Verão grime a sonhar com Xangai em 10 faixas

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Inicialmente, a ideia deste artigo até era fazer um apanhado de malhas grime com uma aura estival e discorrer brevemente sobre elas em jeito de mixtape a apanhar a letargia hazy do final de tarde passando pela euforia clubbing e respectivo regresso sonâmbulo a casa. Como que a deixar um roteiro possível para todos aqueles que passam o Verão embrenhados no calor da urbe. Enquanto ia amealhando as canções para o efeito, a cartografia ia-se dispersando por entre escapismo veraneante, introspecção crepuscular, throwbacks legítimos a 2001 e momentos de verdadeira celebração na fronteira com a UK funky, cujo verdadeiro potencial ficou por explorar. Pelo caminho, a memória ia resgatando pedaços mais ou menos históricos que passavam muitas vezes por aquilo que o Kode 9 chamou de sinogrime. Descartando a expansividade dessa narrativa inicial, dei-lhe então uma nova direcção mais focada, mantendo a premissa base de que todas estas canções fazem de algum modo sentido enquanto pedaços de vivência urbana a sonhar com paraísos exóticos que não passem necessariamente pelas areias de Aya Napa. Para esse efeito, bastavam os dois – aqui e aqui – volumes essenciais de Tropical.

Sinogrime is a sub-genre that barely ever existed, a momentary glitch in the supposedly predictable sonic geography of London dance music. Around 2002-3, with garage crumbling and the cement still drying on grime as a genre, a few producers in E3 suddenly lurched further east than they ever had before. This is the sound of Shanghai tower blocks and the millennial promise of a new superpower, refracted through the scuffed windows of Crossways Estate in Bow.”

Estas palavras escritas pelo Dan Hancox no entretanto desaparecido Lower End Spasm – do Bok Bok da Night Slugs – serviram para contextualizar a pequena mix feita pelo Kode 9, naquela que foi a primeira vez que o termo ganhou forma. Mais recentemente, em entrevista à Thump, Fatima Al-Qadiri discorreu sobre essa corrente dizendo com razão que “sino grime itself is not really a genre”. Para todos os efeitos, este não-subgénero enforma um número de produções surgidas entre 2002 e 2004 que projecta Xangai como uma espécie de réplica onírica de Londres. Uma utopia sem grande contextualização prática, mas cujos efeitos têm vindo a ecoar discretamente não só na produtora crescida no Kuwait, mas também em coisas como “Big Wok” do Preditah, “Chung Li” do Spyro, “Burnt Ends” do Slackk ou “Rain Falls Hard Here” do Loom – como que a fazer a passagem para a cena weightless de nomes como Mumford e Logos.

No que diz respeito ao objectivo proposto para este artigo, estas dez faixas servem o propósito de criar um estado de abstração do torpor citadino. Para aqueles dias mais lentos, de giros inebriados sem grande destino, e com a cabeça a vaguear para fora das barreiras arquitectónicas.

 


 

[D DOUBLE E] “Birds in the Sky”

Possivelmente o momento mais marcante do sinogrime. Equilíbrio perfeito entre a entrega devastadora e confiante quase casual do D Double E e uma produção luxuriante do Jammer que nunca procura arrancar a ferros algum tipo de pendor épico, “Birds in the Sky” cria o seu próprio misticismo numa cascata panorâmica e paciente de synths, flautas, cítaras e vozes fantasma que pairam numa névoa luminosa eminentemente psicadélica. Sustém-se num plano intangivel entre uma dimensão etérea, uma chillness telúrica e uma aura subreptícia de ameaça – “why? ’cause I’m an evil guy” – ao qual aquele eco feminino confere todo um impacto emocional inusitado.

 


 

[JAMMER] “Mystic”

De entre todos os produtores de grime, Jammer foi aquele que com mais convicção e melhores resultados explorou tonalidades orientais no epicentro grime. “N.A.S.T.Y.“, “Weed Man” ou “Let’s Go” com o Biggaman poderiam ter todas ter aqui lugar, para além das colaborações com o Mr. Wong – que até poderia/deveria fazer parte deste arco narrativo, não fosse meio difícil pensar nele como algo mais do que uma piada auto-consciente. “Mystic” eleva-se numa placidez tão narcótica quanto inquietante que torna supérflua a presença de um MC. Ainda assim, gostava de ouvir o Trim ou o Ears sobre isto.

