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Fotografia: Guilherme Cabral
Publicado a: 13/03/2026

Um novo repertório com a mesma carga de significado.

xtinto no Capitólio: a noite dos sonhos e o fim da mortalidade

Fotografia: Guilherme Cabral
Publicado a: 13/03/2026

Apesar do nome artístico que proclama o fim, pode dizer-se que xtinto se encontra antes imortalizado. Afinal, como dizia Sérgio Godinho em “Lisboa Que Amanhece”, em sonhos, é sabido, não se morre frase que o artista de Ourém resgatou para o título do seu novo álbum. E ontem foi mesmo uma noite de sonho, provavelmente o tipo de noite de que Francisco Santos necessitava há uns meses para ultrapassar todas as dúvidas e angústias existenciais, para se render à evidência de que o seu propósito é mesmo fazer música.

O Capitólio, em Lisboa, estava esgotado para a apresentação do seu segundo longa-duração. Visivelmente extasiado e com a voz rouca (a beleza da imperfeição soa reconfortante numa era cada vez mais dominada por algoritmos digitais e inteligência artificial), xtinto apresentou-se com uma banda de amigos de Ourém. Ao seu lado, Samuel Louro na guitarra, Guilherme Eugénio no baixo, Pedro Antunes na bateria, Tomás Martin no saxofone e Billy Verdasca na flauta, a disparar sons e vozes de apoio.

O carinho entre plateia e palco era notório. Um disco fresco que ou muito nos enganamos ou vai acabar nas listas de melhores álbuns do ano; um protagonista empático que sabe ocupar e dominar um palco sem impor de todo uma presença superior; um público que reconhece no autor daquelas canções um talento enorme e que, tal como em tantos outros casos, não faz jus à sua popularidade.

Ainda assim, é um gosto ver alguém como xtinto que emergiu há uma década do underground com a mixtape Odisseia, em parceria com DEZ; que nunca facilitou ao apresentar um rap denso e palavroso; que sempre trilhou um caminho nos campos left field do hip hop a esgotar uma sala desta dimensão e notoriedade. Não nos surpreende na medida em que pelo menos desde “Pentagrama” que conhecemos o apelo pop que as suas canções isso, canções podem ter. 

O potencial estava identificado, e o amadurecimento é natural à medida que os anos passam, mas parece que em sonhos, é sabido, não se morre é o disco que de facto concretiza essa promessa de um músico que estava destinado a ultrapassar as fronteiras do hip hop cada vez mais difusas, já agora e a conquistar um público mais alargado e diverso enquanto cantautor moderno.

Ainda há estrada para aprofundar esse caminho (temas como “Felismina”, cantado de forma emocionante no Capitólio, são indícios disso), mas este disco consegue conciliar e equilibrar uma série de elementos vitais: o rap puro e duro, os refrões ou bridges orelhudas, a escrita mais do que rica mas ao mesmo tempo acessível, os pulsares digitais e a alma analógica da instrumentação. Quantos producers não receberam em casa uma coroa de flores? E tudo com uma abordagem honesta, música muito mais sentida do que performática, um castelo de cartas sólido erguido com a ajuda dos companheiros da MUNNHOUSE e dos colegas de banda.

“Cidade”, “Tempestade” (com a participação de IOLANDA), “Assunto Meu” e “Dividir” (ali tão perto da Avenida da Liberdade) foram dos temas mais entoados em uníssono. “Tóxico” (com João Não) e “Prisma” (com L-ALI) revelaram-se os bangers da noite, “Vento” trouxe as emoções à flor da pele, “Kintsugi” ou “Pergunta Honesta” deixaram o estado de espírito mais introspectivo. 

O próprio álbum, interpretado na íntegra mas não pela ordem do alinhamento, reflecte os altos e baixos tão necessários durante uma experiência de concerto. Ao vivo, os arranjos da banda só enaltecem a musicalidade das canções o saxofone de Tomás Martin, em particular, brilha ao levar os temas para outra dimensão. Se Portugal tivesse um ecossistema musical à séria, este concerto deveria percorrer os cineteatros de norte a sul. O rap mais mainstream — vinculado a uma lógica de festivais de massas e grandes festas académicas, com uma natureza mais juvenil — deveria ter em paralelo um circuito, alternativo mas sustentado, de uma música que parte do hip hop (mas que se desdobra em muitas outras coisas), madura e rica, que pede mais contemplação, reflexão e identificação emocional e menos moshpits tantas vezes vazios de significado. Ora, se há coisa que esta música tem é estar carregada de significado. Esperamos que xtinto também tenha reforçado o significado do que a sua figura e a sua música representam para tanta gente. 

Aliás, o próprio espírito em cima do palco, uma extensão natural dos bastidores, mostrou isso mesmo: com IOLANDA a declará-lo como o seu “rapper favorito”, com xtinto a devolver as flores ao considerar L-ALI o seu preferido e a distinguir João Não como um “certified what a guy”, com o generoso Ed a proporcionar uma versão diferente do “Interlúdio da Casa do Vale” que ainda ganhou um verso inédito de xtinto. 

No final, marcado pelas interpretações das únicas excepções ao novo álbum, as já emblemáticas “éden” e “marfim”, João Maia Ferreira rematou da melhor forma, ao lembrar como conheceu xtinto quando este era apenas um adolescente tímido numa zona periférica do país, como este o surpreendeu após quatro horas calado no estúdio, apenas a observar. “O que visionei naquele momento foi mesmo isto”, disse perante os aplausos e clamores de apoio da plateia, que se mantiveram constantes ao longo da noite. Se nos sonhos somos imortais, então que xtinto tenha uma vida eterna de canções.


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