Diz-se que as Janeiras são cantigas que servem para desejar sorte para o ano que acabou de chegar. É uma tradição antiga, e quiçá o convite do Centro Cultural de Belém ao pianista Vijay Iyer para tocar no Grande Auditório em pleno mês de janeiro tenha sido a opção ideal para celebrar as Janeiras no ano de 2026. Não haveria melhor escolha para desejar sorte a quem esteve presente no concerto.
Filho de pais indianos que migraram para os EUA, Vijay Iyer é um pianista, compositor e professor universitário norte-americano com trabalho reconhecido no meio musical. Tem vários discos editados, nomeadamente pela editora ECM Records, e já tocou com grandes nomes da música internacional. Foi distinguido por mais do que uma vez com o título de “Músico do Ano” pela revista DownBeat e já esteve nomeado para os Grammy Awards.
No dia 21 de janeiro, Vijay Iyer apresentou-se a solo no Grande Auditório do CCB, em Lisboa, e tocou por cerca de uma hora e meia, perante uma sala que não estava esgotada, mas era intensa, atenta e curiosa. E não poderia ser de outra forma. Entrar num auditório como este e sentar-se e sobre as teclas de um belo piano de cauda Steinway & Sons para tocar sozinho é um ato de coragem e também de imensa solidão. Os rigores de uma vida de estudo, a procura pela pulsação perfeita, a exigência da métrica e, contudo, a elevação construída na emancipação que resulta da sua libertação musical, são características que constroem o som de Iyer em doses de beleza que geram prazer e uma abstrata ideia de suspensão do tempo exterior, para se ficar apenas concentrado no tempo da música. A arte de excelência deste pianista tornou-se bem notável no decorrer do concerto. Vijay percorreu sentidos, lançou sementes por onde passou e buscou toda a sua trajetória, experiência e influências.
As primeiras notas foram suaves, como um animal que chega a um novo ambiente e tateia o espaço. Contudo, sem conhecer as adversidades, aventura-se e experimenta. Vijay percorreu diferentes estéticas dentro do jazz, desde um estilo sincopado característico do bebop ao jazz modal, com tons de improvisação livre aqui e acolá articulados com melodias mais amenas. Uma componente clássica com presença de nuances de música carnática de origem indiana foi também ouvida. Foram vários os momentos em que Vijay tocou diferentes vozes em simultâneo e transmitiu a perceção de que não era apenas um piano em palco, mas vários. Outras vezes firmou uma linha de baixo contínuo, sublinhando uma nota grave que persistia no tempo tal como um metrónomo que delineia a pulsação sobre a qual construiu fraseados melódicos elaborados ao pormenor. E a famosa frase, que alguns atribuem a Miles Davis e outros a Thelonious Monk, “não existe nota errada, depende de como você a resolve”, tornou-se real sempre que alguma nota parecia soar “fora”, pois a sua resolução rapidamente a corrigia ao construir um desenho cheio se significado.
O concerto de Vijay Iyer não se destacou apenas pela beleza musical, também o lado político do músico marcou presença em doses de subtileza. Aliás, toda a sua personalidade artística é subtil, ao apontar caminhos sem os forçar. A meio do concerto, fez uma pausa para se apresentar e aproveitou para dedicar uma música a um poeta palestiniano, morto em Gaza devido ao genocídio em curso. Mais à frente, no meio de improvisos variados e talvez não percetível para todo o público, Vijay lançou por algumas vezes a sua variação de uma pequena parte da melodia da mítica canção “El Pueblo Unido Jamás Sera Vencido”, da banda chilena Quilapayún, com quem colaborou por diversas vezes o cantor Victor Jara.
Já no final, e em tom de desabafo, Vijay Iyer mencionou de forma superficial o seu desagrado com o estado do mundo atual e quis dar um sinal de esperança ao terminar o concerto com uma variação improvisada da canção de John Lennon e Yoko Ono, “Imagine”. Assim terminou o concerto, com a última nota a levitar no espaço do auditório e com Vijay ali sozinho em palco, a agradecer, acompanhado apenas do grande piano e do seu sonho, aquele sobre o qual não é o único a sonhar.
*Nota de redacção: o Rimas e Batidas não teve acesso a fotos desta performance.