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Publicado a: 10/04/2017

Westway Lab Festival – dia 4: XIXA penico!

Publicado a: 10/04/2017

[TEXTO] Manuel Rodrigues

O quarto e último dia de festival começa com chili e guacamole. Não, não são nomes de bandas nem conferencistas, mas sim de recheios para tacos, o nosso pequeno almoço ao estilo do SXSW, inspirado no filme de Jarod Neece, que também publicou o livro The Tacos of Texas. É a primeira vez que a pessoa que assina estes parágrafos come esta iguaria mexicana às dez da manhã e garante: não há melhor despertador, por mais adormecidos que estejam corpo e alma.

Fome saciada, chega a hora de rumar pela última vez à sala de conferências do Palácio Vila Flor. A primeira apresentação, garantida por Susana Costa Pereira, representante do programa Europa Criativa em Portugal, sugere várias formas de artistas e profissionais portugueses encontrarem apoios e parcerias para projetos a nível europeu. O programa é interessante e fácil de entender, pelo menos a nível de intenções: basta aliar à ambição uma visão além fronteiras. Há dois modelos possíveis de financiamento consoante a quantidade de países envolvidos. Se forem três, as ajudas podem ascender a um limite máximo de 200 mil euros; se forem seis, o plafond salta para os 2 milhões de euros. O programa aceita ainda ajudas externas, desde que estas sejam em forma de capital (dinheiro, por transferência) e não de património (casas, salas de concertos, estúdios; nada disto poderá ser aceite). Dito isto, basta dar asas à imaginação e, claro, respeitar os prazos de inscrição, que poderão ser consultados no site da Europa Criativa. Da plateia salta uma pergunta pertinente: “o Reino Unido está incluído na lista de parcerias possíveis?”. Sim, ainda está.

A última conferência do dia, e por conseguinte do festival, dá-nos a conhecer mais um caso de sucesso, o do conservatório holandês ArtEZ. E começa com números arrasadores: com apenas dois anos de graduação, 85% dos alunos desta universidade conseguem trabalho na área, o que sublinha a importância desta escola: desde que foi fundada em 2002, não tem parado de crescer, reunindo cursos de música clássica, jazz, terapia musical, teatro musical, academia pop, música electrónica, entre outros. É o próprio director da escola e um dos professores que tratam de nos apresentar o mercado musical holandês recorrendo a uma espécie de pirâmide (como aquelas que usamos para a alimentação). Na base, encontramos os amadores, autodidatas, qualquer pessoa que consiga produzir ruído a partir de um instrumento. Logo a seguir, surge o desenvolvimento das capacidades básicas, como, por exemplo, os programas de ensino local. Depois, então, as universidades como a ArtEZ. E só no fim os concertos, os festivais e os concursos como o The Voice (na Holanda, o vencedor deste programa consegue construir uma carreira a sério e facturar milhões – quase, mas mesmo quase, mas mesmo quase como em Portugal…). Estes são os resultados mais imediatos. O que a ArtEZ quer a longo prazo é: prestar mais atenção aos talentos da região, aumentar o compromisso entre os artistas e a indústria musical nacional, criar mais conhecimento e autopromoção, melhorar o posicionamento da universidade na cidade e região onde actua, transformar a escola numa marca na indústria musical e no ramo da educação, e promover Enschede, a cidade onde está localizada, como cidade musical. Tanto e, ao mesmo tempo, tão pouco…

A tarde é de descanso e lazer. Saltemos diretamente para programação nocturna.

 


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A primeira actuação é entregue a Lince, projeto da vimaranense Sofia Ribeiro, que também integra os We Trust e os There Must Be a Place. “É um enorme prazer estar em casa. Já cá estive várias vezes, mas esta é a primeira com o meu projecto mais recente; é por isso um misto de responsabilidade e alegria”, confessa a artista ao microfone momentos antes de interpretar “I Was Loving You Instead of Me”, altura em que pede ao público que a acompanhe no refrão. A timidez invade a plateia e são poucos – quase nenhuns – os que acorrem ao pedido da artista. Sentada ao piano, frente a frente com Rui Sousa (um músico extremamente competente e multifacetado que se desdobra em melodia, ritmo e alguns efeitos), vai explorando uma dream pop propositadamente exagerada em reverbs e com batidas recortadas e secas, a fazer lembrar, em algumas ocasiões, o percurso de Lana del Rey. O concerto é eficaz o quanto baste e arranca aplausos ao público presente no Pequeno Auditório do Centro Cultural Vila Flor, assim como pedidos de encore.

