We Intend to Cause Havoc: o documentário sobre os reis não coroados do zamrock

[TEXTO] Eduardo Morais [FOTOS] Direitos Reservados

Regra geral, a música é idealizada, composta, gravada, editada e apresentada. Com alguns saltos para a frente ou para trás, o processo não varia muito desta premissa, certo?

Acontece que nos últimos anos podemos acrescentar dois passinhos a esta dança: reeditada e documentada. Foi o que aconteceu desde 2012 com o zambianos WITCH. A adorada Now Again Records — comandada pelo sensei Egon — colocou no mercado um álbum quadruplo (!) com os primeiros registos de uma banda de rock e funk lisérgico, enorme no seu país e totalmente desconhecida fora dele. De repente, o mundo ficou com as antenas viradas para este fenómeno a que chamaram zamrock.

No topo desse movimento estavam os WITCH. A sigla significava We Intend to Cause Havoc (Nós Pretendemos Causar Estragos) e o seu frontman apropriava-se do apelido do vocalista dos Stones, numa fase em que a independência do país face à Inglaterra ainda era fresca.

Diz-se que os WITCH foram os primeiros a gravar na Zâmbia, que nos 80s viraram-se para o disco para depois se extinguirem, e que desde 2014 o vocalista — único sobrevivente original da banda — se juntou a uns “putos” europeus e têm tocado em concertos esgotados por todo o mundo.

Mas em vez de andarmos aqui a “googlar” à toa para perceber melhor como é que isto aconteceu, podemos ir no próximo dia 8 de Maio ao Festival IndieLisboa para a estreia mundial de We Intend to Cause Havoc, documentário que o realizador italiano Gio Arlotta (com quem estivemos à conversa) anda há anos a pintar.



Sem nos dares spoilers, o que podes dizer das duas histórias distintas dos WITCH, separadas por 40 anos.

Bem, uma tem fortes raízes no passado e foi coberta por uma camada de pó africano por muito tempo enquanto a outra aconteceu mesmo à frente dos nossos olhos, mas ambas tem como epicentro a vida do mesmo homem, Jagari Chanda, o vocalista principal dos WITCH. Se por um lado, com ele descobrimos um pouco da história da própria Zâmbia e de como a sua banda se tornou na mais popular do país, por outro decifrámos a sua vida pessoal como mineiro e Novo Cristão. Assim, compreendemos como uma estrela envelhecida do rock africano conhece dois jovens músicos europeus — Jacco Gardner e Nic Mauskoniç — interessados em explorar um sub-género musical com a sua estrela maior, e trazer uma música esquecida de volta à vida.

Como é que a ideia para fazer este filme apareceu na tua cabeça, e como a conseguiste desenvolver?

Em 2014, eu trabalhava no meu blogue Is Your Clam In a Jam? a filmar com a minha câmara VHS sessões de bandas que passavam em Milão. Um dia nesse Verão, enquanto estava a gravar uma sessão com o Jacco — talvez foi o destino que o quis — um velho amigo ligou-me para me convidar [para] uma expedição intercontinental por África, onde iria tirar fotos e ajudar a conduzir para promover a sua carrinha 4×4. Quando percebi que iríamos passar pela Zâmbia, imediatamente imaginei filmar uma das minhas sessões com os WITCH. E aí, quanto mais pensava nisso, mais me apercebia de que poderia fazer algo mais, talvez até um documentário sobre a própria banda e o Jagari.

Quando lá cheguei, passei duas semanas sozinho com o Jagari, carregando uma câmara DSLR que mal sabia usar e um microfone. Viajámos juntos por montes de sítios que tinham uma forte importância na sua vida e na da sua banda. Quando voltei para a Itália e vi as filmagens, percebi que havia ali muito mais para ser contado.

A partir de alguns amigos conheci o Tim Spreng que me ajudou em todas as etapas e é o homem por trás da câmara na maioria do filme. Juntos desenvolvemos a melhor forma de contar esta história, e passado cerca de um ano, eu, o Jacco e o Nic encontrámo-nos no Le Guess Who? em Utrecht, e eles falaram-me que tinham um interesse enorme em ir a África para tocar com músicos dos 70s e levar-me para filmar. Passado cerca de um segundo percebemos que poderíamos juntar forças e fazer isto com os WITCH, e passados cinco meses estávamos na Zâmbia a começar esta aventura juntos, e que até hoje continua a nos levar à volta do mundo!

Qual foi a abertura do Jagari para trabalhar com músicos jovens como o Jacco, o Nic ou o JJ Whitefield dos Poets of Rhythm e o Stefan Lilov dos L’Eclair?

O Jagari sempre foi muito receptivo a colaborações, e é interessante ver como interage com os outros membros da sua banda — podes ver as culturas e abordagens diferentes à música se fundirem, abanarem paredes e a vibrarem nos teus ouvidos. Com a sua idade, ele é muito curioso para aprender mais e mais sobre novas e diferentes abordagens à criação musical.

Apesar de nenhum dos músicos ser zambiano, à excepção do Patrick Mwondela que já tocava teclas nos últimos dois álbuns dos WITCH, todos eram grande fãs desta música e sabiam os seus ritmos e sons. O Jagari dizia-me com frequência que esta nova banda era tão boa, ou até melhor, que os originais WITCH.

Sendo tu também um colecionador de discos, como vês este novo fenómeno de reedição nas novas editoras independentes?

Eu considero-me coleccionador mas no sentido de quem gosta mais de ter a música do que o a edição ultra rara, por isso se a coisa for feita da forma correcta é totalmente positivo. É o trazer música à superfície que nunca pôde ser devidamente ouvida pelo mundo, frequentemente até muito tempo depois de ser gravada — e a um preço MUITO MAIS acessível!

Se não fosse a Now Again Records, duvido que tantas pessoas conhecessem os WITCH hoje e que nós tivéssemos sequer conseguido fazer o que fizemos. Por outro lado, existem demasiadas editoras que estão a ganhar demasiado à conta deste novo interesse por discos raros, ao acabarem por lançar discos pirateados sem sequer se darem ao trabalho de procurar se os músicos ou as suas famílias ainda estão vivos e quem tem os devidos direitos, o que é uma óbvia exploração.

Há alguma razão peculiar para este documentário ter a sua estreia mundial em Lisboa? O que pode o público da Casa Independente esperar na afterparty desta exibição?

Bem, na realidade o IndieLisboa, através do Carlos Ramos, foi o primeiro festival a abordar-me para exibir o filme e, mesmo tendo sido há dois anos, mantivemo-nos em contacto. E assim que terminei o filme, enviei para o Carlos. Ele gostou bastante e decidimos fazer a estreia aí.

Talvez outra coincidência com o Jacco é que ele agora vive em Lisboa, e por um lado o documentário é estreado numa “cidade” de um dos actuais WITCH também.

Para a afterparty na Casa Independente, a María P, o Jacco e eu vamos tocar uma variedade de discos que vão desde o mais profundo zamrock encontrado nas ruas de Lusaka até outros grooves do continente africano e a sua diáspora. Uma noite para fazer a malta dançar músicas inesperadas.


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