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Texto: ReB Team
Fotografia: Ana Viotti
Publicado a: 15/02/2022

Interpretar e ser interpretado.

Yaw Tembe (programador de música do TBA) à conversa com Scúru Fitchádu, Cachupa Psicadélica e Ana Rita António

Texto: ReB Team
Fotografia: Ana Viotti
Publicado a: 15/02/2022

No final desta semana, Marcus Veiga (voz, samplers, gaita e ferro), Lula’s (voz, guitarra) e Ana Rita António (visuais) unem esforços para “brincar” ao Quarto Escuro, Panela Quente no Teatro do Bairro Alto, em Lisboa. A eles juntam-se Bdjoy (bateria electrónica e percussões), Gunzu (sintetizadores), Márcia (voz), Henrique Silva (teclado) e Renato Almeida (baixo).

Uma “brincadeira” muito séria que coloca duas propostas/projectos musicais cá do burgo — Scúru Fitchádu e Cachupa Psicadélica –, uma artista visual e uma cidade, Caldas da Rainha, num sítio, neste caso um teatro municipal, onde, “se calhar”, seria “impensável” vê-los e ouvi-los há 10 anos.

Yaw Tembe (líder do grupo Chão Maior e, actualmente, o programador musical do TBA) mergulhou neste caldeirão de melodia, bravura, formas de psicadelismos, punk, morna, coladera e funaná para tentar descortinar o que vamos poder escutar neste encontro eminente e iminente.



[Yaw Tembe] No próximo dia 18 de Fevereiro apresentam no TBA um projecto intitulado Quarto Escuro, Panela Quente, um título bastante visual que remete para um estado de tensão e alerta. Quais foram as premissas para este trabalho?

[Marcus Veiga] Estávamos à procura de um tema que unisse as duas sonoridades e a intervenção visual, e o Lula’s sugeriu Quarto Escuro, Panela Quente, e que remete mesmo para um estado de tensão. A última coisa que queres encontrar ao entrares para um quarto escuro é uma panela quente ou a ferver. Indica logo uma sensação tensa, de perigo. E acaba também por ir ao encontro dos conceitos e imaginários dos dois projectos, tanto de Cachupa como de Scúru. É um título muito visual que funciona bem para um espectáculo ao vivo, é aí que a componente visual da Ana ganha mais peso. É tudo muito visual e à volta de sensações. É entrar numa divisão em que não sabemos bem o que vamos encontrar.

[Lula’s] Para mim a questão do nome é interessante por tentar unir a minha música com a do Marcus. Apesar de no momento sermos tão próximos, as duas músicas estão distantes. E isso cria uma incerteza sobre o quê e como irá acontecer ao certo. Isso é a panela lá no meio. Tu aceitas o desafio de entrar no quarto mesmo sabendo que está lá a panela. Assumo esse risco porque me parece interessante, mesmo sabendo que posso bater com a boca no chão. Há um desafio que espicaça a coisa.

[Ana Rita António] Tenho estado fechada no estúdio a ouvir as duas bandas e tenho trabalhado de uma forma mais intuitiva. O processo tem sido bastante orgânico, surgem várias imagens, várias ideias que vêm dum pensamento automático. Não consigo justificar porque é que elas vêm. Pode ser que depois venham a fazer sentido. Tem sido uma descoberta constante.

[YT] Reconheço uma certa energia no trabalho de cada um, algo relacionado com o que é dito e a forma que o dizem. Tem que ver com a poesia e o jogo entre o símbolo e o significado.

[MV] Tudo começa com a palavra, mas eu valorizo muito o embrulho, como ela é dita e entregue. Obviamente que também me preocupo com a composição e o significado que essas palavras possam ter. Mas especialmente neste projecto, temos que gerir bem o lado performativo e potenciar o diálogo com o público. Este concerto acaba por ser um exclusivo e há uma atenção especial em como a palavra é dita, e quando digo palavra digo um acorde ou um ruído. A música do Lula’s ganha outra dimensão ao vivo, tal como a minha. A composição e gravação em estúdio são válidas, mas falta sempre o erro, aquela coisa humana, faltam pessoas, emoções, faltam feições. Transformar as palavras em algo mais que as próprias palavras.

[L] Gosto da ideia de simplificar a palavra. O que digo ou o que vou tentar evidenciar na música do Marcus será a parte que considero mais simples e abrangente, independentemente da forma como se diz. Isso interessa-me. Procuro momentos em que possa potenciar a minha palavra, e descobrir o que é que ela ganha com as sonoridades que o pessoal de Scúru vai trazer, e o lugar dessas palavras também se pode reencontrar, pelo simples facto de nos apresentarmos com uma formação diferente.

