X-Tense no Estúdio Time Out: jogar e ganhar pelas suas próprias regras

[TEXTO] João Daniel Marques [FOTOS] Beatriz Santos

O que se passou na noite de sexta-feira no Mercado da Ribeira não foi um mero concerto de hip hop. Foi a definição de espectáculo. À semelhança do que já testemunhámos ali mesmo em outras festas do género, o Estúdio Time Out apresentou um pequeno cartaz com seis nomes, onde Los Mambleros seriam cabeças de cartaz – mas todos sabíamos que isso era fruto do sentido de humor de X-Tense, a verdadeira estrela do evento.

Dave Wolf Rodriguez, um dos homens que acompanha o rapper em palco, foi quem começou a noite. E bem. Definiu um bom ritmo num concerto que ilustraria bem o resto da noite. Muitos altos e baixos em termos de emoções; ora euforia, saltos e coros de refrões, ora músicas em que a sala se silencia para perceber as letras mais complexas, mas sobretudo mais profundas. Foi exactamente isso que aconteceu em “Pai”, um tema pessoal sobre a ausência do mesmo na vida do artista. Foi o ponto alto da sua apresentação em palco, talvez pelo forte contraste com “IAYAYA”. Uma música mais leve mas igualmente densa onde é possível cantar um refrão e acompanhá-lo. Quem esteve presente recebeu um pequeno presente — a estreia do novo tema “Eu Não”, ainda por editar. Uma daquelas que é preciso ir ouvir assim que sair.

Dave apresenta-se em palco naturalmente bem-disposto. Entre músicas e conversas, o rapper puxou pelo público, ainda meio impermeável e pouco receptivo às tentativas de levantar o espírito para a noite que aí vinha. Afinal de contas, estávamos todos a aquecer, nós na plateia e ele no palco, porque o melhor ainda estava para vir.



No fim, veio a primeira das várias intervenções que contribuíram para o espectáculo. Sem anúncio prévio, mas algo previsível para os mais atentos, Pedro Durão subiu ao palco para entreter a multidão. Não foi uma pausa para stand-up comedy, nada disso, antes uma pequena introdução de um mestre-de-cerimónias com carreira no humor, e que, ao que parece, está por dentro do que se passa no movimento. Falou-se de música, de beefs e “encheu-se chouriços” de uma maneira que fez passar o tempo melhor do que com copos e música ambiente. Durão viria a intervir mais vezes, entre todas as actuações para preencher os tempos mortos.

Foi então que subiu ao palco o “filho ilegítimo do Kappa Jotta”, nas palavras do nosso mestre de cerimónias; “com muito gosto” respondeu Amaro, o rapper mais jovem do cartaz, mas não aquele com menos tempo de carreira (não nos esqueçamos de Los Mambleros, cabeças de cartaz!).

Foi uma setlist sem grandes surpresas com a maioria dos seus novos temas — só possível com a presença dos rapazes. Chav e Tiwi subiram ao palco, e mostraram alguns dos temas em conjunto que têm vindo a lançar ao longo dos últimos meses. Para lá das músicas que interpretou a solo, “Febre” foi a que mais surpreendeu. A colaboração com Tiwi no instrumental de Spliff (com um toque muito reconhecível) funciona ainda melhor ao vivo do que acompanhada do videoclipe.

Mas o ponto alto teve de ser outro, “Off Set”. A música que junta Kappa Jotta ao orgulhoso “filho ilegítimo” trouxe uma animação no público que só seria comparável à entrada de X-Tense em palco — a presença do autor de Ligação ajudou a criar esse ambiente. Com um registo diferente a pedir abanar de anca, o single com beat de Lazuli resultou bastante bem ao vivo. Foi a segunda prenda deste espectáculo.



