Vodafone Paredes de Coura – Dia 3: E no fim ganhou o jazz

[TEXTO] Alexandre Ribeiro [FOTOS] Hugo Lima 

O calor intenso que se faz sentir durante o dia contrasta com o frio e a humidade que sentimos à noite, mas – atenção, isto não é um artigo sobre meteorologia – as temperaturas amenas ao final da tarde só fariam sentido com um grande concerto que reflectisse isso mesmo – tudo em Coura é pensado ao pormenor, já deveriam saber por esta altura. Neste caso, Bruno Pernadas foi o primeiro eleito, um “maestro” que se fez acompanhar por um ensemble digno de qualquer nome superlativo.

O que é que pudemos ouvir no Paredes de Coura? Muita coisa, mas, só para começar, melodias no ponto, os solos de guitarra de Pernadas a levarem-nos para outras dimensões e uma vontade de criar/mostrar música que vale pelo que é, não pelo que parece. É pop, é jazz, é afrobeat, é psicadélico, é bom.

No alinhamento, o artista regressou ao primeiro disco com o excelente “Ahhhhh”, por exemplo, e fechou com “Galaxy”, cerca de 8 minutos de jogos sedução entre coros, instrumentos de sopro e bateria. Impressionante performance de toda a equipa, levando ao colo um dos artistas mais refrescantes dos últimos anos no universo musical português

Ao nosso lado, Alexander Sowinski, baterista dos BadBadNotGood, assistia, com bastante entusiasmo, ao que se passava no palco principal, atirando para Leland Whitty: “This is pretty good“. Nós sabemos, e o público também.

 


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Vindos da Escócia, os Young Fathers são um poço de energia – já o tínhamos comprovado no NOS Alive’15 ou no Super Bock Super Rock’16. Desta vez, encontrámo-los no Paredes de Coura e pudemos atestar, novamente, que a fórmula está descoberta e cientificamente comprovada.

Sem novo álbum desde 2015, a banda descarregou clássicos da sua discografia como “Get Up” ou “Shame”, mostrando a pop tribal que ao vivo ganha uma dimensão bem maior do que a que demonstram em estúdio, acompanhados por um quarto elemento que controla o ritmo através de um kit de bateria bem diferente. Alloysious Massaquoi – cantor e percussionista – , Kayus Bankole – o hiperactivo cantor/bailarino que, de vez em quando, trazia uma máscara e bilha de oxigénio para o palco – e Graham Hastings – cantor que também assume alguma da maquinaria em palco – formam um trio de ataque que partilha melodias, danças e sabe-se lá mais o quê.

Uma máquina oleada que é garantia de perda de controlo sobre o corpo. Se parar na vossa cidade, já sabem que não a podem perder. Afinal de contas, o palco ainda é um local de expressão artística.

 


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Depois de dois concertos que não deixaram nada a desejar, a banda que se seguia respondia pelo nome BadBadNotGood, canadianos que invadiram o universo hip hop com jazz descomplexado. Ou seja, músicos sem medo de fugirem aos cânones que são regra há tantos anos, algo que até pode parecer contraditório quando pensamos na liberdade que o próprio género de origem lhes fornece.

“Desculpa, mãe. Estou em Portugal e não posso falar agora”, atira, em tom jocoso, o homem das baquetas antes de se atirar furiosamente ao seu instrumento. Pela primeira vez em Portugal, Alexander Sowinski, Chester Hansen, Leland Whitty e James Hill – o substituto de Matthew Tavares na estrada – deixaram claro que a qualidade individual de cada um é investida num esforço épico de conjunto que tornou possível colocar milhares de pessoas em Paredes de Coura a vibrarem com um quarteto de jazz – foi, certamente, uma das grandes recepções da edição deste ano.

Depois de se juntar à banda em 2016, Leland assumiu a linha da frente com o seu saxofone, mas não só, tendo também feito as delícias do público com a flauta transversal ou a pandeireta. O que é o que o músico não faz? Para que é que precisam de um vocalista?

III e IV foram os álbuns que tiveram prioridade no alinhamento desta noite. Pérolas como “Chompy’s Paradise”, “Lavender” – que conta com o Toque de Midas de Kaytranada – , “Triangle” ou “Kaleidoscope” foram tocadas, uma benção para todos aqueles que não faltaram ao evento em Paredes de Coura. Bateria e baixo musculados a segurarem a batuta enquanto o sax e as teclas viajavam para bem longe daqui.

O tal à-vontade, que vai contra uma certa rigidez em palco normalmente adoptada pelos artistas jazz, é encontrado em diferentes partes do concerto: a meio, e quando só estavam a tocar Hill e Hansen, os restantes membros dançaram sem qualquer tipo de constrangimento à sua volta; no final, Sowinski percorreu toda a linha da frente do público e distribuiu abraços sem ponderar a eventual falta de “coolness” do gesto.

Para finalizar, “CS60” foi o tiro certeiro, a bomba calórica que ao vivo carregou a mesma potência que podemos ouvir na versão gravada em estúdio. A cereja no topo do bolo, se quiserem um lugar-comum. Na lista de desejos impossíveis para o próximo ano, pedimos um concerto especial da banda a  acompanhar Ghostface Killah para tocarem Sour Soul na íntegra. Se nos querem pôr sonhar, nós vamos sonhar alto, certo?

No fim do dia, “jazz” é a palavra que não nos sai do pensamento. Pernadas e BBNG são filhos do jazz, mas decidiram que as suas paragens seriam outras, mesmo que nunca deixem de prestar homenagem ao género que lhes deu uma porta aberta e não uma sala fechada. Em diferentes espectros e frentes, ambos são representantes de uma tentativa de chegar à frente e provar que ainda existem campos diferentes com disposição para aceitarem sonoridades despudoradas que respiram música e superam géneros. E no fim ganha o artista português e a banda canadiana. Vitória mais merecida era difícil.