Na porta ao lado, no Grande Auditório, os You Can’t Win, Charlie Brown fazem a perfeita ponte entre o carácter mais suave e electrónico de Lince e o rock ciclónico dos XIXA. O concerto, curto mas intenso, viaja por alguns dos episódios discográficos do colectivo, que se apresenta sem David Santos (Noiserv), mas com um substituto à altura, António Vasconcelos Dias. “Above the Wall” e “Be My World” são duas das músicas interpretadas, num espetáculo que colocou, mais uma vez, a qualidade dos instrumentistas deste sexteto (Afonso Cabral é irrepreensível na voz; Tomás Sousa é incansável na bateria; Guilherme Canhão, Salvador Menezes e António Vasconcelos Dias garantem o sustento melódico e harmónico; João Gil remata este puzzle com a sua faceta de multi-instrumentista), trazendo à memória um muito bem-sucedido e altamente elogiado concerto na discoteca Lux, em 2012, altura em que tocaram o “álbum da banana” dos The Velvet Underground, no âmbito das noites Black Balloon, de Pedro Ramos, e que os próprios ainda guardam na memória. “Uma das duas interpretações que fizemos desse álbum foi neste mesmo espaço”, recorda Afonso Cabral ao microfone, como forma de sublinhar os bons momentos que já aqui viveu. De resto, uma performance imaculada, como seria de esperar.

 


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Seguem-se os XIXA, uma banda norte-americana, com raízes no Arizona, que tem na sua identidade um rock massudo e poderoso, capaz de sacudir o pó das cornetas de qualquer que seja o sistema de som por onde se expressem. Para tal, recorrem a um generoso conjunto de cordas (duas guitarras e um baixo, para sermos mais precisos), ligados a uma imponente parede de amplificadores que não poupa um único décibel ao ouvido. Mas não só. Na secção rítmica, é possível encontrar um percussionista e um baterista, ambos importantes na missão da banda. O primeiro é eficaz na desmultiplicação do ritmo base do rock, levando-nos a atravessar, por diversas vezes, a zona fronteiriça de Nogales. O segundo é um autêntico brutamontes capaz de transformar a bateria num saco de boxe (a dada altura, de tanto bater, manda um dos pratos ao chão, o que obriga à intervenção de um dos elementos da equipa técnica). E é precisamente nesta fusão de rock musculado com uma vertente assumidamente mariachi que os XIXA encontram a receita certa para contagiar a plateia do Grande Auditório de Vila Flor. A própria indumentária e coreografia ajudam nisso: vestidos de preto (o vocalista exibe ainda um vistoso chapéu de abas largas) vão ensaiando o esquema de passos direita-esquerda de uns Temptations ou Commodores. A metáfora é inevitável: enquanto muitos querem, a todo o custo, separar, delimitar e oprimir, ainda há quem se esteja completamente a marimbar para muros, fronteiras e condicionamentos bacocos. Só no tempo que levámos a pensar nestes parágrafos, os XIXA visitaram o México umas vinte ou trinta vezes. Se juntarmos a isto os tacos matinais, corremos seriamente o risco de iniciar uma uma guerra diplomática.

O remate do festival é entregue aos :papercutz, que se apresentam em formato trio (Catarina Miranda, Bruno Miguel e André Coelho) no Café Concerto do Centro Cultural Vila Flor. É o retorno à calma, depois da agitação dos XIXA, e o regresso à electrónica, depois das guitarras e amplificadores. O adeus ao Westway Lab faz-se ao som de instrumentais ricos e variados (um pouco à imagem do festival) e de uma voz bela e magnetizante (espelho da própria cidade-berço). Maravilhoso.

Adeus Guimarães.

 


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