 


 

[SHARKY MAJOR] “Dis Ain’t a Game”

Novamente o Jammer na produção, desta vez com o Sharky Major num diss anti-diss esperançoso a explorar o confronto entre o sonho – “so many days I’ve found myself drifting away
picturing paradise“ – e a dureza da realidade – “everyday is more beef, more gunshots, more police”. As flautas – sacadas à BSO de Twin Warriors – vozes planantes e a percussão intrincada a flutuarem sob a voz com uma paciência monástica, num acerto indelével com toda a carga lírica – “watch me rise with the morning sun”. Espécie de daydream sobre a forma de canção.

 


 

[XTC] “Functions on the Low”

Face ao statement mais ou menos óbvio das outras faixas aqui presentes, “Functions on the Low” é uma escolha mais tangente e sem qualquer contexto geográfico – circulou durante anos com o nome de “Havana” – mas é impensável deixar de fora os Ruff Sqwad desta lista e o “Chinese Beat” seria uma escolha demasiado subpar. É também um dos melhores instrumentais de sempre. E não é necessário grande esforço mental para projectar imagens do Sol a abater-se sobre as ruas de Xangai naquela melodia cintilante que se vai refractando em camadas fosforescentes a simular flautas e cordas.

 


 

[WILEY] “Mystic Forest”

“Shangai” seria o manifesto de intenções mais óbvio da parte do Wiley neste campo, mas face à condição esquelética e fria do eskibeat e da melodia demasiado gimmicky, “Mystic Forest” demarca-se por uma maior elegância na produção, sem entrar pela via orquestral do “Chinese Riddim“. Mais próxima do lado contemplativo de malhas como a “Firefly” do que das batidas cortantes de clássicos como “Igloo“, “Mystic Forest” ganha balanço no baixo e na batida para se ir enredando numa melodia tão simples quanto hipnótica.

 


 

[WILEY & DANNY WEED] “Blue Rizzla”

Assinada pelo Wiley a meias com o seu parceiro de produção nos Roll Deep, esta mix da “Blue Rizzla” dissolve as festividades chinesas da sua gémea numa cadência quase reggae pontuada por rewinds e rasgos agudos sem nunca encetar retorno, numa espécie de versão sino da “Ice Rink“.

 


 

[ROLL DEEP] “Celebrate That”

Danny Weed na produção a pedir emprestado ao Wiley apontamentos da “Ice Rink” para as adensar às custas de violinos e flautas insistentes nesta festa de vistas largas de onde o Scratchy sai vencedor. Não sendo o stormer de “When I’m Here” – quase nada o é – “Celebrate That” é melhor na sua versão single do que aquela presente no plenamente satisfatório Rules and Regulations e uma das raras vezes em que a atmosfera sino se reveste de um carácter mais esfuziante e festivo.

 


 

[DIZZEE RASCAL FEAT. WILEY & SHARKY MAJOR] “I Luv U Remix”

Na sua versão original “I Luv U” é uma das melhores canções de sempre, e esta remix fica apenas um passo atrás, o que por si só é dizer muito sobre as suas virtudes. Gravada numa altura em que o Dizzee e o Wiley ainda se davam, deixa de lado a tensão nascida do diálogo entre o MC e a voz feminina para assumir uma faceta mais devastada na sua complacência, toda ela cordas romantizadas e synths dolentes. Tagencialmente, “Brand New Day” também se deixa assombrar por espectros chineses naquele synth de néon.

 


 

[WIZZBIT] “Shadows”

Alias grime do Geeneus que está na eminência de regressar algures este ano, Wizzbit toma pulso às ruas de Xangai em “Poppadoms” e “Shadows”. Enquanto a primeira está mais próxima do cânone grime, numa luta benigna entre a clareza das cordas e o baixo áspero que teve direito a uma versão vocal por parte do Riko, “Shadows” pauta-se por uma subtileza de processos que a põe em linha com o ponto de ruptura do grime com a UKG, numa continuidade com “Duppy” ou “Far East” do Exemen, antecipando até a passagem para o 4/4 que viria a tomar forma alguns anos depois.

 


 

[DUSK & BLACKDOWN FEAT. TRIM] “The Bits”

Saindo fora do eixo temporal das malhas anteriores, “The Bits” é um acto conscientemente sinogrime da parte do duo de inclinações dubstep formado por Dusk e Blackdown – aka Martin Clark, que teve uma coluna dedicada ao género na Pitchfork. Enquanto acesso reverente, “The Bits” nunca procura reinventar a corrente, funcionando como uma visão fragmentada de tudo aquilo que a precedeu feita com a elegância e o coração necessários para não cair num redundante exercício de citação esperta. Acima de tudo, é uma oportunidade para deixar aqui algo do Trim neste contexto.

Bruno Silva

Músico e programador. Fascinado por realidades alternativas e pela natureza especulativa das coisas.

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