Will Samson actua hoje em Espinho e no domingo em Lisboa: folktrónica analógica a embalar canções nostálgicas

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTO] Sam Lea

O último álbum de Will Samson, Welcome Oxygen (talitres Records), inclui um tema com o título “O Medo”, algo que se compreende quando se descobre que esse trabalho foi maioritariamente composto e gravado em Portugal numa intensa semana de criação. Já este ano, a editora de cassetes belga Dauw lançou a preciosidade A Baleia, uma colecção de quatro peças ambientais e electrónicas com títulos como “Faroleiro” ou “Vozes Encontradas”.

Além de reforçarem ligações ao nosso país, estes dois trabalhos demonstram bem o espectro estético em que Will Samson gosta de navegar: algures entre uma delicada folk que se traduz em canções profundas e apaixonantes – que a revista Exclaim garantiu serem o resultado de “uma escrita que tem vindo a ganhar força” – e derivas electrónicas ambientais que nascem da sua paixão pelas tecnologias analógicas de síntese e gravação: o “grão” das velhas gravações em fita magnética é algo que apaixona Samson.

Nascido no Reino Unido em Dezembro de 1988, Will Samson reside actualmente em Bruxelas, na Bélgica. Em 2012 lançou o aclamado álbum Balance (Karaoke Kalk), trabalho que foi masterizado por Nils Frahm, uma das suas referências. Foi logo em Balance que Will formulou a folk e a electrónica como molduras da sua arte.

Nesse ano, a Drowned in Sound escrevia: “No que a bandas sonoras de culto diz respeito, Eternal Sunshine of the Spotless Mind nunca foi propriamente um marco, mas é óbvio que surtiu um profundo efeito num músico experimental. Aos 23 anos, Will Samson ergueu Balance a partir de tudo aquilo que ama: cassetes no seu Tascam de 8 pistas, a música de acordeão cheia de ruído de vinil da Musette e a estranha e íntima amnésia que é a banda sonora do compositor Jon Brion. O resultado é uma salada diversa e isto mesmo depois do produtor Nils Frahm ter operado a sua magia em cima do trabalho, envolvendo cada pedaço de silêncio em pó de fadas”.

 



Seguiram-se as edições de Light Shadows, um EP, e de Ground Luminosity (Talitres), álbum de 2015. Nestes dois trabalhos, Will aprofundou a sua escrita e acrescentou novas texturas ao seu trabalho, como o uso subtil de violinos, resultado do seu encontro com Beatrijs De Klerck, talentosa violinista que já tocou com artistas como A Winged Victory for the Sullen. Beatrijs continua a colaborar com Will em palco e no estúdio até aos dias de hoje.

Animal Hands (Karaoke Kalk), trabalho lançado também em 2015, foi o resultado da colaboração com o produtor berlinense Heimer, um parceiro natural dada a paixão que ambos nutrem pela electrónica mais orgânica.

Sobre o mais recente A Baleia, o site Exclaim oferece outra ideia: “Alterando o caminho de folk electrónica seguido no seu mais recente lançamento, Will Samson, de Oxford, usa loops de fita tratados e performances de convidados cuidadosamente escolhidos para desenhar um belíssimo EP de quatro canções banhado calorosamente em meticulosas camadas de sons ambientais”.

Ao longo destes anos de escrita e gravação, recheados de belíssimos lançamentos, Will Samson também se fez à estrada e tem-se apresentado ao vivo com frequência no Reino Unido e na Europa ao lado de artistas como The Album Leaf, Shearwater, Pinback, Marissa Nadler ou Kurt Vile. Assinou também primeiras partes para Ólafur Arnalds, Timber Timbre e vários outros artistas, estabelecendo afinidades e cumplicidades que atestam bem a natureza da sua fascinante música.

Hoje será a vez do Auditório da Academia de Música, em Espinho, o receber. No domingo apresenta-se no Cinema São Jorge, em Lisboa. Ambas as datas integram-se no cartaz da edição 2018 do Misty Fest.

 


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NR: versão original do texto escrito a convite do Misty Fest.

Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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