E é como o Marcus disse, não são só as palavras. Estes ensaios têm sido importantes para descobrir onde é que é que está o espaço na música do Marcus para podermos entrar. Essa tentativa de procurar, dentro da poesia do Scúru, um espaço nosso para tentar chamar a atenção para coisas que também nos interessam dizer, e vice-versa. Quanto mais ensaiamos mais sinto que quero tocar pouco, porque somos mais, mais palavras juntas. Quanto menos cada um disser, mais bonita será a frase. Vou dizer assim, bonita! Gosto da palavra — gosto de cenas bonitas, não é, Marcus?

[MV] Sim [risos]. Tem a ver com a interpretação. Logo no primeiro ensaio disse ao pessoal, “Cachupa está aqui para limpar a nossa música e nós para sujar a deles”. Não é um retrato muito fiel do que estamos aqui a fazer, apesar de ser válido. Mas, ao mesmo tempo, é um jogo de interpretação — como é que os interpretamos e como é que somos interpretados — e há ainda uma terceira interpretação, a da Ana Rita.

[YT] Ana, podes falar um pouco dessa gestão da simbologia em relação à palavra e como é que é manifestada no teu processo?

[ARA] Eu tentei decifrar as letras, mas, como até agora não foi possível, pedi-lhes para me enviarem uma tradução e estive mais focada nas batidas, nessas primeiras impressões. Tentei juntar as duas sonoridades, mas não de uma forma óbvia e também não racionalizei muito. De uma forma mais intuitiva, fui fazendo estas esculturas. E foram-me surgindo imagens um bocado surreais, entre o industrial e o orgânico ou o rural. Entre a violência e a poesia. Não é que elas sejam antagónicos, são próximos e ao mesmo tempo afastados.

Estou confiante que há coisas neste processo que não são óbvias. Por exemplo, esse encontro. Como é que se encontram, de que forma, quando e onde? Mas tenho a confiança de que eventualmente tudo irá ao lugar, mas tem que ser com uma atitude de calma e percebendo que há aqui uma fibra qualquer que se vai manter e fará sentido entre a música e os visuais.

[L] Quero acrescentar uma coisa que é: a descoberta não está propriamente nas três peças que compõem o espectáculo, mas em como criar uma ligadura entre as mesmas podendo as encaixar de várias formas. Tem sido mais um processo progressivo onde as três peças se juntam e se transformam numa peça única, uma coisa orgânica e singular, e a coisa está para nascer, ainda só passaram seis meses de gestação, mas já há barriga!

[MV] Pelo menos já se sentem os pontapés.

[YT] Estarão sete músicos em palco e cada um deles aponta para um sem-número de projetos e contextos. Desde membros da banda Acácia Maior, Renato Chantre, um dos baixistas mais requisitados da cena lisboeta, Bdjoy, MC e produtor do hip hop da margem sul, só para nomear alguns. Isto acaba por ser representativo de um movimento latente?

[MV] Não é só Scúru e Cachupa, nota-se isso muito nos ensaios. Cada um consegue acrescentar um pouco do seu tempero à música. É uma coisa viva, e um pulsar que se vai sentir ao vivo.

[L] Os intérpretes de Scúru e Cachupa também são criativos e isso trouxe-nos alguma liberdade. Por exemplo, o Bdjoy libertou o nosso beat. Tentámos “sacar” o máximo do dele. Estamos apenas a propor algo aos músicos, e no fundo a parte criativa deles. Apesar de ser um encontro entre Scúru e Cachupa, cada elemento da banda traz o seu input, é pessoal criativo e que está habituado a escrever originais.

São várias mãos a trabalhar em conjunto e é como se tirássemos o peso do andor que estamos a carregar e que nos libertássemos para experimentar outras coisas que antes não faríamos porque estávamos a usar as duas mãos para carregar o andor da Cachupa.

[YT] A vossa música é às vezes apresentada como estando em pólos opostos, ambas resultantes da fusão da música cabo-verdiana com a influência de estilos urbanos. Reconhecem-se nesse antagonismo?

[L] A música é cabo-verdiana porque nasci em Cabo Verde. O pessoal estranha quando digo que ouvi este ou aquele outro estilo de música, mas o que o pessoal não sabe é que eu não sou uma ave rara em Cabo Verde na minha geração. Várias pessoas foram também sujeitas a diferentes tipos de música. Já o pessoal lá atrás, Paulinho da Vieira, etc., todo esse pessoal andou a inventar e a misturar estilos. Só que passou tanto tempo que esses discos tornaram-se instituições. E isso padronizou-se e passou a ser uma coisa tradicional.

Eu e o Marcus estivemos a ouvir Prodigy na mesma altura em sítios bué distantes, ele aqui na tuga, um gajo em Cabo Verde. Mas isso porque aqueles discos eram muito bons e conseguiram chegar a todo lado. E o efeito dessa experiência refletiu-se de diferentes formas nas nossas músicas.

