi o marcar de uma nova fase para mim, que foi agarrar-me muito mais à produção, e essa cena de voltar a tomar o gosto, de querer aprender mais e de estar intensivamente na produção começou aqui, nestas circunstâncias da pandemia.

Depois foi engraçado que o meu pai veio aqui numa altura em que se desconfinou um bocado, e ele fotografa — não é fotógrafo, mas gosta e tira boas chapas —, onde quer que vá leva sempre a máquina atrás. Então, veio com a minha mãe cá jantar, trouxe a máquina e tirou uma fotografia — que é a fotografia da capa — em que estão a minha mãe e a minha namorada à janela. Foi a primeira vez que eles vieram jantar a minha casa desde que eu saí de casa; também tem um significado especial os pais irem pela primeira vez à casa do filho. E o meu pai apanhou aquele momento. É muito Lisboa aquela fotografia. Agora editei o ZzZzzZz, mas ainda quero editar também o Santo António Valley. 

Tenho uma curiosidade que é transversal aos dois discos: os títulos das faixas são pequenos códigos que tens contigo próprio? E estão relacionados com o teu estado de espírito em cada faixa ou são meros nomes de ficheiros com pistas que te ajudam a identificá-los no processo de criação? 

A forma como eu identifico as sessões no FL Studio é bastante aleatória; eu sou muito desorganizado. Logo à partida não dou nome, só quando o beat está completo é que dou. Quando é para lançar, penso ali um bocadinho para onde é que aquilo me leva, e no caso dos projectos, por exemplo aqui no ZzZzzZz, tens alguma curiosidade?

O “CommeCiCommeÇa” é o que me desperta mais!

O “CommeCiCommeÇa”, quando ouvi o beat, remeteu-me para os meus estados mais depressivos de não ter altos nem baixos; estar um bocado na apatia. Não foi muito pensado, mas a sonoridade do beat levou-me para isso, porque ele acaba por ser triste, meio melancólico. Depois, os outros, estavas a dizer que eram por códigos. Isso dos códigos é um bocado um rip-off que eu achei piada noutro gajo e que comecei também a fazer, que é o Knxwledge…

Estava mesmo a pensar nessa referência…

Sim, sim! O Knxwledge tem essa cena de [ocultar] as vogais das palavras. Então, adaptei isso um bocadinho à minha cena.

O próprio título do disco indicia esse cuidado com os pormenores na alternância entre maiúsculas e minúsculas. A nomenclatura e o grafismo são partes importantes e propositadas na estética dos teus trabalhos? 

No título é random. Até estive a ver como é feito na banda desenhada, as letras “z” para dormir, e vi que vão alternando. E eu queria tentar que aquilo desse a ideia do sono. Então, foi um bocado nessa onda, a cena de ter as maiúsculas e minúsculas, aquilo podia ter uma ordem diferente. Depois, o conceito por trás disso, aí já tem um conceito. A fotografia da capa sou eu quando era puto, mascarado de Zorro, e tem um “Z”. E nem foi muito pelo Zorro em si, a imagética não é muito por aí; é por eu ter o chapéu com o “Z”. A cena à volta disso, da estética dos sons e da narrativa, dos skits que aquilo tem, dos acappellas, vem um bocado à volta do sono, de cenas da minha vida pessoal — tenho atravessado um momento complicado e até falo disso nos sons; tomo medicação prescrita, e aquilo é um bocado o mundo onde tu andas sob o efeito dessa medicação. Porque tu andas sempre num sonho; a tua vida não tem grandes altos e baixos — quando estás, digamos, “normal”, sem o efeito dessas cenas, sentes muito mais os altos e baixos, o que é fixe porque é o suposto. Se estás mal, estás mal; se estás bem, estás bem. E ao tomar medicação parece tudo uma linha recta, não há grandes emoções e parece que estás um bocado num sonho, sempre sleepy. Acho que a sonoridade que eu pus retrata bem essa vivência, e também vem daí um bocado o facto de não andar a escrever tanto. E já li coisas de outras pessoas — até tenho ideia do Kanye West, que ele dizia que, quando fez medicação, aquilo lhe bloqueava a escrita. Como acaba por te inibir certas coisas, afecta também a tua criatividade. Por isso é que eu acho que não faz sentido quem glorifica tomar um Xanax. Até fico a pensar, “tomas um Xanax e vais escrever o álbum do ano?”. Eu não consigo e até é um bocadinho prejudicial para mim nesse sentido. E o ZzZzzZz é um bocado à volta disso, até por causa da pronúncia: escreve-se da mesma forma nos states, mas pronuncia-se “zanax”. Era um bocado assim, subliminarmente. Este último projecto é aquele mundo da “la la land” em que tu estás quando estás a tomar estas coisas.



