Westway LAB Festival 2019 – Dia 1: o imaginário colorido de Jacco Gardner no arranque da West Summit

[TEXTO] Manuel Rodrigues [FOTOS] Os Fredericos

Temos por hábito reservar as primeiras linhas do primeiro dia de festival para um pequeno resumo da nossa chegada a Guimarães e um retrato por extenso do ambiente que nos rodeia – tem sido assim nas edições anteriores em que marcámos presença –, mas o concerto do músico holandês Jacco Gardner, no auditório do Centro Cultural Vila Flor, obriga-nos a um salto directo para o horário nocturno. Regressaremos ao início de tarde assim que possível. 

O Westway LAB continua a ser um interessante tubo de ensaio. Não só para projectos e temáticas abordadas mas também para a forma como são servidos os concertos. Já no ano passado foi possível assistir a um espectáculo de Manel Cruz em que a configuração do auditório do CCVF foi invertida, ou seja, o palco foi montado de costas para a colina de cadeiras, transformando o backstage em plateia. A actuação de ontem de Jacco Gardner, repetente no festival, aconteceu também no backstage do palco, também ela num layout particular: em quadrifonia.

O cenário traz à memória os concertos em formato 360 das últimas décadas. Numa larga escala e com as devidas distâncias estabelecidas, é possível evocar o conceito dos U2 ou até dos Metallica para transmitir a ideia. No entanto, este formato aproxima-se mais daquele espectáculo, disponível no Youtube, em que Beck reimagina o clássico “Sound and Vision” de David Bowie, sozinho no centro da acção e rodeado dos mais variados naipes de instrumentos. Jacco Gardner faz exactamente o contrário: rodeia-se de audiência e concentra em si uma colossal parafernália de equipamento, onde é possível destacar pelo menos uma guitarra, sintetizadores analógicos e outros tantos digitais, aparentemente ligados entre si e conectados a um computador. 

Gardner não veio só. Trouxe consigo um elemento extra, uma rapariga, que, pelo que nos pareceu, dispara algumas batidas previamente sequenciadas. É sobre esses loops que o anfitrião desenha melodias, ora na guitarra, que, a dada altura, soa a tudo menos a isso, ora nos teclados, que assumem variadíssimas texturas. A quadrifonia vai-se sentido à medida que os instrumentos se vão alternando entre si. Há uma linha de sintetizador que foge para a coluna mais à esquerda e ao fundo, outra que salta do altifalante mais próximo de nós, e um baixo que, dado o endereçamento igual para todo o PA, nos aparenta estar ao centro. De vez em quando, lá se ouvem uns ambientes ténues e algo tímidos a viajarem de um lado para outro, como se de um amigável jogo de pingue-pongue se tratasse.

Há também muita luz e cor. Mas esta não é revelada logo no início. É justo frisar, aliás, que os primeiros minutos são servidos numa toada cinematográfica, quase às escuras, com suaves ambientes de sintetizadores. Só depois desta fase inicial, quando entra o primeiro loop de uma bateria de contornos modernos é que se acende o conjunto de luzes de cores caleidoscópicas mantido em segredo nos quatro cantos da área escolhida para a apresentação. Há também um padrão de imagens que aterra no chão oriundo de um projector vídeo suspenso mesmo por cima dos estrados onde Jacob Gardner se situa, conferindo um cariz psicadélico ao momento. Sendo este o espectáculo de abertura da edição deste ano do festival, é caso para dizer que as coisas estão bem encaminhadas. 



Seguiram-se os showcases das residências artísticas (os dois primeiros de quatro) que, à semelhança de edições anteriores, trouxeram a palco os resultados de uma semana de composição e partilha no Centro de Criação de Candoso. Yosune (Portugal) e Tribe Royal (Canadá) foram os primeiros a entrar em cena. Num formato de guitarras e vozes, os músicos abordaram sonoridades próximas dos blues e da folk, revelando sempre que possível ao público as histórias em que se basearam. Uma delas vai buscar inspiração a um belo limoeiro – com limões biológicos – que viram num dos intervalos dos ensaios. É a partir dele que esculpem uma dura crítica à Monsanto. Chama-se “Lemon Blues” e é das mais celebradas do alinhamento.

O outro destaque vai para o momento em que Yosune, cantora venezuelana radicada do Porto, deposita um poema de Fernando Pessoa. Assim que as palavras “qualquer caminho leva a toda a parte, qualquer ponto é o centro do infinito” são declamadas ao microfone, a familiarização é imediata, resgatando, no final, sentidos aplausos do público. 

Captain Boy (Portugal) e Violetta Zironi (Itália) protagonizam o segundo e derradeiro showcase da noite, num imaginário muito próximo da conexão anterior. Há também histórias (“Wrong Place and Time”), canções inspiradas no clima que se fez sentir na semana de experimentação no Candoso (esta é a nossa “weather song”, cujo refrão “tempo não sejas mau para mim” se instalou nos ouvidos) e, por fim, um fado intitulado “Saudade”. Zironi explica que mesmo não conhecendo a palavra (a velha história de ser unicamente nossa) compreende o sentimento e do que se trata, pois, nos momentos de composição, Pedro Ribeiro, o homem que assina os seus trabalhos como Captain Boy, explicara-lhe o significado.

Agora sim, o início. Guimarães volta a ser palco de mais uma edição do Westway LAB. Ao longo de quatro dias, a cidade-berço acolhe um elevado número de concertos, conferências e networking em torno da música. Há artistas, produtores, editoras, managers e curiosos espalhados um pouco por toda a parte. Chegamos a horas de assistir às Talks no restaurante Cor de Tangerina, local onde os músicos se reúnem para falar sobre a experiência do enclausuramento de uma semana no Candoso. Partilham-se várias ideias e lançam-se sugestões, como por exemplo, a possibilidade dos showcases ao vivo poderem ser gravados para a edição de um EP. Rui Torrinha, director artístico do Westway LAB responde que o festival tem crescido consoante as suas necessidades e que esta poderá ser, no futuro, uma hipótese a considerar.

Talks encerradas por hoje, hora de rumar em direcção ao concerto de Jacco Gardner. A surpresa das surpresas acontece quando, à chegada ao Centro Cultural Vila Flor, nos deparamos, logo à entrada, com um monstruoso número de depósitos de água luminosos, dispostos de forma a formar a palavra WLAB, à imagem da grande cimeira que se tem realizado em Lisboa nos últimos meses de Novembro. É um interessante ponto de comparação, dado o facto do Westway LAB ser um dos mais importantes encontros do nosso país no que à indústria musical diz respeito. Inicia-se assim mais uma edição desta maravilhosa West Summit.



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