Westway Lab Festival – dia 3: a descomunal ensaboadela de Silverman

[TEXTO] Manuel Rodrigues [FOTOS] Direitos Reservados

Os festivais portugueses têm por hábito começar tarde e acabar a horas que não lembra a ninguém, muitos deles perto daquela altura da manhã em que os primeiros raios de sol se começam a avistar no horizonte, o que significa que, se por ventura trabalharmos na indústria da panificação, estamos safos: saímos do recinto, pegamos ao serviço, completamos o nosso turno e vamos descansar. Infelizmente, a realidade é outra. O que acontece, na esmagadora maioria dos casos, é exatamente o contrário. Trabalhamos o dia inteiro, chegamos tarde aos festivais e, normalmente, quando se aproxima a hora da atuação do último artista, já não nos aguentamos de pé. Que sentido é que isto faz? Nenhum. E o exemplo estende-se aos concertos em nome próprio. Há espetáculos por esse Portugal fora a começar a horas totalmente descabidas.

O Westway Lab tenta a todo o custo quebrar esse mau hábito que os festivais têm de atirar com a sua programação para horários noturnos e, muitas vezes, madrugadores, motivados pelo nosso vício cultural de sair tarde de casa. O último concerto acaba por volta da meia-noite e as Conferências Pro iniciam-se às dez em ponto, o que se encaixa perfeitamente no ritmo laboral – não há cá necessidade de adaptação e muito menos dramas de jet lag. É precisamente a essa hora, com uma pontualidade de fazer inveja aos britânicos presentes em Guimarães, que o Rimas e Batidas chega à “sala de aula” do Palácio Vila Flor, para assistir ao painel “Os Festivais SXSW e SXSW Film”.

 


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Mirko Whitfield e Claudette Godfrey, representantes do SXSW e SXSW Film, respectivamente, começam por apresentar o festival de forma muito (demasiadamente…) cronológica, recorrendo a uma página da Wikipédia como bengala para o discurso, mergulhando a conferência numa monotonia bizarra e enfadonha. “Este foi o ano em que introduzimos isto”, “aquele foi o ano em que fizemos aquilo”, mostram um teaser de 2016 com vários sectores do mercado laboral a serem referenciados, como forma de comprovarem a diversidade do evento, e ainda partilham um quadro sobre a utilização das redes sociais pelos visitantes do festival. A conferência só ganha realmente ênfase quando alguém puxa o assunto dos vistos para poder ir ao festival e todas as dificuldades e limites impostos a uma banda que queira fazer uma digressão nos Estados-Unidos, isto horas depois de termos lido nas notícias que Trump lançou 59 mísseis sobre a Síria. Benza a Deus, os norte-americanos nunca precisam de vistos e convites para visitar outros países.

Segue-se aquele que é, muito provavelmente, o momento mais aguardado das Conferências Pro, a palestra de Tom Silverman, fundador da editora Tommy Boy, que já ontem se mostrou bastante informado nas temáticas relacionadas com a indústria musical. Tom começa por apresentar-se à plateia. Traça o seu caminho enquanto homem ligado às edições discográficas, mas não perde muito tempo nesse campo. Rapidamente avança para a relação próxima que mantém com associações como a A2IM (American Association of Independent Music), Merlin e WIN (Worldwide Independent Network). O suspense mantém-se durante os primeiros minutos da oratória. Qual será o assunto que Tom Silverman, autêntico sábio com visual à Tom Waits, vai abordar na sua keynote talk? Portugal. Isso mesmo, leram bem, Portugal. Silverman trata de traçar um perfil do nosso país no que diz respeito à utilização de plataformas de streaming, Internet (de modo geral) e compara-nos com outros países europeus, recorrendo a números, gráficos e percentagens que recolheu num profundo e cuidado trabalho de casa. E desenganem-se aqueles que pensam que Portugal tem uma boa percentagem de utilizadores de internet. Numa população de 10.374.822 apenas 7.015.519 fazem uso dela, o que se traduz em 67.6% de penetração (sim, é assim que se diz). Estamos atrás de países como a Eslováquia (83.1%), Lituânia (82.1%), Letónia (82%) e Eslovénia (72.6%), o que para Silverman é ridículo. Alguém na plateia tenta justificar a percentagem baixa com o facto de sermos um país envelhecido, com uma população muito idosa no zonas do interior. A resposta não se faz tardar: “os meus pais têm ambos mais de oitenta anos e isso não os impede de se ligarem à internet”. Para o palestrante, este é um problema que influencia não só a fraca utilização de serviços de streaming em Portugal, mas também a educação e o acesso à informação de modo geral.

Um dos gráficos mais interessantes que Tom Silverman apresenta coloca o ano de 2015 e 2016 lado a lado no que toca a vendas da indústria musical nacional. Os números mostram que o formato físico (-2.1%, ainda que as vendas de vinil tenham aumentado em 126%) continua a perder terreno para o digital (+28.9%, sendo que o streaming aumentou em 41.7%). As contas poderão não estar totalmente correctas, admite Silverman, mas o que interessa é o que representam. E estabelece um ponto de comparação: a indústria musical nos Estados-Unidos factura por ano o mesmo que uma cadeia como o Starbucks, o que é preocupante, na visão do empresário. “A música mexe com emoções, faz o mundo andar para a frente, é das expressões artísticas mais importantes, logo, é inconcebível que facture tão pouco. Temos que fazer algo, temos que começar a pensar nestas coisas”. Tom Silverman é um homem de números, é certo, mas é, ao mesmo tempo, um homem que se expressa através dos neurónios. E obriga-nos a fazer uso dos nossos.

