Vodafone Paredes de Coura – Dia 2: Que Horror!

[TEXTO] Alexandre Ribeiro [FOTOS] Hugo Lima

O título não é clickbait, podemos arrumar já essa questão. Verdade seja dita, o terror aconteceu num palco arrumado lá para um recanto do festival, uma tragédia que não causou mortos, mas tocou, claramente, no âmago daqueles que assistiram. No entanto, a história não começou aí. Era uma vez…

… um prodigioso escritor de canções ruivo que procurou encontrar um espaço entre o hip hop, jazz, rock alternativo e a electrónica que procura a subtileza dos pormenores – tal como os “amigos” Mount Kimbie. Na noite passada, subiu ao palco principal do Vodafone Paredes de Coura para deslumbrar.

Munido com uma guitarra e acompanhado por cinco elementos, King Krule teve direito a recepção calorosa, mesmo que as interacções com o público tenham sido raras. “I like this hill”, atirou numa das poucas intervenções extra-canção. É inevitável ficar fascinado com a multidão que se estende na frente do palco na belíssima localização do festival.

6 Feet Beneath The Moon foi a pedra basilar no alinhamento, mas a saída para outras paragens não foi evitada. Perto dos 23 anos, ninguém lhe pode negar o talento – é responsável por criar uma banda sonora perfeita para aqueles miúdos no quarto que cresceram com uma drum machine e uma guitarra desafinada ao lado. Com a voz rouca como se tivesse 50 anos e uma quantidade inqualificável de álcool e cigarros consumidos, Archy Marshall é nome para colocar em loop durante a viagem e a vida. Easy Easy.

 


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Tragédia. Depois da tempestade, vem o horror. Os Ho99o9 subiram ao palco secundário com pujança avassaladora. Que força é essa, amigos?

Num formato de trio com baterista, a banda norte-americana colocou as pessoas que preenchiam o espaço à sua frente num mosh contínuo que durou cerca de uma hora. Todo o concerto, portanto.

Com um vestido com a cara e nome de Marilyn Manson estampados, theOGM é a estrela mais cintilante da dupla, o homem que berra, atira samples e rima como gente grande – Andre 3000 surge-nos na cabeça uma série de vezes… – , empregando muitas vezes um flow que identificamos em nomes como Migos, por exemplo. Para perceberem do que falamos, imaginem um encontro bastante estranho entre nomes como Death Grips e Quavo, Offset e Takeoff ou Bad Brains e Lil Uzi Vert. Sim, foi isto que aconteceu. Estamos num festival, sabemos bem, mas a festa é dos outros.

Num momento em que voltam a acontecer lamentáveis episódios como o que teve lugar em Charlottesville, os punhos no ar (Black Power) são necessários e mais sentidos que nunca. A dupla fá-lo em palco na esperança que as repercussões se façam sentir nos Estados Unidos da América. Uma espécie de tentativa de utilizar o efeito borboleta a seu favor…

Ainda dentro da contestação contra o racismo, o barulho desvaneceu-se e do sistema de som saltou “Every Nigger is a Star”, música originalmente lançada por Boris Gardiner e recentemente recuperada por Kendrick Lamar em “Wesley’s Theory”. Único momento em que existiu paz, mas foi breve. Eaddy saiu do palco e dirigiu-se para o centro do público e o caos instalou-se novamente. Os seguranças do festival tiveram ali a sua hora de mais trabalho, isso é certo…

A chegar ao fim, percebemos que o duo de Newark nos leva a fazer headbanging e dab (quase) em simultâneo. Tantos sentimentos juntos só podem significar uma coisa: isto é algo especial. O horror chegava ao fim em Paredes de Coura, mas o nosso trabalho não…

Nick Murphy, que muitos conhecem por Chet Faker, era um dos nomes mais esperados da noite e não desiludiu aqueles que esperavam ouvir reportório antigo: começou com “Gold”, voltou a “1998” e tocou um dos seus temas mais conhecidos, “Talk is Cheap”, que, claro, levou a audiência à histeria colectiva.

A alteração no panorama sónico do artista australiano não começou nos últimos tempos: o primeiro álbum em nome próprio já trazia uma mudança radical da aura soulful lo-fi que emanava através dos seus instrumentais e da forma como cantava. Thinking in Textures é, de longe, o seu trabalho mais interessante, um conjunto de sete músicas especiais que dificilmente se poderão repetir.

Em Paredes de Coura, Murphy cumpriu sem brilho. Terminava a nossa missão e o terceiro dia já se avizinhava. Ao longo de uma noite, vivemos estados de espírito tão diferentes que parece humanamente impossível termos sobrevivido. No entanto, há que saber que esta noite actuam os BadBadNotGood. All good, fellas!

 


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