Vários Artistas // Undulating Waters 1, 2 e 3

[TEXTO] Rui Miguel Abreu

É fácil entender o “regresso ao campo” de muitos dos artistas conotados com as correntes hauntológicas. Quem embarque numa viagem de comboio a partir de Londres rumo ao norte rural de Inglaterra perceberá que o filme verde que se desenrola nas janelas traz marcas de um tempo que as grandes metrópoles fizeram por esquecer. Por enterrar, mesmo. Assim se entendem, portanto, as constantes referências a “villages”, a ruínas e a lugares abandonados que os catálogos de editoras como a Ghost Box, Café Kaput ou A Year in The Country contêm. Esta música, que vive de uma reinterpretação dos códigos da memória, ainda reconhece o tempo que referencia nos lugares que não se vergaram ao rebuliço do progresso.

Woodford Halse será, certamente assim. É um lugarejo de Northampshire, condado que fica na zona de East Midlands, no coração de Inglaterra, portanto, que ainda retém marcas arquitectónicas do mesmo passado catódico que a electrónica hauntológica explora com afinco e imaginação. Woodford Halse é também o projecto editorial de Mat Handley, um agitador que se move em múltiplos planos (cabeça por trás dos Pulselovers, responsável pelo programa de rádio You, The Night and the Music, etc) e que imaginou a série Undulating Waters que conta já com três volumes, o mais recentes dos quais lançado há apenas algumas semanas.



A série Undulating Waters foi pensada para reunir música inédita de artistas de todo o globo sintonizados na mesma frequência assombrada pelo passado: electrónica tingida de folk e de tons psicadélicos, capaz de cruzar marcas tão variadas quanto as que se poderiam encontrar na cena industrial de finais dos anos 70, na minimal wave, no krautrock, nas múltiplas tonalidades da library music de etiquetas como a KPM ou Themes e nas experiências concretas do omnipresente Radiophonic Workshop, colectivo que funciona como uma espécie de molde original para o tipo de sonoridade que se explora neste campo específico.

A Woodford Halse acusou no nosso radar porque neste volume mais recente de Undulating Waters se inclui uma faixa dos portugueses Folclore Impressionista, projecto que se alinha na perfeição com a estética aqui explorada. “Music For Television”, o tema com que contribuem para a compilação, parece partir de uma amálgama dos genéricos de programas como O Homem e a Terra, mítica série apresentada pelo naturalista Félix Rodriguez de la Fuente que foi rodada entre 1974 e 1980, ou dos documentários do oceanógrafo Jacques Costeau que explorou os mares a bordo do Calipso. Essa sugestão inicial é depois distorcida, manipulada, com a “ondulação” típica da fita magnética (efeito walkman com baterias fracas…) a impor uma deslocação lisérgica do tempo num exercício invulgarmente upbeat para o projecto de João Paulo Daniel, António Caramelo e Sérgio Silva.



Dado curioso é que nesta compilação as diferentes entradas divergem dramaticamente, com passagens mais ambientais (Yumah, Simon McCorry) ou com mais vincadas personalidades rítmicas (Keith Seatman, Fred Und Luna), umas mais folky (Misty Bywater) outras ainda claramente inspiradas no tipo de bandas sonoras que poderiam ajudar a ensombrar o ambiente de slasher films de baixo orçamento dos anos 80 (Slovenska Televiza) e, pois claro, nas pioneiras experiências analógicas da trupe de John Baker e Delia Derbyshire (The Twelve Hour Foundation). Que todas façam sentido quando alinhadas é, obviamente, um sinal da ideia clara de curadoria que a Woodford Halse aqui imprime.

Essa capacidade de ligar todos esses pontos é, aliás, uma característica igualmente presente nos outros dois volumes de Undulating Waters em que pontuam nomes familiares para quem se tenha perdido nos últimos anos nos labirintos hauntológicos, casos de Polypores (com edições na Castles In Space), Time Attendant (More Than Human, Exotic Pylon), Life Education (Spercious Arts), Spaceship (The Dark Outside), The Heartwood Institute (Polytechnic Youth) ou, entre outros, Grey Frequency (A Year in the Country), todos capazes de fascinantes fantasias erguidas com sintetizadores, samplers, gravadores de fita e efeitos, explorando aspectos menos funcionais da electrónica que resultam, no entanto, em evocativas passagens que bastas vezes nos remetem para memórias televisivas, tal a aparente familiaridade de algumas das melodias. “Neap Tide” de Newlands, misterioso projecto abrigado no segundo volume destas Undulating Waters, poderia ter ilustrado um documentário sobre espeleologia dos anos 70 em que nos pudéssemos ter perdido, com um misto de medo primal e de fascínio, num fim de tarde pós-escola algures à entrada dos anos 80…

Uma nota final para o cuidado, sempre constante nos domínios da hauntologia, do artwork das cassetes que a Woodford Halse edita, cada uma embalada em caixa de plástico transparente, com capa impressa em cartão de qualidade de painéis dobrados e com um cartão inserido (“cigarette card”, como é descrito) que contém um excerto de um texto de Paul Bareham sobre os mistérios da localidade que empresta o nome a esta editora. Essa moldura gráfica contribui de forma decisiva para a sólida identidade estética da série Undulating Waters com cada um dos três volumes a convidar ao mergulho incondicional que, sem apelo nem agravo, nos leva a emergir num local estranhamente cativante, tão imaginado quanto real, num passado sépia não dominado ainda pela ditadura dos zeros e uns. O escape pode, de facto, ser o melhor remédio. Tudo depende de onde se quer fugir…


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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