Westway LAB Festival 2019 – Dia 4: o génio de Coquenão no adeus a Guimarães

[TEXTO] Manuel Rodrigues [FOTOS] Os Fredericos

O clima tem sido um importante aliado desta edição do Wesway LAB, proporcionando dias de sol e temperaturas relativamente amenas em Guimarães. Porém, a colaboração parece ter chegado ao fim precisamente na recta final do evento, aquela que vê vários showcases a espalharem-se pela cidade e que obriga a uma locomoção entre espaços. Ontem à tarde chuviscou, é verdade, mas não o suficiente interferir com os concertos nem com as rotas que se traçaram pela cidade.

Houve loops e sobreposições de guitarras pelas mãos e pés de Francisco Sales, no Santa Luzia Art Hotel; pop num imaginário próximo da Queen Bey na voz de Elin Namnieks, na Associação Cultural e Recreativa Convívio; rock expansivo nos vários instrumentos de Theodore, no Bar da Ramada; electrónica dançante nos sintetizadores, sequenciadores e voz dos Holy Nothing, novamente na Associação Cultural e Recreativa Convívio; a vertente interventiva do rock dos Izzy and the Black Trees, no bar Oub’Lá, e o vigor dos Smartini, de volta ao Bar da Ramada.

Os grandes destaques da tarde de showcases vão, porém, para os dois nomes que mais brilharam na segunda noite das apresentações das residências artísticas, Mickey e Beatriz Nunes, desta vez em espaços separados e com concertos em nome próprio. Mickey, no bar Oub’Lá, com um espectáculo onde não faltaram microfones suspensos no tecto, batidas vigorosas, samples, secções de coro sintetizadas, solos de guitarra, equilibrismo sobre um barril de cerveja e um certo devaneio saudável por parte de Alex, vocalista e guitarrista – de recordar que o duo ainda conta com outro elemento, Klemens, que toma conta da maquinaria e ainda dá uns toques num mini set de bateria montado à esquerda do teclado. Beatriz Nunes, na Tribuna do Cinema São Mamede CAE, onde teve espaço para libertar a sua belíssima voz, suave e agradável, assente na harmonia de um piano que a acompanhou durante toda a actuação. Interpretou um tema que escrevera durante a crise financeira, cantou José Afonso e repescou “Aurora Tem Um Menino”, canção que havia “mickeyzado” aquando da sua conexão com Alex e Klemens, servida agora numa toada entre o jazz e o registo mais popular. Uma apaixonante voz para seguir com mais atenção.



Saltemos para o horário nocturno. Depois de uma actuação bem-sucedida (não obstante um problema técnico prontamente resolvido) de Captain Boy, no Pátio, onde foi possível ouvir, entre outras, “Tango”, uma canção que versa sobre um casal que quer dançar tango mas não tem jeito para a coisa (dança cada um para o seu lado), chega a hora de rumar até ao auditório para ver Tashi Wada Group com a participação especial de Julia Holter.

Os primeiros segundos da actuação são claros quanto à intenção e direcção desta conexão. Assim que entra em palco e assume a sua posição nas teclas (o setup com maquinaria ao centro e uma bateria do lado direito já fazia prever que este não se fosse tratar de um concerto de rock), Tashi pressiona os primeiros acordes e deixa-os a pairar no ar durante longos segundos. Julia acompanha-o na missão, também nas teclas, e Corey Fogel, na bateria, percorrendo peça a peça com suaves toques ao invés de a atacar vigorosamente. O concerto desenvolve até ao momento que Holter cozinha uns sons fantasmagóricos a partir do seu microfone, certamente ligado a uma máquina de efeitos, ao mesmo tempo que Tashi toca gaita-de-foles numa dimensão também ela fora do normal. Fogel continua a explorar o instrumento de percussão, atingindo os aros do bombo e dos timbalões e não as habituais peles, enquanto os seus companheiros exploram sonoridades estranhas ao ouvido mas não necessariamente más. Isto é experimentalismo puro e só se desiludiu quem não sabia ao que vinha.



Cá fora, no Pátio, Mister Roland expressa-se nos campos verdejantes da folk. Acompanhado na bateria, baixo, guitarra eléctrica e teclas, o músico português corre algumas músicas do seu repertório, entre elas, “Widow Mary”, sobre uma rapariga sueca. 

Seguem-se os Black Mamba, na Box. Com um espectáculo extremamente bem oleado e pensado ao pormenor, a banda de Pedro Tatanka faz um autêntico brilharete, recorrendo não só ao excelente naipe de músicos que a constitui mas também a canções que facilmente se instalam no ouvido – que o digam as dezenas que acompanharam a letra sempre que o fora requisitado pelo frontman.  

O concerto inicia-se com “My Blood Diamond”, tema que abre também o mais recente disco do colectivo, lançado no ano passado. Além de uma mistura imaculada do ponto de vista de timbre e volume, nota-se aqui uma especial vontade de dar o litro e deixar uma marca no festival – sendo esta a montra que é, faz todo o sentido.

