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Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 27/02/2026

Um talento fora-da-caixa dentro do espectro pop nacional.

VSP AST sobre LOBOTOMIA POP: “Os malucos até podem dizer coisas acertadas, mas ninguém lhes liga”

Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 27/02/2026

Começou a ganhar buzz no SoundCloude agora sonha com grandes palcos. VSP AST — lê-se Vespa Asiática — lançou, no passado dia 13 de fevereiro, o seu primeiro álbum, LOBOTOMIA POP.

Neste seu primeiro registo de longa duração, o artista de Coimbra mantém a frescura que já tinha patenteado nos lançamentos anteriores, desta vez com um registo que, segundo o mesmo, pode ser encarado como algo mais pop. Em LOBOTOMIA POP, a sua sonoridade funde-se com influências hip hop e punk, os refrões continuam orelhudos e a escrita traz-nos uma maior abertura ao seu mundo e à pessoas por detrás do artista.

Em seguida podem ler a conversa que o Rimas e Batidas teve com um dos nomes emergentes mais fora-da-caixa no panorama musical nacional e aceder aos bastidores do processo criativo de uma mente tão genuína como a música que nos oferece.



Em que fase da tua vida artística sentes que estás agora, com o lançamento de LOBOTOMIA POP, o teu primeiro álbum?

Sinto que já passámos aquela fase de sermos completamente “novatos”. Já temos experiência de palco, já vivemos um ano inteiro a fazer concertos, já errámos, já aprendemos. Agora estamos num momento de afirmação. Estamos mais seguros do que queremos fazer e de como queremos fazer.

O título do álbum é bastante interessante. De onde vem este nome LOBOTOMIA POP?

O nome surgiu num momento muito espontâneo. Estava com dois amigos no meu estúdio, à procura de um título. Tínhamos várias ideias boas, mas nenhuma que permitisse construir uma identidade maior à volta. “Lobotomia” apareceu depois de eu ver um filme na RTP Play sobre Egas Moniz. Fiquei preso à palavra. Gosto muito da sonoridade. Sou muito visual e a imagem que me veio à cabeça foi a da minha música a dar — figurativamente, claro — pancadas na cabeça das pessoas até elas acordarem [risos]. Ou seja, não no sentido de as deixar inconscientes, mas para as deixar mais conscientes e despertarem mesmo. Fazer a minha música entrar nas mentes. O “Pop” vem para explicar que ainda é possível ter identidade dentro desse universo. É uma estética que eu gosto de consumir, que estou a explorar e na qual acredito haver espaço para cenas diferentes. Hoje em dia sinto que muita gente soa igual. O que nos diferencia é a forma como escrevemos, como nos expressamos. E também há aqui uma ideia de enaltecer os “malucos” porque, muitas vezes, os malucos até podem dizer coisas acertadas, mas ninguém lhes liga. Já houve grandes ideias que foram vistas como maluquice ao principio.

A tua música nem sempre é fácil de categorizar. Considerar-te um artista pop e colocar-te nesse universo é confortável para ti?

Não consigo ficar só na caixa da pop, mas gosto dela. A pop permite-me chegar a mais pessoas, ter mais contacto, mais interação. Mas, quando crio, não tento forçar qualquer sonoridade. Não estou a criar música com a intenção de ser pop. A sonoridade é só o que é. Acho também que qualquer género tem o seu lado pop. Mesmo no hip hop há um lado pop. É mais sobre energia do que sobre rótulo.

Apesar de já teres bastante música cá fora, o primeiro álbum é sempre um momento de apresentação. Qual dirias que é a mensagem deste teu primeiro disco?

A abertura. A minha maior alegria é perceber que as pessoas me conseguem conhecer através das músicas, que entendem o que estou a dizer e até o que eu não estou a dizer diretamente. Este álbum é isso: sou eu a abrir-me mais, a falar do que me vai cá dentro, de quem eu sou e do que tenho vivido neste período da minha vida.

O álbum não tem participações. Foi intencional? 

