Virtus: da banda sonora de Lisboa Azul ao novo single “Fosco”

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTO] Direitos Reservados

No passado dia 23 de Outubro, a RTP2 estreou a série Lisboa Azul, que conta com a contribuição de Virtus na banda sonora e sonoplastia.

Lisboa Azul parte da colaboração entre Joana de Bastos Rodrigues (realizadora) e Luísa Fidalgo (argumentista e actriz principal) e traça a história de uma jovem adulta de 27 anos que tem de lidar com as mudanças constantes às quais a capital portuguesa está exposta nos dias que correm. Na sinopse, é-nos dado o background de Camila, personagem central da peça: “A sua família foi fragmentada pelo divórcio e Camila sobreviveu a uma tentativa de suicídio, um ano antes, por causa da depressão. Inês, uma das suas amigas improváveis, dá-lhe um estranho comprimido, sem ela saber. Scott, outro dos amigos afastados, regressa para ficar…”

Esta não é a primeira vez que João Rodrigues colabora com a cineasta e irmã Joana, tendo desempenhado funções semelhantes em peças como Caminho de Volta, Outra Vez Primeira Vez ou A Eva, assumindo simultaneamente o papel de actor nesta última.

MC e produtor de culto no circuito nacional do hip hop, Virtus brindou-nos, até agora, com apenas um álbum. UniVersos é tido com um dos mais refinados frutos da nova escola do rap portuense e conquistou uma fiel legião de seguidores, que anseiam por uma nova obra daquele que é um dos mais genuínos discípulos da cultura musical urbana, que não abdica da “descontracção e a naturalidade” que vive em estúdio, atirando para o lado a hipótese de nos dar conteúdo forçado. Esperar é uma virtude e nada pode ser exigido de alguém que já “cumpriu” ao apresentar-nos um clássico, alimentando as ruas com singles como “Sono Profundo”, “Ainda Não Tem Nome”, “Trapézio” (com SP Deville) e, mais recentemente, “Fosco”.


Lisboa Azul

Camila, de 27 anos, passeia apática pelas ruas de Lisboa depois de uma tentativa de suicídio no ano anterior. Inês dá a Camila um comprimido estranho, sem ela saber. Scott regressa para ficar.


Como surge este convite para assumires a sonoplastia e a banda sonora para uma série televisiva?

O convite surgiu naturalmente através da minha irmã (Joana Rodrigues), a realizadora da série, e da Luísa Fidalgo, argumentista e actriz principal. Ambas trabalharam imenso para conseguir a produção do Lisboa Azul, e como eu acompanhei a batalha desde o início, estava disposto a entregar-me ao projecto de igual forma.

Já alguma vez tinhas pensado em fazer música para a televisão? Ou pelo menos fora dos moldes mais tradicionais com que esta se apresenta ao público?

Na verdade, compor música para imagem, para mim, não é novidade. Já há muitos anos que componho as bandas sonoras dos filmes todos da minha irmã, assim como a sonoplastia. Temos imensa cumplicidade para compreendermos as intenções de cada um e para descortinar ideias mais complexas que demoram o seu tempo a ganhar corpo. Já fiz jingles para TV e sound design para animação. Trabalhei quatro anos na Rádio Nova a produzir para rádio e publicidade. É uma grande paixão fugir da minha habitual atmosfera musical, auto-desafiar-me noutros registos sonoros. Gostaria de me manter profissionalmente em ambos os mundos: a minha música e a minha música/sonoplastia para cinema e publicidade. Acho piada quando mostro alguns excertos a amigos meus, muitos riem-se com aquele ar de “what the fuck… Isto é teu?”. Para muitas pessoas, eu sou apenas MC e produtor de hip hop. Mas para quem me conhece, a malta em meu redor, é-lhes familiar eu trabalhar neste tipo de coisas.

De onde veio a inspiração para o trabalho que desenvolveste para a série e quais foram os principais desafios que encontraste durante este caminho?

É uma série de ficção, há bastante flexibilidade para explorar, mas ao mesmo tempo existe a dificuldade em manter esse espectro criativo entre as fronteiras que vão carimbar uma identidade. O genérico apresenta-se como algo mais esperado vindo de mim, há também um tema do meu projecto de beats, mas vamos até ao transe, electrónica, experimental, minimal, jazz e até mesmo ao contemporâneo — que nem eu percebi bem como consegui fazer um piano tocado tão crazy e realista a passar num rádio de um personagem… Mini-momentos que dão a sensação de que existe mesmo uma música inteira a passar em breves segundos por intervalos de planos. Tudo foi composto em função da imagem, não foi sacado em bancos de sons ou comprado a ninguém. Sem budget e sem um cão, caças com um gato. E ninguém está a reparar no gato, mal se apercebem, o que por um lado é óptimo. Duvido que haja séries neste país feitas com os mesmos detalhes sonoros como esta foi, apenas por uma pessoa vezes duas: eu e a força de acreditar em mim da minha irmã.

Aproveito também para falar da “Fosco”, o teu primeiro tema deste ano e uma peça que facilmente me soa a um hino para a editora que criaste em 2018. Que posição foi esta que quiseste deixar vincada no single?

A “Fosco” é uma ambição pessoal, um conceito de algo que está por vir, embora vá ao encontro de tudo o que fiz até hoje. Este novo tema introduz mais oficialmente a existência de um novo caminho. Pretendo desvincular qualquer tipo de posição musical, mais especificamente no hip hop, pois tal como nós, mesmo que mantendo o princípios de sermos fiéis a nós próprios, a arte muda porque está dependente do que vivemos, dos sabores que enjoámos, dos que agora gostamos… E quanto isso, não há nada a fazer. Eu não lanço um projecto desde 2012, e por esse motivo sinto imensa necessidade de expor material que para muitas pessoas poderia soar até inesperado. Não faço teams nem claques, eu curto porque é bem feito, ou não curto porque está mal feito. A ideia é assumir, mais do que uma estética, uma ética de sermos correctos para nós à parte de purismos ou visões “religiosas” do meio. Isto é, o princípio da “Fosco” é o desígnio da palavra em si. Não é anti nada. Há somente uma esperança escondida de trabalhos que gritam tão alto e brilham mais “foscamente” do que outros; é a procura duma direcção para credibilizar essa mesma arte através de uma estrutura que cumpra os requisitos mínimos para estar num nível profissional.

Fica-nos na cabeça, claro, uma vontade ainda maior para escutar o sucessor de UniVersos. Podemos olhar para a “Fosco” como um avanço desse disco? Em que fase é que se encontra esse trabalho?

Toda esta promoção da Fosco Records tem um propósito, como é óbvio. E o meu próximo disco será provavelmente o primeiro projecto a ser editado. Brevemente haverá novidades. Até lá, mais singles acontecerão com o selo da Fosco. Para concluir: independentemente da seriedade que isto esteja passar para o lado de fora, não há nada que vença a descontracção e a naturalidade com que cada produto é produzido. Há 16 anos que eu estou demasiado tempo dentro do meu estúdio, por isso não sei viver as minhas coisas doutra forma senão comigo mesmo e à base de honestidade. Agradeço a todos os que me respeitam por isso, os que não me exigem nada mais do que aquilo que eu melhor sei fazer.


Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
Gonçalo Oliveira