O que me passou foi um imaginário mais fantasioso.

Sim, sim, sim… Exactamente. Porque, ao fim e ao cabo, é um bocado isso. Este projecto foi concebido com base numa “droga” que me mete, diariamente, num estado em que estou funcional, como é óbvio, mas estou sempre meio num sonho.

Mas mesmo em relação ao Santo António Valley, e apesar de serem projectos bastante diferentes, a sensação que me passou foi parecida. Há alguma ligação de ideias entre ambos ou são dois projectos completamente díspares para ti?

Não são assim tão diferentes… Estou aqui a tentar situar-me quando é que lancei o Santo António Valley… foi há menos de seis meses.

Já foi este ano, no dia 14 de Fevereiro.

Já foi este ano, exacto. Sim, eu já estava nisto de produzir mais, a sobriedade de outras cenas mas ao mesmo tempo estar a fazer medicação. O Santo António Valley já teve um bocadinho disso, mas eu diria que a faixa que tem mais em comum com o este último, se calhar, é aquela segunda, que agora nem me lembro do nome…

A “E-mortal”.

Sim, a “E-mortal”. Neste último projecto, tem bué sampling, mas esse beat, por exemplo, não tem sampling nenhum. Se tiver, são samples vocais; o resto é tudo tocado. E esse já é uma onda dessas: estares naquele sonho, na apatia do sonho, estares aqui mas não estares bem aqui. Acho que é um bocado nesse sentido, sim.

Nesse EP — e no ZzZzzZz, também — há uma linha que liga as faixas, mesmo que o fim de uma não encaixe directamente no início da seguinte; há um fio condutor. O alinhamento foi algo que alinhaste já no fim, ou serviu de guia para a construção do projecto como um todo? 

Não. Eu fiz os beats um de cada vez, era o que ia saindo, e no fim, sim, tive a preocupação de… porque, sei lá, havia beats que acabavam com o loop principal, e aquilo simplesmente acabava, era muito abrupta a transição. Então, quando fiz aquela selecção de beats dos quais gostava o suficiente para fazer o projecto, aí depois estive a lapidar isso, o que colava bem com o outro, como era melhor acabar este para o outro começar harmonioso com o que veio antes; isso foi só no fim. E agora, sempre que estou a fazer projectos instrumentais, é uma preocupação que gosto de ter. 

E no ZzZzzZz tens faixas bastante curtas — algumas nem chegam a um minuto. Como é que vês essas faixas no todo do projecto: são elos de ligação entre os temas maiores, ou são faixas autónomas nesse aspecto? O que te levou a fazer esses beats mais pequenos?

Aquilo normalmente acontece naquelas situações em que, por exemplo, no Santo António Valley fiquei mais na perspectiva de “o loop está fixe, deixa soar durante dois minutos”; desta vez foi um bocado por observação dos producers que eu curto, e em dois casos em particular: um, que é o J Dilla — ele tem projectos de 30 faixas em que, realmente, há beats de cinquenta segundos; e vi isso também pelo Flying Lotus — o último álbum dele também tem 27 faixas, mas tem umas com 40, 50 segundos, e grande parte delas com um minuto e vinte, um minuto e trinta. Porque, como é uma cena contínua, funciona. É um beat, não deixa de ser um beat, mas é também um elo de ligação, uma parte da narrativa que não precisa de ter mais que aquilo. 

Para terminarmos, já tens novos projectos em vista? Há novidades dos MACTO a surgir em breve, por exemplo?

Vão acontecer coisas… Para já, ainda não tenho a certeza de timings e aquilo que me é autorizado a dizer não é muito. Mas MACTO é para continuar, vai continuar; existem músicas gravadas, temos material pronto; vai haver novidades. Acredito que a nível de MACTO só se vá desvendar mais para o final deste ano, início do próximo. 

De resto, está em perspectiva uma cena: vou produzir um EP para outro MC, que é algo que estou mesmo contente. É surpresa.


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