Para o que veio a seguir ninguém estava preparado. Ferry é um artista diferente que conta as suas histórias, à sua maneira, e que não cede à pressão de uma indústria ou de um mercado que vive de colaborações e canções leves. Até porque a actuação foi tudo menos isso – leve. Trouxe ao Time Out uma nova maneira de pensar e isso despertou emoções diferentes na plateia já em registo de celebração. Ao lado do seu rapper favorito, Marcos Best, o MC contou histórias que conferem à sua música um selo de originalidade e legitimidade daquela que não ousamos discordar. A maneira como se apresenta e como declama os seus poemas não deixa margem para dúvidas – este é um homem convicto na sua música e que reflecte nos seus temas a vida à sua volta.

À margem de considerações, “Rei do Bairro” (que faz parte da compilação Mechelas) e “Playstation” (um dos temas que melhor ilustra a posição do rapper na música) foram as canções mais bem recebidas. Mesmo assim é impossível não destacar o apoio de Best, que aprendeu desde segunda-feira as letras e ensaiou três vezes com Ferry. O seu back vocal do costume não conseguiu comparecer, mas melhor para quem lá esteve, que pôde ouvir mais uma estreia, “Dor de Cabeça”.



Era então hora de presenciar ao momento mais esperado: X-Tense subiu ao palco com o microfone desligado, mas quase parecia propositado. E o espaço lisboeta esteve perante um dos maiores animadores que o hip hop já viu, e talvez a música nacional em geral também.

Antes de ser Pablo, X-Tense já era assim, mas está diferente. Talvez só faça sentido para quem já o viu ao vivo. Este é um homem cheio de tiques engraçados e que se transforma quando sobe ao palco. São as piadas e o teatralismo próprio da sua música que passam directamente para a persona que está em palco, e daí para a plateia que estremece com cada gesto, passo de dança ou entregas em fast flow que faz.

“O primeiro homem na lua com uns Adidas e fato de treino” entrou ao som de “TT”. Seguiu-se uma viagem por Rosa Dragão, deixando de fora tudo o que veio antes disso. Percebe-se. Este concerto foi um rito de passagem, uma carta de despedida. Já não há X-Tense, agora é Pablo.

Depois de escutadas “22:22” — uma música que escreveu quando gostava muito de alguém –, “Viver Para Sempre” e “Tou Bem”, “Narcos” teve direito a moche, mas daqueles “com muito respeito, que o espaço não é para estragar”, e só não se tornou num dos pontos altos da noite porque não estava lá Walez.

A partir daqui mudou-se completamente o chip. Foi a vez de Pablo tomar as rédeas, ao som de “Así”, “Qué Passa” e “Bolero”. Para esta última subiram ao palco Los Cavakitos, que receberam uma grande ovação e que responderam o entusiasmo devido, apesar de algumas dificuldades técnicas, mas nem isso deu cabo da festa.

“Yolanda” encheu os corações mais românticos e levou os casais a dançar um pouco, Breakout (que acompanhou o concerto com Dave Wolf Rodriguez ao lado de X-Tense) deu espectáculo acappela e “P de Pablito” fechou aquele que ficará certamente para a história de X-Tense como um dos seus concertos mais importantes. Pelo meio, Los Mambleros (Pedro Sousa, Carlos Pereira e Duarte Correia da Silva) divertiram o público num número cómico, mas não tanto musical, recuperado da série cibernética imaginada por Nuno Barreiros.

Actuações como esta deixam que pensar, quanto mais não seja no percurso de rappers como X-Tense, que esteve para desistir da música depois do sucesso de “A Fórmula”. Ainda bem que não o fez, caso contrário não teríamos hoje a possibilidade de assistir a um cruzamento único na música entre o humor, a ironia e o escárnio de uma indústria dominada pelos milhões de visualizações a quem faltava um contraditório com qualidade para se ouvir na rádio. X-Tense jogou o jogo da indústria, fez colaborações (com humoristas), fez vídeos (que acumularam milhões de visualizações) e ganhou pelas suas próprias regras.


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