Wet Bed Gang // Filhos do Rossi

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[TEXTO] Samuel Pinho

Contar os dias, as semanas e os meses enquanto aguardamos por algo que sabemos estar para breve é um exercício de estóica paciência. Ainda que sem meio de saber bem quando, tinha a perfeita convicção do que esperar: sem falsas expectativas ou imodestos receios. E mais uma vez, de resto como vem sendo hábito quando o tópico é o (já) famigerado quarteto, Filhos do Rossi foi talhado para personificar a certeza que os Wet Bed Gang aspiram a ser. Nisso, e num par de surpresas que parecia ter especialmente reservadas para o público, o grupo acabou por cumprir com excelência.

No EP de estreia constam 8 faixas – 3 singles já conhecidos de antemão: “Essa Life É Good”, “Todos Olham” e “Não Tens Visto” – e uma única colaboração: Jimmy P. Permitam-me a veloz arrumação da parte menos prazerosa, e por conseguinte, o que a meu ver deverá e poderá ser aprimorado no próximo projecto do grupo: não há um conceito inerente a este EP, nem sequer um fio condutor ou uma big idea comum a todas as faixas. Filhos do Rossi assume a forma de um simples showcase dos atributos lírico-vocais destes quatro mosqueteiros. Tendo em conta o talento individual que ostentam, já não é coisa pouca.

Notem, não há nenhuma peça enciclopédica ou manual de normas indicando que todo o rap possa, ou deva, ser consciente. Nem toda a música deve ser – necessariamente – de intervenção. Óbvio que é uma condição essencial de possuir, mais ainda se reivindicamos os lugares cimeiros de um estilo musical, hierarquicamente falando.

Essa parece ser uma discussão recuperada pelo regresso de Valete e é arma de arremesso para outras batalhas campais. Porém, há um amargo de boca que me fica no palato. Se Gson, Zara G, Zizzy e Kroa provaram ser capazes de entregar faixas bem-conseguidas, tanto sonora como liricamente, enquanto rimam com mulheres, egotrips recorrentes e contra uma 3ª pessoa do plural nunca clarificada mas sempre visada, imaginem do que o grupo seria capaz se veiculasse o conteúdo certo, no tom ideal. Mais do que outros traços ou qualidades, é isto que define os WBG: esta mentalidade DIY entranhada, aguerrida e sem medo de passos em falso. A evolução do grupo está bem patente no projecto de estreia, mais ainda se tomarmos como referência os primeiros vídeos carregados no YouTube, há já mais de 2 anos.

 



“Kill’em All” é a referência principal de um conjunto robusto de faixas e a sucessora natural do banger “Não Tens Visto”: há espaço para todos os intervenientes exporem as respectivas skills. O rapper do Norte – presença estranha nestes terrenos – domina o refrão com o timbre que lhe é característico, refrescando uma track que seguia desenfreada, muito por culpa das rimas sôfregas de Gson, Zizzy e Zara G. Flows que pouco ou nada devem a regras de métrica ou versos que – na estrita acepção do termo – nada têm para rimar e que ainda assim resultam em rimas bem orquestradas.

“Tudo Passa” desmaterializa a uniformidade de um álbum que parecíamos adivinhar (e ainda bem), trocando-nos as voltas e brindando-nos com Gson num formato de inenarrável intimidade. Acompanhado por uma guitarra – que bem podia ser portuguesa e constar num desses belíssimos fados que por aí proliferam – o rapper da Vialonga difunde um bloco compacto de versos que facilmente se confundiriam com poesia, não fosse a colocação perfeita que cada um deles tem em beats que vão mantendo a constância, exceptuando paragens ocasionais que entregam todo o protagonismo à voz, com os versos solitários a desenharen (e a ganharem) um ritmo próprio.

Este registo sublinha a versatilidade de um grupo que há sensivelmente um ano tinha praticamente pouco mais que um hit gravado em Lisboa. Mas eles são os mesmos sobre os quais recai hoje a espinhosa responsabilidade de personificarem a maior promessa do rap português, pelo menos no que a colectivos concerne. É verdade que o panorama nacional tem adulado artistas que nem sempre pautam por exibir os níveis de qualidade mais elevados, o conteúdo exaustivamente pensado ou a mensagem mais bem polida. E Wet Bed Gang tem esse lado sujo, dirty e de bajulação excessiva. Está sempre junto ao teor emocional de cada faixa, entregue com a plena convicção de quem está a fazer com o coração o melhor que sabe.

E tudo isso rende, afinal de contas, uma das histórias de amor mais ternas do rap nacional.

 


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