A estranheza surge quando o pessoal não tem as mesmas referências. Já juntaram dois estilos no mesmo grupo, mas faltava-lhes uma terceira referência, por exemplo.

Quando o Marcus trouxe o funaná e meteu aquele bassline, o pessoal não estava à espera de ouvir o funaná no meio daquilo. E aí o pessoal tenta catalogar a sonoridade, mas o Marcus apenas reflete a música que consumiu. Para mim é algo super natural. Nem gosto de reflectir muito, só me dá prazer reconhecer influências e ouvir reminiscências de coisas que gosto quando oiço a minha música.

[MV] Concordo com tudo o que ele disse. Ele estando em Cabo Verde e eu em Portugal, mas com praticamente as mesmas influências. Depois o que trazemos às influências são as nossas vivências. O Paulinho Vieira e o Orlando Pantera foram loucos na altura deles. Hoje é uma música boa, mas que acaba por ser normalizada. O importante é que deixaram um legado. As minhas influências são estas, super assumidas. E tento sempre homenageá-las através da minha música, seja em sample, seja através da composição. Por outro lado, não quero soar igual ao gajo de que gosto.

Não estou aqui a hastear a bandeira da nova música africana ou do funaná. Talvez seja uma ponte do que são as minhas influências, portanto, se quiseres ouvir mesmo as origens eu ajudo-te e vamos ao Coqueiro ouvir da fonte.

Mas isto é tudo uma fase em construção, nada é estanque. Samplo muitas cenas da África do Sul. Músicas mais antigas e anticoloniais, mas também não entro numa cena de apropriação porque sei que a minha realidade não é aquela — assumo essas influências! Isto para dizer que não é obrigatório ter esta bandeira de Cabo Verde ou do funaná. Existem várias camadas na construção da música. Por exemplo, Cachupa Psicadélica representa várias pessoas, lembro-me do Bilan, do Dana’s,  da Danae, todos têm o mesmo mindset. Do meu lado consigo apontar para uns quantos que partilham a mesma vibe. É isso que tento representar, alguém que nos anos 90 andava de skate, e ouvia Suicidal Tendencies e que ao sábado tinha que trabalhar no campo para apanhar pêras. Mas isto é tudo fluido e existem várias formas de abordar as culturas sem entrar numa cena de apropriação cultural, tem de haver uma certa profundidade.

[YT] Bandeiras e estandartes são elementos recorrentes no teu trabalho. Como é que te relacionas com a questão da identidade como lugar de pertença?

[ARA] Já saí de Portugal há 18 anos. Passei pela Holanda, Noruega. Isso da identidade é uma coisa volátil. Acho que não assumo uma identidade definida.Em relação ao meu trabalho com os estandartes, é sobre processos de reinvenção. Surgem como redefinições. O projecto chama-se An Ambitious Project Collapsing AKA The 5th Wheel. A ideia é mostrar modelos que são transversais a qualquer identidade ou que vivem dentro de uma zona cinzenta, e isso tem que ver com a minha experiência de vida, de não conseguir juntar Portugal à Noruega, e encontrar algum conforto nesse gap. Anteriormente a este projecto tinha os Mantras. É um projecto ongoing e que está ligado à sobrevivência, é sobre como tento sobreviver estando nesse espaço cinzento.

[YT] Em contraste com esta zona cinzenta, existe também a ideia pouco clara (ou menos evidenciada) de música da periferia. Como vêem esse fluxo periferia-centro?                                                                                               

[MV] Na verdade, toda a música urbana vem das periferias de Lisboa. Considero que o centro de Lisboa só tem as plataformas e a estruturas que fazem mexer a máquina.  Este fenómeno das músicas da periferia faz-me lembrar a apropriação feita pelos escravos negros do carnaval da Baía nos anos 30, que até à altura era dominada pela corte brasileira. Essa presença causou um choque por causa do exotismo, dos corpos despidos e das danças viscerais. Lisboa tem sido um dos embriões da considerada nova cena musical, por causa da periferia e não apesar dela! A malta da Príncipe Discos, a malta dos Buraka, Enchufada, etc. E, na verdade, não é música de Lisboa, é de outras cidades e regiões, pontos de fora do núcleo que é Lisboa, fora do CCB, do TBA ou da Culturgest. E, se calhar, era impensável há 10 anos Scúru Fitchádu ou Cachupa apresentarem um espetáculo num teatro municipal no centro de Lisboa.

[L] Eu, periferia!(?) Eu nasci na rua central da minha ilha. A periferia acaba sempre por ser periférico a outra coisa e o facto de ser estranho nós ocuparmos este espaço torna-se uma questão de espaço mental.


Entrevista publicada em parceria com o Teatro do Bairro Alto, a propósito do concerto Quarto Escuro, Panela Quente. A ter lugar no dia 18 de Fevereiro às 19h30.

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