WOS Festival’18 – Dia 2: Grooves globais, palavras transformadoras e graves profundos

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTOS] Direitos Reservados

O segundo dia de programação musical do Work on Sunday — festival que acontece em Santiago de Compostela, Espanha, e que hoje termina — foi bastante diferente, o que é sintomático de uma programação que soube seguir múltiplas direcções estéticas procurando assim investigar alguns dos territórios mais interessantes do presente, das diferentes abordagens ao lado mais experimental da electrónica ao hip hop, grime ou dancehall.

O percurso de sábado arrancou no belíssimo mercado de Abastos. O local, vibrante de cores e aromas, onde os locais se abastecem de frutas e legumes, de carnes e peixes, e onde os turistas fotografam o que andam a perder de cada vez que, regressados a casa, fazem o mesmo no supermercado, recebeu ontem dois eventos musicais, embora só um estivesse integrado no programa do WOS: antes de Russinha, DJ local que já viveu em Portugal, nos brindar com uma interessante selecção de grooves globais, uma versão condensada de uma orquestra sinfónica ofereceu algumas passagens do reportório clássico aos clientes do mercado. O contraste das duas receitas musicais que ontem impuseram uma diferente ambiência sonora ao mercado de Abastos é afinal de contas representativo da vibração cultural mais vasta que faz mexer esta cidade. E importante sublinhar que Compostela não é sequer a primeira cidade da região, com Vigo e a Corunha a ocuparem lugares mais destacados na hierarquia. Exemplo a seguir, certamente.

 



Russinha tocou música electrónica colorida por tons tropicais, grooves dançantes que, no entanto, não agitaram os muitos que marcaram presença. Não que não estivessem a gostar, mas a hora do dia — com muitos ainda a almoçarem — pedia descanso e muitos preferiram sintonizar-se com as propostas de Russinha de copo de “vermu” na mão, sentados numa das sombras circundantes.

O dia prometia muito mais. A igreja da universidade que na sexta feira recebeu Tomoko Sauvage foi ontem o palco seleccionado para o espanhol Suso Saiz se apresentar. Este músico nascido em Cádiz, foi expoente da cena new age em Espanha em meados dos anos 80, mas nos últimos dois anos a sua ligação à etiqueta holandesa Music From Memory trouxe-lhe uma mais ampla atenção no plano internacional, tal como aconteceu com Gigi Masin. Lançou a compilação de trabalhos clássicos Odisea em 2016 e o ano passado editou Rainworks, trabalho de novas composições. Foi desse material essencialmente que se fez a sua planante apresentação no espaço da igreja, com as notas da sua guitarra ultra-processada a criarem uma ambiência mágica, quase uma dimensão paralela para onde todos pudemos escapar durante alguns momentos.

 



Nadah El Shazly e Clothilde, o projecto nacional de Sofia Mestre, apresentavam-se ao mesmo tempo, em diferentes espaços, pelo que foi necessário optar, guardando para uma futura oportunidade o mergulho na electrónica modular da artista portuguesa.

No terraço da fundação Eugenio Granell, Nadah apresentou uma performance solitária — em entrevista posterior revelou-nos estar também a trabalhar em concertos com uma banda —, intensa e ultra-cativante, com a sua voz e as bases electrónicas a fazerem uma ponte entre as ricas tradições musicais egípcias e um presente que se quer diferente. É óbvio que para Nadah El Shazly a música não é um simples veículo de expressão. É também uma ferramenta de transformação. De si mesma e do que a rodeia: Nadah refere que começa aqui uma digressão que a vai levar a muitas cidades e países — “até à Rússia” — o que para ela equivale a levar um pouco da cultura do seu país para o mundo. Mas quando a questionamos sobre se estas viagens lhe permitem descobrir música nova, faz questão de referir que a música que mais a inspira é a que está a ser produzida actualmente nos subterrâneos do Cairo. Nadah, de facto, não pretende fugir e na sua apresentação é nítido o orgulho que sente em expressar-se na sua língua e ainda assim captar atenções muito para lá das fronteiras do seu país natal.

 



Oddisee também ofereceu visões de um país que precisa de ser transformado no mesmo espaço, embora um par de horas mais tarde. O hip hop deste nativo de Washington, orgânico, fluído, tão pleno de alma quanto de pensamento, é expansivo quando apresentado com banda, como aconteceu este ano no Super Bock Super Rock, ou acutilante quando resumido ao mais económico formato de um microfone e dois gira-discos, como o vimos da primeira vez no Vodafone Mexefest e como o voltámos a encontrar ontem. Oddisee tem carisma, presença, tem rimas e refrões que se colam à memória, mas tem também um feroz sentido de independência que é talvez a única coisa que ajuda a explicar porque se mantém neste circuito e não começa a dar cartas em campeonatos mais “sérios”.

O dia terminou com a porrada que seria natural esperar no Capitol, onde se apresentaram Flowdan e The Bug com Miss Red. O projecto de Kevin Martin é, de facto, a ponte entre o MC do colectivo Roll Deep e a toaster israelita que tem uma das mais excitantes propostas na cena mais subterrânea do dancehall contemporâneo. The Bug fez, claro, o clássico “Skeng” com Flowdan e em entrevistas sempre elogiou a coragem do MC que nunca temeu seguir consigo para a estrada e tocar para públicos bem diferentes daqueles que sempre suportaram a cena grime em Londres. Exactamente o que aconteceu ontem.

Antes de subir so palco, Flowdan garantiu-nos que faria saltar o público e que soltaria os graves mais pesados do universo. Promessa cumprida, com uma actuação de energia plena, contagiante e demolidora. Como deve ser, portanto.

Miss Red seguiu o exemplo. A artista que ainda recentemente se apresentou no Milhões de Festa, ladeada por The Bug, puxou pelos limites do sistema de som, empolgou, espalhou a sua sensualidade afirmativa e obrigou todos os presentes que lotavam o espaço a curvarem-se ao seu irresístivel flow e groove.

Depois de tamanha dose de graves, flows, de tantas variações de velocidade, mas com o peso sempre pronunciado, o corpo cedeu à pressão imposta por Flowdan, The Bug e Miss Red e exigiu descanso.

No final, uma óbvia conclusão: a duas horas de carro do Porto há um festival alternativo que decorre num cenário diferente e que nos propõe a exploração de alguns dos mais interessantes caminhos da electrónica contemporânea. Tudo boas razões para pensarmos em metermo-nos ao caminho. Peregrinar pode fazer bem aos ouvidos.

 


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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