WOS Festival’18 – Dia 1: electrónicas fracturantes em cenário medieval

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTOS] Direitos Reservados

De certa maneira pode pensar-se nos públicos que acorrem aos festivais como uma espécie de peregrinos modernos. Talvez a componente espiritual da demanda colectiva não seja tão pronunciada quanto as dos que se fazem aos Caminhos de Santiago, ainda assim faz-se um caminho e procura-se alguma coisa com a certeza de que se deverá regressar a casa transformado por uma experiência especial.

Não tenho a certeza que seja essa a ideia que anima todos os ontem foram preenchendo as lotações disponíveis nos diferentes espaços em que aconteceram espectáculos do Work On Sunday, um fantástico evento pluridisciplinar que desde o passado dia 12 está a decorrer em Santiago de Compostela, na Galiza que tão boa vizinhança faz ao norte do nosso país. A sofisticada programação musical deste festival — que também tem uma programação de cinema ou de debates a correr em paralelo — arrancou ontem com a actuação da japonesa Tomoko Sauvage na Igreja da Universidade.

Antes disso visitei o espaço Numax, um dos que recebe a programação de cinema do WOS e onde ontem foi exibido o documentário Full Mantis dedicado ao percussionista de jazz americano Milford Graves. Além de sala de cinema alternativo, o Numax é também uma fantástica livraria dedicada ao cinema e a galáxias adjacentes, com bem cuidadas secções de artes plásticas, fotografia, teatro e, claro, música, com espaço também para DVDS, CDs e vinil. Curioso pensar como um espaço com este perfil consegue sobreviver numa pequena e periférica cidade espanhola, mas nada de remotamente parecido exista em Lisboa…

 



A artista que se apresentará no espaço da Mãe de Água no âmbito do Lisboa Soa no próximo dia 20 levou a sua música a um espaço diferente, com a nave da igreja a ser mantida essencialmente na penumbra e só o altar a ser moderadamente iluminado. Opção acertada já que a música que Tomoko produz com recurso a taças cheias de água em que estão mergulhados hidrofones é simplesmente incrível. As suas taças funcionam como uma espécie de geraradores de tons que depois processa com recurso a alguns pedais de guitarra e mesa de mistura, tratando-o setup como um sintetizador primitivo, capaz de uma ampla planeta sonora no entanto, que nos remete para a primal ressonância das taças budistas ou para algumas experiências de new age. Um espectáculo que o público nacional deveria tentar apanhar no Lisboa Soa, ainda por cima com o cenário especial a oferecer um argumento extra à música de Tomoko Sauvage.

Antes do concerto imersivo de Abul Mogard e Marja de Sanctis no Teatro Principal ainda houve tempo para espreitar a apresentação das Sésions H.A.L.O. no espaço da Fundacion Eugenio Granell que hoje receberá, por exemplo, o rapper norte-americano Oddisee. O projecto Fonogenia reúne os talentos de Macarena Montesinos (violoncelo), Elena Vázquez (violino) e Madamme Cell (electrónica). No belíssimo terraço da F.E. Granell, com vista directa para os edifícios medievais circundantes, os improvisos do trio criaram um ambiente de hipnótico desvio da realidade, com um discurso propositadamente fragmentado, como se o trio procurasse permanentemente o desconhecido, desviando-se conscientemente de qualquer linguagem reconhecível.

Bem diferente foi a viagem de uma hora conduzida por Abul Mogard na sala do Teatro Principal, similar, em escala mais reduzida, ao lisboeta São Luiz. O artista tudo tem feito para projectar a sua música abrasiva enquanto ao mesmo tempo protege a sua identidade, sendo extremamente reservado, pouco se conhecendo da sua história, para lá de algum folclore que não se sabe ao certo quanto tem de fantasioso (trabalho numa metalurgia sérvia até que um dia começou a fazer os seus instrumentos…). De facto, o artista que tem editado na VCO de A.E. Paterra e Steve Moore dos Zombi ou na Ecstatic de Alessio Natalizia (que já este ano lhe lançou Above All Dreams), não revelou muito nesta sua apresentação em que surge de silhueta recortada por trás de um diáfano ecrã que recebe as projecções da artista visual Marja de Sanctis, brasileira residente em Londres.

Sob o que parece a velha “chuva” que surgia nos ecrãs das antigas televisões quando a recepção da emissão falhava, Mogard conduziu-nos por uma hora de música estruturada entre o ambiental e o profundamente abrasivo, sendo apenas prejudicado pela impossibilidade de nos submeter a todos a um volume mais castigador: sempre que os graves começavam a impor-se toda a estrutura de madeira do teatro ressoava dissonantemente, impedindo que se escalasse a montanha dos decibéis que certamente se deveria subir nesses momentos. O imersivo concerto terminou quando toda a plateia foi envolvida por uma nuvem de fumo, como se todos tivéssemos sido engolidos pelo ambiente distópico desenhado pela pulsante electrónica de Abul Mogard. Mesmo estando confortavelmente sentados, saímos do Teatro Principal com a sensação de quem acabou de ser espancado no meio da rua…

O final da noite (para o ReB pelo menos) fez-se na Sala Capitol, excelente espaço de concertos onde ontem se apresentaram os alemães Kreidler e as japonesas Group A.

 



O quarteto de Dusseldorf alinhou-se pela estética pós-rock no início da carreira, que data de 1994, mas no presente pode dizer-se que Thomas, Detlef, Andreas e Alex são donos e senhores da sua própria identidade sonora. European Song, álbum editado o ano passado pela Bureau B e que dizem ser inspirado pela subida ao poder de Trump, foi o centro da sua apresentação. Baixo, bateria, e electrónicas variadas – computador, synths, caixas de ritmos e até um telemóvel servem de arsenal aos Kreidler em palco – sustentam uma música pulsante e vigorosa que soa como se os alemães tivessem depurado os mais avançados ensinamentos dos Talking Heads até à sua essência rítmica dispensando tudo o resto: adornos melódicos e harmónicos e tudo o resto que faz as canções serem canções. Assim, nos Kreidler, tudo é nervo, propulsão, movimento, facto a que o público corresponde assumindo o apelo à dança que, no entanto, não se pode ter a certeza absoluta que seja o grande objectivo dos alemães.

A última apresentação da noite no Capitol coube à dupla de Tommi Tokyo e Sayaka Botanic. As Group A têm sobretudo editado trabalhos em limitados registos de autor, mas o ano passado estrearam-se na italiana Mannequin, selo que tem explorado várias nuances da cena minimal wave. Já este ano, lançaram também na Kashual Plastic, selos que têm vincado o perfil arty de um projecto que se assume como descendente de visões de ruptura como as dos japoneses Hi-Red Centre ou dos britânicos Throbbing Gristle e Cabaret Voltaire.

Violino processado, electrónica e uma voz quase imperceptível mais imagens abstractas projectadas e uma dimensão performativa dão conta de que a dupla há-de estar mais habituada aos espaços mais desafiantes das galerias de arte do que de salas de concertos convencionais, ainda assim a sua capacidade de concentração de atenções é muito elevada.

A noite terminou altas horas na sala Malatesta onde se apresentaram os Death Whistle, Laurel Halo e Ron Morelli, mas o adiantado da hora combinado com um despertar madrugador para fazer o caminho até Santiago impuseram o interessante som das japonesas como a banda sonora final da noite.

Para hoje adivinha-se intensa jornada com Russinha, Abu Sou, Suso Saiz, Clothilde, Nadah El Shazly, Oddisee, Miss Red com The Bug ou Flowdan.

 


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu