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Fotografia: Steve Gullick

MF DOOM, Samuel T. Herring e Sudan Archives fazem parte da lista de créditos do mais recente longa-duração do multi-instrumentista.

Wilma Archer: “A Western Circular não é o tipo de álbum que te agarra logo à primeira. Precisas de investir”

Fotografia: Steve Gullick

Anteriormente conhecido como Slime, o músico britânico regressa agora aos discos a solo enquanto Wilma Archer, deixando morrer o seu antigo nome para gerar algo mais pessoal e orgânico. Criado praticamente em isolamento, com o artista a explorar as suas ansiedades e o seu medo da fatalidade, A Western Circular é um álbum envolvente, mas que, segundo o próprio, precisa de oportunidades e de ser escutado com atenção. Precisou de cinco anos para ver a luz do dia e, tal como o nome indica, chegou curiosamente para fechar um ciclo. Se as suas origens partem do confinamento, o seu lançamento, em Abril, foi marcado por toda ansiedade do lockdown a que o COVID-19 nos obrigou.

Falámos disso com Will Archer, mas também das duas influências clássicas que envolvem o seu jazz, do peso da obra de John Fante no disco, da importância da saúde no seu trabalho e no final ainda nos revelou os novos planos para o seu projecto paralelo com Pyramid Vritra.



Entraste nos ouvidos do mundo como Slime mas, cinco anos depois, apresentas um trabalho claramente distinto enquanto Wilma Archer. A Western Circular distancia-se da electrónica, mas com isso trouxe um registo mais pessoal?

Sim! É claramente diferente. Apesar de ter escrito, produzido e feito os arranjos dos dois álbuns, enquanto Slime toquei todos os instrumentos, ao contrário deste em que só toquei guitarra, piano e algum baixo e bateria. Tive músicos a tocar saxofone, cordas, baixo, bateria… São músicos que tocam melhor esses instrumentos que eu. Estiveram a vida toda a aperfeiçoar a sua técnica e isso permitiu que as minhas ideias fossem mais facilmente executadas. Slime foi algo mais electrónico em que compunha tudo de uma forma muito escalada na minha cabeça. A Western Circular é algo muito mais fluído e orquestrado. É muito mais pessoal.  

Demoraste cinco anos a produzir esta álbum. Nesse período calculo que houve mudanças na tua vida, mas também o próprio Reino Unido sofreu mudanças radicais a nível social, político e económico. Como resposta a isso, a música britânica parece caminhar por terrenos mais abrasivos como o punk, o gabber ou o grime. Apesar de toda a ansiedade presente no teu álbum, ele não parece reflectir essa tendência. Sentes que precisamos de comunicar de forma mais branda e pacífica e não tão impetuosa?

Eu penso que a música é apenas uma expressão dos sentimentos das pessoas. Tu podes estar extremamente revoltado com algo, mas isso pode ser manifestado de uma forma calma e delicada. Podes ter o melhor dia da tua vida e fazer a maior brutalidade de som imaginável. É apenas uma resposta para a pessoa que faz a música. É apenas um meio para um fim, apenas acontece. No meu caso, a música do meu álbum não é, definitivamente, uma resposta a qualquer momento péssimo que tivemos no Reino Unido nestes últimos cinco anos, mas é algo centrado no que aconteceu na minha vida. Entre os 24 e os 29 [anos], a minha vida mudou imenso, e todo o álbum é sobre isso, em particular sobre ansiedade e problemas de saúde.

Descreves este álbum como sendo inspirado pela obra The Bandini Quartet, de John Fante. Um trabalho que abraça a inevitabilidade, mas também o terror que isso implica. Não deixa de ser curioso que estejamos a viver esses mesmos sentimentos nesta altura.

Exacto! Foi um timing curioso. Livros são livros, podemos sempre viver através deles. Este é um álbum que fala sobre ansiedade constante, sobre a consciência da tua mortalidade e tudo o que isso significa. A ideia da tua jornada e dos estatutos sociais e quanto tu conquistaste durante a tua vida. É apenas ansiedade enquanto saúde. É uma doença que afecta muitas pessoas e que ainda ganhou mais peso em 2020. Gostava de ter crédito por adivinhar, mas foi apenas uma enorme coincidência. Eu penso que a capa do álbum traduz bem o que foram estes seis meses. O sentimento de medo, de estar assustado, de que algo fora do nosso controlo vai acontecer.

Curioso falares na capa porque ia tocar nisso. Ao ouvir o álbum senti que estava a ouvir a banda sonora de uma personagem qualquer e depois observei a capa. Estavas a fazer a banda sonora dessa personagem?

De certa maneira. Outro factor que liga este álbum à obra de John Fante é que todo o seu trabalho gira a volta dele, à volta dos seus pensamentos e dos seus processos. Os seus pensamentos são uma espécie de delírios de grandeza. O facto de todo o álbum ser escrito por mim, de o tocar sozinho, apenas numa sala, traduz isso. Eu vivi sozinho num espaço durante dois anos, e maior parte do álbum nasceu nesse período, quasndo parecia que nada acontecia e isso foi uma boa circunstância. Acabou por ser um processo muito isolado e solitário e preenchido com as circunstâncias de saúde e [aquilo] que sentia sobre mim naquele período.

Fala-me sobre como é estar sozinho no processo criativo.

É melhor. Para mim é melhor, criativamente. Eu vivi em Paris durante um ano e então decidi regressar a Inglaterra, mas não tinha dinheiro para ficar em Londres. Tive de regressar a Newcastle, que é a minha terra natal. Procurei algo realmente barato e estive dois anos sozinho a fazer música ou a trabalhar em algo ligado a ela. Não tinha mais nada para fazer, mais nenhum sítio para estar, nenhuma responsabilidade, apenas fazia música e via o que acontecia. Curiosamente vivia muito próximo da minha escola, mas todos os meus amigos tinham abandonado Newcastle. Estava num sítio familiar, mas onde não conhecia ninguém. Foi bastante estranho. Criou aquele sentimento de estar isolado e completamente sozinho.

Talvez isso tenha gerado toda a tristeza e ansiedade presente no teu som?

Sim, quando vives sozinho, tu acabas por criar ideias de culpa na tua cabeça. É muito fácil criar ciclos de pensamentos negativos, que podem ser difíceis de destruir. Quando vives com a tua mulher, namorada ou amigos, acabas por partilhar sentimentos e por vezes deixas de estar preso nesse ciclo. Sem isso crias toda a ansiedade.

Lançaste o álbum em Abril, o que faz com que seja um álbum que nasceu no pico da pandemia, e tem vivido numa altura em que nos pedem distanciamento e, naquele período, até isolamento. Como foi lançar um álbum nesta fase? Sentes que as pessoas ao ouvi-lo se revêem na tua experiência?

Ver isso seria bom, mas não penso que seja o caso. Não é o tempo ideal para se lançar um álbum. É péssimo, por sinal. Nesta altura estava a ensaiar com uma banda de nove elementos, fazia uns três meses. Finalmente estávamos a chegar ao ponto em que tocávamos bem juntos e funcionávamos como um todo, e depois aconteceu o lockdown, e ficámos todos a saber que não ia acontecer qualquer concerto durante muito tempo. Perdemos todo o momentum enquanto banda, vamos ter de dar passos atrás. Com banda seria a melhor forma de passar as músicas às pessoas, porque este não é o tipo de álbum que te agarra logo à primeira, precisas de investir. Acredito que tens de o ouvir durante um tempo repetidamente, como uma procura de resposta até teres o teu momento touché. É mais um álbum sobre revisitar, um álbum em que dizes “ok, isto é intrigante. Talvez volte a ouvir e espero vir a ser recompensado após algumas audições”. É, sem dúvida, a pior altura para se lançar um álbum, mas na realidade ninguém quer saber disso.

Sentes que esse clima social actual pode ser traduzido no teu futuro enquanto artista?

Não penso que o que está a acontecer agora vá influenciar o meu trabalho. Nem os problemas sociais como o Black Lives Matter ou o COVID-19. Não acho que vão ter particular peso. Não é a forma como opero em termos musicais, contudo estou afastado do estúdio há quatro meses. Aliás, tive de mudar de estúdio por causa dos acontecimentos actuais. Mas não tenho tido grande disponibilidade para escrever material novo nesta altura, nem muita energia para isso.



O teu álbum é preenchido por vocalistas. Tens a Sudan Archives, o Samuel T. Herring, a Laura Groves, mas penso que a maior voz do álbum é o violoncelo. Qual é a influência do instrumento em A Western Circular?

Eu concordo. Eu simplesmente sabia que queria ter um violoncelo. Eu compus e gravei o álbum em órgão e guitarra, mas sabia que era apenas algo temporário porque depois queria expandi-lo até outras vozes e o violoncelo pareceu-me a forma mais lógica em termos sonoros para traduzir aquilo que estava a escrever na guitarra. Eu ouvia e tocava na guitarra, mas imaginava em violoncelo. Por outro lado, eu estava à procura de mais um tema para o álbum e vi no violoncelo algo que realçava o conceito do A Western Circular. Um instrumento altamente ocidental, que historicamente, na Europa, é associado a música de classes altas, que ganhou uma estranha reputação e estigma que os prenderam aos valores católicos no oeste, mas que até nem acho que sejam muito transmissíveis para o violoncelo. Ele acabou por se tornar em mais um tema do álbum.

Por falar em vocalistas, acabaste por captar um Samuel T. Herring mais próximo do seu trabalho com os BadBadNotGood do que com Future Islands. Foi algo propositado?

A minha intenção era apenas criar o instrumental mais interessante de sempre para ele, e ver como ele respondia ao que criei. Ver para onde ele levava a música, ou o que ouviu nela. A voz dele é extremamente versátil e por isso queria fazer algo que fosse intrigante. O resultado acabou por levar a isso.

Em A Western Circular dá para ouvir jazz, pop, influências clássicas e até prog, mas eu penso que há algum hip hop para lá de ter a voz de MF DOOM. Qual é a importância do hip hop na tua carreira?

Eu não diria que o álbum se possa categorizar como hip hop. Às vezes as pessoas categorizam como tal apenas por ter um MC. Eu não levaria as coisas para aí, é apenas mais uma voz. Não sei se diria que é uma ferramenta. Eu ouvi hip hop a minha vida inteira, sobretudo o que era feito em Newcastle e não tanto as coisas de Londres, como o grime. Newcastle não é uma cidade com essas raízes e por isso não é fácil começares uma carreira a fazer algo relacionado com hip hop, mas é, sem dúvida, uma influência sobretudo no lado instrumental, muito mais até que liricamente.


O que dirias que influenciou sonoramente o teu álbum? Por momentos dá para ouvir uns apontamentos de Kamasi Washington, BadBadNotGood, mas também muita música clássica.

Eu apenas penso que foi o processo dos cinco anos a fazer o álbum que eventualmente levou a isso. Quando estudei, eu lia muita música, porque tocava saxofone, entretanto comecei a tocar bateria, que também tens notas, mas é um instrumental atonal. Preocupas-te mais com ritmos, não com notas e não precisas de perceber harmonias. Acabei por deixar a escola porque procurava outras linguagens, mas as músicas que aprendi na escola, sobretudo algumas peças de Haydn e Schubert acabaram por ficar na minha cabeça, até que tive tempo suficiente sozinho para escrever estas músicas. Penso que foi algo entre isso e o facto de ter estado isolado.

Tens planos para próximas produções já definidos?

Estou a finalizar um novo trabalho com o rapper Pyramid Vritra. Está quase concluído e espero que seja lançado no final do ano. Por ser colaborativo é mais rápido e não obriga a uma perda tão grande de energia. Fazer algo sozinho, obriga a ter mais paciência, a sentires-te mais inspirado. Nesta altura ainda estou à procura de ideias, mas tenho a certeza que será algo melhor. Melhor é sempre algo subjectivo, mas pelo menos algo que irá mais longe, um próximo passo.

O que levou à mudança de nome?

Mudei porque na realidade nunca escolhi o nome Slime. Basicamente fiz uma música com um amigo enquanto fumávamos imenso. Enviámos a faixa a um outro amigo que tinha um blogue e escrevemos “Slime” na brincadeira. No dia seguinte a música estava em cinco blogues, na Pitchfork e coisas assim. Literalmente não tive nada a dizer sobre isso, apenas funcionou assim na altura, nunca foi realmente a minha intenção.

Interessante dizeres isso porque, com a quantidade de rádios online que se estão a formar no Reino Unido, parece que esses acontecimentos voltaram a ter uma nova vida.

Sim, para mim é muito mais interessante. Quando comecei em 2010, havia uma enorme cultura blogue que estava extremamente activa. Era muito mais orgânico e interessante para conquistar novos fãs, agora parece que se não tiveres incessantemente activo nas redes sociais, não consegues ser relevante e detesto isso.

Queria-te perguntar sobre algo que escreveste que achei extremamente bonito e assustador ao mesmo tempo, para um músico. “Aceitar que ao fim de alguns anos a escrever, torna-se óbvio que ainda faltam alguns anos para acabar”. Fala-me desse sentimento.

Eu penso que esse sentimento aplica-se a todos os fazem algo criativo, quando não tens um objectivo claro ou um fim concreto. Apenas acabas quando queres. É tudo sobre como reage a audiência. Se receberem positivamente o teu trabalho, ok, sabes que fizeste bem em terminar. Podes estar orgulhoso. Mas se existir alguma crítica, algum apontamento, achas que não ficou terminado, apenas que lançaste. Eu penso que há algo bonito nisso, porque sentes que podes voltar às músicas.


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