Meditemos sobre o assunto…

Das conferências saltamos diretamente para os concertos, mais precisamente para o Grande Auditório do Centro Cultural Vila Flor, local que se prepara para acolher o projeto Quest + Orquestra de Guimarães, num espetáculo intitulado “At The Still Point Of The Turning World”, verso do poema Burnt Norton de T.S. Eliot. Os Quest são Joana Gama (pianista) e Luís Fernandes (músico e sonoplasta), a orquestra reúne trompa, trompete, trombone, violinos, viola, violoncelo, contrabaixo e percussões, a orquestração e arranjos são de José Alberto Gomes, o maestro é Vitor Matos e há também uma equipa que garante o espetáculo a nível de som e luz. Estamos perante uma grande família, não haja dúvidas, mas deixemo-nos de apresentações e vamos ao que interessa.

 


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Os minutos que antecedem a entrada da orquestra em palco são reveladores. Um conjunto de cadeiras vazias aguarda a chegada dos naipes referentes, as torres de percussão anseiam por quem as faça ressoar, o piano aguarda que Joana Gama assuma as suas teclas e um pisca-pisca na bancada de Luís Fernandes denuncia que é dali que serão disparadas muitas das bases para a orquestra preencher. Bem dito, bem feito. Os músicos entram, assumem as suas posições, Joana inicia a peça e Luís segue-lhe as pegadas com efeitos arrastados e pouco harmoniosos. Somam-se a esta miscelânea bizarra apontamentos de orquestra num vaivém quase fantasmagórico (agora estou, agora já não…), aliás, toda a composição se aproxima mais da banda sonora do Eyes Wide Shut de Stanley Kubrick do que propriamente das “Quatro Estações” de Vivaldi. Não é que todas as orquestras tenham obrigatoriamente que seguir ou imitar as grandes obras clássicas (de todo), mas a coragem de desconstruir assim este conjunto de instrumentos merece aplausos, de pé, por mais que o estranho ainda não se tenha entranhado.

Os Quest continuam a viagem pelo seu imaginário. Luís vai lançando loops a partir da sua bancada diabólica (há para todos os gostos, desde um tiquetaquear dessincronizado a um bombo meio empastado), enquanto Joana explora melodias no seu piano (a dada altura levanta-se do banco colocado em frente às teclas, dá a volta ao instrumento, aproxima-se da cauda e manuseia diretamente as cordas, o que produz um efeito difícil de explicar por palavras, mas algures entre o dedilhar de uma harpa e o scratch de um vinil). As percussões entram em modo stomp: tudo se liga e desliga facilmente. Analisemos ao pormenor o poema de T.S. Eliot que inspira a obra. “Nem de onde vens nem para onde vais (…) Nem descanso nem movimento (…) nem ascensão nem declínio (…)”. É isso: nem carne nem peixe. Gabe-se o atrevimento. A sério.

 


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A noite termina como nos primeiros dois dias, no Café Concerto do CCVF. Recordam-se daquele tipo que na primeira noite, no showcase das residências artísticas, deixou toda a gente rendida com um inspirado solo de saxofone? Hoje é noite de se apresentar em nome próprio. E não faz a coisa por menos: traz consigo um competente baterista e um teclista, que, ainda que passe meio despercebido, suporta a harmonia do conjunto. A nível de sentimento e intensidade, a pop de Buslav é igual a tantas outras que encontramos por esse mundo fora. Oscila ao sabor das histórias de amores e desamores, alegrias e dissabores, relações interpessoais e intrapessoais. É triste, alegre, chorona, risonha. Em suma: uma montanha russa de emoções. Mas Buslav articula isto tudo de um modo muito peculiar, que vai muito além do facto de ser polaco e cantar algumas músicas na sua língua materna (algo que nos ajuda a explicar o sucesso do nosso fado além fronteiras, afinal de contas, tudo se resume a sensações transmitidas – como diria o outro, “bardamerda” para a língua). Os seus esquemas musicais assumem a estrutura dita normal da pop: verso-refrão-verso-refrão. Até aqui tudo bem. O que o diferencia de uns Alt-J, por exemplo, é a capacidade que tem de estender as músicas para além desses limites, recorrendo a longos e talentosos solos de teclas e saxofone que acabam por transformar completamente a música, levando-a para paisagens distintas das iniciais. A pop de Buslav é demasiado grande e rica para vir a Portugal dizer um olá e partir de seguida. Senhores promotores, se estão a ler estas palavras, não percam tempo. Peguem neste talento e façam-no correr todas as capelinhas de norte a sul de Portugal. É homem para encher casas. Veja-se o exemplo de hoje: o Café Concerto nem parece o mesmo.

 


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