Sim. Sendo o primeiro álbum, senti que era um espaço muito meu. Não quis feats porque ainda não tenho aquela confiança artística com alguém para dividir um projeto destes. Ainda assim, este disco não é um trabalho solitário. É feito com a minha banda, a minha malta, a malta da bap. Nesse aspeto, é um esforço coletivo.

Tens também trabalhado com uma editora major, neste caso a Sony. Como tem sido essa experiência?

Está a ser uma experiência muito boa. Confesso que tinha receio que houvesse uma tentativa de moldar demasiado a minha criatividade, mas foi o contrário. Têm compreendido as minhas ideias e, em vez de as travarem, têm trabalhado para perceber como é que elas podem resultar. Isso, para mim, é essencial.

Visto de fora, podemos ficar com a ideia de que o teu crescimento foi muito rápido. Do SoundCloud passaste para trabalhar com uma major e conseguiste obter números interessantes no que toca à tua música. Quais foram as maiores dificuldades que encontraste neste processo?

A verdade é que não foi um processo nada fácil. Tenho amigos a trabalhar, a comprar casa, a terminar os seus cursos, e eu abdiquei de tudo isso para me dedicar a 100% ao meu sonho. É preciso acreditar mesmo naquilo que estamos a fazer e confiar no processo, mas isso nem sempre é fácil. Enquanto alguma malta à minha volta encontra a estabilidade, o meu dinheiro é reinvestido na cena da música para, de certa forma, poder pensar também no futuro e não só no agora. Podem achar que estamos aqui a viver uma vida confortável, mas não é bem assim. Mas é sobre ter confiança no processo. O segredo é esse.

É aí que o teu núcleo também ganha importância, não é?

Sim, é fundamental. Quando estás rodeado de pessoas em quem confias, é mais difícil perderes-te. Tens opiniões honestas, tens suporte. Se correr mal, é responsabilidade nossa. Se correr bem, também.

Sentes isso também da tua cidade em geral? Como é a cena musical em Coimbra?

Coimbra sempre teve uma energia muito própria. Quando o trap começou a crescer, a cidade abraçou-o muito. Tivemos festas enormes, uma adesão incrível. Somos uma cidade que recebe muito bem os artistas. Agora sinto que estamos outra vez num momento de crescimento. Há mais miúdos a fazer som, mais grupos, mais interação. O meu objetivo é não sair daqui e, no futuro, conseguir ajudar quem está a começar a fazer a sua cena e a contribuir para a cena artística da cidade.

O trap, que por vezes foi alvo de críticas, trouxe algumas coisas interessantes para a cultura no aspeto da música ao vivo.

Totalmente. Para mim, em termos de energia, o trap está muito próximo do rock. Cresci a ouvir rock e punk, e sinto que o trap herdou essa agressividade de palco, essa libertação. A estética, a intensidade, o caos… vejo muita ligação nesse aspeto e acho que são universos mais próximos do que muitas vezes se considera.

O palco é um aspeto muito importante da identidade artística, não é? É lá que sentes que a tua música é “validada”?

Sem dúvida. É ali que percebes se a tua música “funciona”. A reação do público não mente.

Impõe-se, então, a questão: o que podemos esperar de LOBOTOMIA POP nos palcos?

Apresentar a minha música ao vivo é algo que me entusiasma muito. Já temos algumas datas planeadas, mas, neste momento, estamos a colocar todo o nosso foco no concerto de dia 13 na Casa Capitão. Queremos fazer algo pessoal e familiar, um agradecimento às pessoas que compraram bilhete e querem ouvir o álbum ao vivo pela primeira vez connosco

2026 ainda está muito início. Quais são os planos para o resto do ano?

Vai sair mais um projeto, uma cena que já está a ser trabalhada há muito tempo. Vai ser um projeto conjunto, uma cena assim mais diferente, mas muito nossa.

E a longo prazo, o que vês para VSP AST?

Gostava de pisar o palco de um festival grande e que eu respeite. Acho que isso é assim o objetivo mais “pés no chão”. Sobre a minha música, gostava que começasse, com o tempo, a ser vista como música de banda e não de VSP AST como indivíduo. A sonoridade há-de ir mudando, presumo. A música é movimento. O importante é o rio seguir o seu curso e chegar sempre ao mar.


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