O entendimento entre a banda – bateria, baixo, teclas, metais, coro e Tatanka na voz e guitarra – é de louvar. Em “I Want My Money Back”, a segunda do alinhamento, dão-se ao luxo de travar e retomar a canção com a precisão de um metrónomo. A secção de metais dança sincronizada, sem nunca comprometer a sua principal tarefa; o baixista (“groovemaker, the heartbreaker”, como o apelidaria Tatanka a dada altura) explora o palco de ponta a ponta, dando todo um novo sentido à técnica “walking bass”. E há também solos, muito solos, por parte de quase todos os músicos, incluíndo Tatanka que em “It Ain’t You” articula uma introdução à Stevie Ray Vaughan bastante aplaudida pelos presentes.



O derradeiro sprint da noite faz-se com o pulsar forte dos Paraguaii e dos Whales, no Pátio e no Auditório, respectivamente, ambos bem-sucedidos na sua missão. Por, por fim, a rematar com chave de ouro, Batida, com a performance The Almost Perfect DJ.

Além de ser uma actuação que traz a palco muita música e movimento, TAPDJ é, sobretudo, um interessantíssimo manifesto. E já vão perceber o porquê – esta é uma história que convém contar do início. 

A chegada à Box faz-se com ambiências ligadas à natureza. Há uma bancada de DJ em palco, por enquanto ainda às escuras, e duas pessoas paradas em duas localizações específicas, marcadas a branco no chão preto, mesmo no centro da plateia. Deduz-se que sejam bailarinos. Do nada, há uma batida que emerge por entre a base ambiental. É-nos familiar mas ainda difícil de identificar. Só quando entram os sintetizadores é que se dá o verdadeiro processo de reconhecimento: trata-se de “Africa”, dos Toto. 

Assim que a música chega ao fim surge no ecrã um disclaimer, sendo as próximas palavras apenas um excerto dele: “esta performance vai ser filmada e serás usado como ruído de fundo em prol do ego do artista. Se alguma câmara apontar na tua direcção, dá o teu melhor como se fosse para as redes sociais”. De seguida, alguém coloca um manequim de braço no ar na retaguarda do estrado de DJ ao mesmo tempo que uma voz off trata de satirizar o papel do Disc Jockey na cultura de dança dos dias de hoje, recorrendo a vários clichês, entre eles, claro, o de estar constantemente de braço no ar.

Pedro Coquenão, o homem que responde pelo projecto Batida, não chega a entrar em cena. Assume a sua posição na lateral de palco, fora dele, e é a partir daí que constrói o seu manifesto. Começa por dizer que as músicas que vai passar são todas produzidas em casa, tratando-se de originais e remisturas de músicas dos subúrbios de Lisboa e Luanda – “unshazaamable music”, pode ler-se no ecrã. A dada altura, depois de servir dois kuduros que meteram a plateia toda a mexer (entretanto, um dos seus bailarinos já deu um ar de sua graça, mesmo no coração da plateia), abranda durante 30 segundos para que as pessoas possam fazer vídeos e partilhar nas redes sociais. “Não queremos que a nossa música estrague o vídeo que vão colocar online”, informa a voz off numa clara crítica à forma como as pessoas escolhem divertir-se hoje em dia.

Uma actuação de Batida só é uma actuação de Batida se vier recheada de intervenção. Aquando da reprodução de “Bazuka (Quem me Rusgou?)”, canção sobre migrações forçadas e famílias perdidas, surgem no ecrã hastags como #noborders, #wallsareforgraffiti, #destroywallsmakebridges e, mais tarde, #slavetradeisnothuman e #africaisnotacountry, entre muito outras. Coquenão a aproveitar o seu manifesto DJ para construir um manifesto mais sério. Genial.

Entregam-se de brindes (uns apitos amarelos) e pastéis de nata à plateia, e dança-se desenfreadamente, sem qualquer tipo de pudor. Por esta altura, já todos os bailarinos, três no total, estão envolvidos. Coquenão continua a disparar frases e comportamentos clichê para o ar, recorrendo novamente a uma voz off pré-gravada. “Estão a gostar????”, “façam barulho!!!!”, são algumas delas, despoletando gargalhadas no seio da plateia. Até ao final, há ainda tempo para ouvir Karlon Krioulo cantar um tema de sua autoria e para ver o manequim a ser sorrateiramente trocado por um dançarino real que, de repente, depois de ter ficado estático, estilo estátua, durante alguns segundos, embarca numa dança robótica, para gáudio dos presentes. Coquenão vem então até ao palco, dança um funaná com um dos seus parceiros da missão, e ouve-se, pouco depois, novamente o tema “Africa”, o ponto final da performance.

Encerra assim – num misto entre dança e consciencialização – o Westway LAB 2019. Até para o ano.


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